Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Conto de Baudelaire tem muito a dizer sobre o século 20 e sobre o Brasil atual

O escritor francês “antecipa”, num texto, o totalitarismo do século 20 e a ação da esquerda corrupta no Brasil

Sinta, leitor, nas linhas a seguir, o talento de Charles Baudelaire (1821-1867 — viveu apenas 45 anos). Comento o conto “Cada qual com sua quimera”, do escritor francês, em seguida.

Charles Baudelaire, um dos mais importantes poetas franceses | Foto: Reprodução

“Cada qual com sua quimera”

“Sob um grande céu cinzento, em uma grande planície sem sendas, sem relva, sem um cardo, sem uma urtiga, encontrei vários homens que caminhavam encurvados.

“Cada um deles carregava nas costas uma enorme Quimera, tão pesada quanto um saco de farinha ou carvão, ou a mochila de soldados da infantaria romana.

“Mas o monstruoso animal não era um peso morto; ao contrário, ele cingia e oprimia o homem com seus músculos elásticos e poderosos. Ele atrelava-se ao peito de sua montaria com suas duas grandes garras, e sua cabeça fabulosa elevava-se acima da fronte do homem, como um desses horrendos capacetes com os quais os antigos guerreiros pretendiam ampliar o terror do inimigo.

“Interroguei um desses homens, perguntando-lhe para onde ia daquele modo. Ele disse que não sabia; nem os demais. Mas, obviamente, eles iam a algum lugar, porquanto eram impelidos por uma necessidade invencível de andar.

“Observação curiosa: nenhum daqueles viajantes parecia irritar-se com a besta feroz pendurada em seu pescoço e agarrada às suas costas. Poderíamos dizer que eles as consideravam partes de si mesmos. Todos esses rostos cansados e circunspectos não exibiam qualquer desespero. Sob a cúpula melancólica do céu, os pés imersos na poeira do chão tão desolado quanto aquele firmamento, caminhavam com o semblante resignado dos que foram condenados a esperar para sempre. E o séquito passou junto a mim e mergulhou na atmosfera do horizonte, no ponto em que a superfície recurva do planeta se esquiva à curiosidade do olhar humano. E por uns instantes eu me obstinei em penetrar naquele mistério; mas logo uma indiferença irresistível caiu sobre mim e me quedei ainda mais pesadamente oprimido do que eles mesmos por suas esmagadoras Quimeras.”

Comentário sobre o conto e a realidade

Neste breve conto fantástico, repleto de figuras de linguagem, o poeta francês parece profetizar o peso que cairia sobre a humanidade 50 anos mais tarde, com o comunismo leninista-stalinista e depois com o fascismo de Benito Mussolini e o nazismo de Adolf Hitler. Pessoas, grupos, partidos, nações, grande parte do planeta, enfim, experimentaria, de maneira voluntária ou forçada, a passiva angústia de que falou Baudelaire.

Cada ideia tem sua força, que só pode ser avaliada após transformada essa ideia em prática e produzidos seus resultados. E pode aí residir a felicidade ou a perdição dos homens. A ideia da igualdade entre os homens, cada qual ofertando de acordo com sua capacidade e recebendo conforme sua necessidade, numa concepção materialista do universo, afastada qualquer ilusão metafísica, prometia a todos o melhor mundo possível. Marx e Engels seriam os cristos da religião do novo homem — o comunismo —, posta em prática por Lênin e Stálin. Por ela, o deus estava neste mundo, personificado no Estado, pai e provedor de todos os componentes da massa humana, fraterna e homogênea. Essa ideia desaguou na Revolução Russa de 1917.

Criou-se como que uma religião, embora se proclamasse uma filosofia. Mas não seria religião e nem filosofia; era apenas uma desapiedada Quimera, ver-se-ia mais tarde. Uma crença de superioridade na raça e na tradição histórica e cultural — o fascismo — tomaria conta da Itália, quase à mesma época da Revolução Russa de 1917. Seu teórico era o filósofo Giovanni Gentile e sua prática se iniciava com o discípulo e colaborador Benito Mussolini. Outra Quimera.

Hitler e Stálin foram aliados em 1939 e, depois, inimigos. Ambos mataram milhões de pessoas no século 20 | Fotos: Reproduções

Quase ao mesmo tempo a ideia de supremacia racial branca do francês Arthur Gobineau e do inglês Houston Chamberlain tomava corpo nos países de língua alemã e nas minorias germânicas de vários países da Europa e outras partes do mundo. Surgia o nazismo, reforçado pela teoria do filósofo Friedrich Nietzsche sobre o super-homem, acima do bem e do mal, e posto em prática pela máquina de guerra de Adolf Hitler. Mais uma Quimera; afinal o século 20 seria o século delas, e elas seriam cruéis.

O nazismo se estabeleceria na Alemanha e satélites em 1933, faria sólida aliança com o fascismo italiano, uma aliança eventual com o comunismo (o pacto nazi-soviético, de agosto de 1939) e lançaria o mundo em sua maior guerra (1939-1945) Terminada esta, nazismo e fascismo, perdedores, desapareciam, para todos os efeitos práticos, da face da terra.

Mas uma dessas três Quimeras continuaria bem viva. O comunismo estava firmemente fincado em boa parte da Europa, na China e ameaçava se espalhar pela África e América Latina. Manteve sua aparência de solidez por meio século, sabendo dissimular sua fraqueza, seu fracasso, as mortes e os sofrimentos que impôs aos seus devotos voluntários ou forçados. E mesmo depois de esboroada tenta, em várias partes do mundo, uma sobrevida, ainda que que só o consiga nas condições mais miseráveis. É uma Quimera alquebrada, que teima em não desaparecer, e que, como todas, nega ser Quimera.

Não poderia supor Baudelaire que as Quimeras por ele pintadas em seu pequeno conto, assoladoras de um grupo de homens, em décadas estariam às costas de meia humanidade, músculos tensos e garras cravadas em milhões de homens, já cientes de que transportavam Quimeras, mas sem forças ou vontade para despejá-las e seguirem em frente aliviados. A humanidade conseguiu sacudi-las, deitá-las ao chão, asas quebradas, garras partidas, no fim do século passado. Mas elas ainda resistem em alguns lugares do mundo ou em alguns grupos, em muitos lugares do mundo. Quimeras sempre se recusam a morrer, e sempre existirão os prontos a carregá-las nos ombros, sem saber que são Quimeras, sem sentir seu peso, sem se aborrecer com suas garras, sem saber para onde vão, embora andem sempre, como já fazia saber Baudelaire.

O deserto brasileiro

Procure o leitor à sua volta e vai constatar que hoje, mais de século e meio depois do escrito, existe o que o poeta francês relatava em sua visão fantástica: quantos partidos no Congresso brasileiro se comportam como o bando de homens descrito no deserto baudelairiano?

Integrantes do PT, PSOL, PC do B — e outros partidos — caminham sem se afligir, naturalmente, portando e defendendo até com veemência suas Quimeras, responsáveis por milhões de mortes, por incomensurável sofrimento, por fome e fracassos econômicos mundo afora. Responsáveis no Brasil pelo maior ataque aos recursos públicos, que levou ao tribunal e depois à cadeia os seus maiores líderes, fazem o mesmo. Responsáveis pelo desvio de recursos do banco brasileiro de fomento para Cuba, Venezuela, Angola, Nicarágua, Equador etc., em volumes nunca vistos e que faltam para nosso desenvolvimento e para dar trabalho aos nossos milhões de irmãos desempregados — e desesperados, idem.

Se o leitor olhar à sua volta, verá que conhecidos seus, e até amigos, também marcham sem ver estes desmandos que por décadas sofremos. Conduzem às costas suas Quimeras. Pedem liberdade para seu líder preso por roubar o povo que jurou servir. Abominam reformas que visam corrigir ao menos em parte a tremenda e injusta situação em que os mais pobres e trabalhadores bancam a remuneração ou aposentadoria dos mais ricos e preguiçosos. Defendem um Estado ineficiente e corrupto e odeiam os que empreendem, pagam impostos e geram empregos a duras penas. Eles estão entre nós. Alguns, poucos, bem-intencionados, mas cegos, religiosamente cegos, marchando sem rumo como no conto de Baudelaire. Outros, levados por seu interesse imediato. Mas todos, rigorosamente todos, equivocados, gastando sua energia — e a nossa — para transportar e alimentar suas alquebradas Quimeras.

2 respostas para “Conto de Baudelaire tem muito a dizer sobre o século 20 e sobre o Brasil atual”

  1. Marisa (a)Penas disse:

    Excelente análise. Parabéns ao autor.

  2. João Aquino Batista disse:

    Intelectual íntegro e perspicaz, Irapuan Costa Jr. é daqueles que respeito e chamo de direita inteligente, sabendo que essas divisões ideológicas são quiméricas filosoficamente. Mas, a direita burra e tão nociva quanto a esquerda burra. Parabéns por mais uma análise poderosa da nossa realidade brasileira.

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