Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Compreendendo o caleidoscópio brasileiro

Algumas obras, tanto no estudo social quanto na ficção, são fundamentais para a compreensão da nossa realidade

“Casa-Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Os Sertões”, de Euclides da Cunha: clássicos indispensáveis | Fotos: Reprodução

Na segunda metade dos anos 1970, em razão dos cargos que ocupava, viajei por vários Estados e assisti a muitas cerimônias públicas. Chamou-me a atenção um fato para que poucos atinavam: a execução do Hino Nacional brasileiro, ainda que por bandas militares ou policial-militares praticamente idênticas e obedecendo, obviamente, às mesmíssimas partituras, seguia nuances diferentes, conforme o lugar do país onde nos encontrássemos, principalmente na postura dos maestros.

Os gaúchos comandavam sua execução com uma exuberância que não existia quando a banda executante pertencia a uma formalíssima corporação paulista. Os maestros das bandas mineiras adotavam uma recatadíssima postura, quase de contrição, enquanto os cariocas pareciam buscar antes de tudo a musicalidade na execução de nosso hino.

Apenas um ínfimo detalhe que apresento aos leitores para afirmar o verdadeiro mosaico que é nossa terra, tão rica quanto ainda distante de encontrar sua homogeneidade social, cultural e econômica. Para governar o Brasil seria preciso não só conhece-lo como entende-lo em sua diversidade, coisa que ocorreu com pouquíssimos dos presidentes que tivemos.

Os presidentes do ciclo militar, por terem servido, em suas carreiras, nas diferentes regiões brasileiras, e por planejarem, o que é um componente obrigatório da caserna, puderam governar com um ordenamento econômico relativamente tranquilo, ainda que um dos governos (Geisel) tenha enfrentado uma das maiores crises mundiais, correspondente aos chamados “choques do petróleo”.

A visão extraordinária de Juscelino Kubistchek, que se não conhecia fisicamente todas as regiões do pais, comprovadamente as estudava, permitiu os avanços de todos conhecidos, com destaque para a necessária interiorização brasileira.

O fato é que vivemos em uma vasta extensão geográfica, com uma unidade linguística não observada em outros países de dimensões comparáveis. A despeito disso, constituímos um mosaico cultural, étnico e até econômico, em virtude de nossa formação, das diferenças climáticas, das imigrações experimentadas, das ocupações de espaço diferenciadas no tempo, das características geográficas e geopolíticas.

Para compreender nossas raízes, o que nos iguala e nos separa e fazer as inevitáveis ilações para o futuro, é que faço uma lista dos livros que imagino essenciais para que se forme uma visão mínima dessa colcha de retalhos brasileira.

Não basta ler ensaios ou clássicos para entender minimamente um país. A ficção é também fundamental para a compreensão de um povo. Até porque a história inventada nunca o é de todo. Já dizia o filósofo britânico Herbert Spencer: “Esquecemo-nos, muito frequentemente, de que existe um fundo de verdade mesmo nas coisas falsas”.

Lendo esses livros, poderemos começar a compreender o Brasil que temos e imaginar o Brasil que queremos. É uma lista muito pessoal, que pode ser acrescida, resumida ou mesmo substituída por outra pessoa interessada no assunto. Há que se começar com dois dos maiores clássicos nacionais, “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre e “Os Sertões”, de Euclides da Cunha.

  • Sobre a Região Norte:

  • À Margem da História – de Euclides da Cunha
  • Inferno Verde – de Alberto Rangel
  • A Amazônia e a Cobiça Internacional – de Arthur Cesar Ferreira Reis
  • O Rio da Dúvida – de Candice Millard
  • Sobre a Região Nordeste:

  • Menino de Engenho – de José Lins do Rego
  • O Quinze – de Raquel de Queiroz
  • Vidas Secas – de Graciliano Ramos
  • Tieta do Agreste – de Jorge Amado
  • Sobre o Centro-Oeste:

  • Tropas e Boiadas – de Hugo de Carvalho Ramos
  • Ermos e Gerais – de Bernardo Élis
  • Naqueles Morros, Depois da Chuva – de Edival Lourenço
  • Viagem ao Araguaia – de Couto de Magalhães
  • Sobre a Região Sudeste:

  • Tutaméia – de Guimarães Rosa
  • Bandeirantes e Pioneiros – de Vianna Moog
  • O Sonho das Esmeraldas – de Paulo Setúbal
  • O Cortiço – de Aluízio Azevedo
  • Dom Casmurro – de Machado de Assis
  • Urupês – de Monteiro Lobato
  • Sobre a Região Sul:

  • Contos Gauchescos – de J. Simões Lopes Neto
  • O Tempo e o Vento – de Érico Veríssimo (trilogia)
  • Um Rio Imita o Reno – de Vianna Moog
  • Mares e Campos – de Virgílio Várzea

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