Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

Carlos Chagas, Rondon e César Lattes quase ganharam o Prêmio Nobel

Os três brasileiros, um deles com o endosso de Albert Einstein, foram lembrados para o Nobel, mas não levaram devido à escassa projeção do Brasil no exterior

Desde sua institucionalização, em 1901, o Prêmio Nobel é a láurea mais importante e cobiçada no mundo, por cientistas, escritores e políticos. Além da fama global que confere a quem o recebe, ainda leva agregado um mimo material nada desprezível, que beira 1 milhão de dólares americanos. Os agraciados anuais, cerca de uma dezena (teoricamente seriam seis: um economista, um escritor, um físico, um químico, um médico e um pacifista, mas pode o prêmio ser dividido por até três ganhadores), se cientistas ou economistas, serão disputados pelo mercado mundial; se escritores, terão seus livros escritos ou a escrever com tiragem garantida, bons ou ruins que sejam; já se forem ativistas da Paz, embora mundialmente famosos, nem sempre terão garantia de futuro tranquilo. O prêmio já foi concedido a cerca de 900 pessoas ou instituições (o Nobel da Paz pode ser concedido a organizações, ao contrário dos demais). Metade dos ganhadores é de fala inglesa; mais de um terço são norte-americanos; três países têm mais de cem laureados (EUA, Alemanha e Inglaterra). Há outras curiosidades: apenas três mulheres até hoje foram ganhadoras do Nobel de Física; até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a Europa (Alemanha, Inglaterra e França principalmente) era a grande detentora de prêmios Nobel, passando os EUA a liderar a corrida desde então; a União Soviética (e a Rússia, sua sucessora) nunca foi uma grande colecionadora de prêmios Nobel, apesar do esforço despendido e da gigantesca propaganda marxista (27 prêmios até 2017, menos que os 31 da Suécia, e empatada com Japão, praticamente igualada com os 26 da Suíça).

Setenta e dois países já têm ao menos um Nobel — e não somos um deles. Muitos países têm uma dezena ou até uma vintena de prêmios, e não são apenas os mais desenvolvidos culturalmente (Itália, Hungria. Dinamarca, Israel), mas nações que ombreiam conosco em dificuldades, pobreza e infortúnio político (África do Sul, Austrália, China). Toda e qualquer comparação tomando como parâmetro o Nobel, nos é vergonhosa. Nos Brics, somos os únicos não contemplados. Nos países de língua portuguesa, Portugal ganhou duas vezes, e Timor Leste idem. Se falarmos de América Latina, o vexame só faz ampliar. Nossa vizinha e rival Argentina detém cinco Nobel; o México, três; o Chile e a pequena Guatemala, dois; Colômbia, Costa Rica, Peru e Venezuela, um cada). E ainda mais, países mais atrasados culturalmente e mais pobres economicamente já produziram seu Nobel, enquanto aqui, nada. Exemplos: Albânia, Bulgária, Chipre, Gana, Nigéria e Tunísia. As perguntas inevitáveis: poderíamos ter alcançado o Nobel? Por que não alcançamos?

O Nobel brasileiro

Respondendo à primeira pergunta: poderíamos ter alcançado um Nobel em alguma ocasião? Sim, ao menos em três ocasiões. Deixemos de lado as movimentações que as esquerdas sempre fazem para emplacar alguém deles, e disso aproveitar politicamente, que nunca tiveram chance, como Jorge Amado, escritor popular no Brasil, mas pouco acolhido pela crítica internacional, ou Zilda Arns, dedicada a ponto de morrer em trabalho social, mas também sem a projeção global que credenciasse a um Nobel, ou mesmo Dom Helder Câmara. Os três brasileiros que tinham estatura para ser um prêmio Nobel (e quase o foram) eram Carlos Justiniano Ribeiro Chagas (1879-1934), Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958) e César Mansueto Giulio Lattes (1924-2005).

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Carlos Chagas: o médico poderia ter ganhando o Nobel, porque tinha méritos, acabou de fora por falta de projeção do Brasil

Carlos Chagas, médico por vocação, chegou a estudar engenharia por pressão da mãe, mas abandonou o curso e felizmente formou-se em medicina. Discípulo de Oswaldo Cruz, também sanitarista, estudioso da malária e parasitoses sanguíneas, conseguiu um avanço admirável para a época: identificou o agente patológico da enfermidade que levaria seu nome (Doença de Chagas), um protozoário que batizou de tryipanosoma cruzi (em homenagem a Oswaldo Cruz), seu vetor, o inseto chamado barbeiro, e os testes para sua detecção e diagnóstico. Carlos Chagas recebeu as maiores honrarias da comunidade sanitária internacional e vários prêmios de governos estrangeiros, mas não sensibilizou os jurados suecos e noruegueses. Seu nome foi apresentado ao comitê julgador do Nobel por duas vezes, em 1913 e 1921, mas não houve respaldo considerável. Doenças tropicais não eram ameaça na Europa, e eram coisa muito distante e desimportante para a ciência europeia, no pensar do Comitê do Prêmio Nobel.

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Marechal Rondon: apesar do empenho de Theodore Roosevelt e do endosso de Albert Einstein, o brasileiro que ligou regiões do Brasil e protegeu os índios não ganhou o Nobel

Cândido Mariano Rondon, o Marechal Rondon, foi um exemplo de superação das próprias limitações, da persistência, da competência e da solidariedade de fato. Descendente de indígenas, órfão, interiorano, paupérrimo, conseguiu sair de seu Mato Grosso natal e sentar praça no Exército no Rio de Janeiro. Não tinha outra alternativa, para ao mesmo tempo estudar e trabalhar, ganhando um mínimo para a subsistência. Mas era esse também seu sacerdócio: na carreira militar seria um desbravador, estendendo linhas telegráficas para a então desabitada vastidão do centro-oeste e do norte brasileiros, e ligando telegraficamente Brasil, Paraguai e Bolívia. Mas seria muito mais que isso: descendente de índios Terenas, falava vários dialetos indígenas e manteve contato com tribos hostis de uma dezena de etnias, conseguindo pacificá-las sem nunca fazer uso da força. Houve sofrimento entre nossos indígenas? Houve alguns excessos dos brancos? Certamente. Mas não como política de governo, de subjugar pela força, como aconteceu por exemplo, nos EUA. Após a Independência, e principalmente após a proclamação da República, para a qual Rondon contribuiu, abusos sofridos pelos nossos índios foram ações de marginais, de fora-da-lei. A interiorização pacífica de Rondon, a ocupação dos espaços vazios do país, a aproximação com os indígenas brasileiros, que outro dificilmente poderia fazer com a sensibilidade e a dedicação que eram suas características, o tornaram, a despeito de sua modéstia e recolhimento, uma figura admirada.

Foi descrita, no admirável livro “O Rio da Dúvida”, da escritora norte-americana Candice Millard, a excursão que Rondon chefiou em 1914 pela Amazônia, na companhia do presidente norte-americano Theodore Roosevelt, e que quase custou a vida deste último. Roosevelt tinha Rondon na mais alta conta, e parece ter sido por sua influência a indicação de Rondon para o Nobel, por uma entidade militar norte-americana em 1925. Indicação que mereceu o endosso de Albert Einstein, em carta ao comitê do Nobel. Infelizmente, Rondon não foi premiado.

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César Lattes: o cientista que descobriu o méson pi quase levou o Nobel de Física de 1950, mas os suecos deram o prêmio apenas a Cecil Frank Powell

César (registrado como Cesare) Lattes, por ser mais moderno, é o mais conhecido dos três brasileiros que poderiam ter sido contemplados com o Nobel. Físico formado pela USP, teve carreira brilhante. Único físico brasileiro a fazer descobertas importantes, detectou em 1947 uma partícula subatômica, o meson pi e conseguiu produzi-la em laboratório anos depois. Poderia ter sido premiado com o Nobel pelas duas façanhas. Da primeira vez, em 1950, o Nobel foi para o inglês Cecil Powell, chefe da equipe de Lattes, embora a descoberta e publicação fossem de autoria do brasileiro. Não existia ainda a divisão do prêmio, que viria a ser adotada apenas dez anos mais tarde, e Powell, além de britânico, era mais conhecido. Da segunda vez, o parceiro de Lattes faleceu pouco antes da concessão do prêmio, e como o Nobel não premia postumamente, não concederam a honraria a Eugene Garden e Lattes não foi lembrado. Na comunidade científica internacional os comentários sobre a não premiação a Lattes foram intensos e duram até hoje.

Estes três brasileiros foram benfeitores da humanidade. Seus trabalhos vieram para afastar sofrimentos, elevar padrão de vidas, salvá-las, promover a paz, a aproximação e a compreensão entre os homens. Mas não foram ignorados apenas pelo Nobel. A idiotice nacional persiste em lembrar quem destruiu, assassinou e dividiu nessas terras. Há até filmes brasileiros sobre facínoras como Ernesto Che Guevara e Carlos Marighella. Ninguém filma a vida de Chagas, Rondon e Lattes, sinal de que muito há a mudar na consciência nacional.

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Jairo Antonio Ribeiro

Graças a Deus, nem sua mudança para Portugal o impediu de continuar escrevendo editoriais para os jornais goianos. Que Deus lhe dê saúde e vida longa, nos proporcionando pelo menos um dia dia prazer na semana, ao ler seus artigos. Parabéns Dr. Irapuan.

IRAPUAN COSTA JUNIOR

Obrigado Jairo. Mas não vou me mudar. Apenas passar umas temporadas no avôzinho Portugal e estudar um pouco de história

Giuliano Rangel

Vital Brazil e Oswaldo Cruz nunca concorreram?

IRAPUAN COSTA JUNIOR

Que eu saiba nem Vital Brasil nem Oswaldo Cruz foram indicados