Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

A arte de recuperar o tempo perdido pela memória

Foto: O grito, de Edvard Munch

Foto: O grito, de Edvard Munch

Dizia o cartaz, na portaria: “Aluga-se o apartamento de número 614 neste prédio”. Sem hesitação, ele entrou e disse ao porteiro, apontando para o anúncio: “Quero vê-lo”. “Vou mostrar ao senhor”, disse o gordo — pois era gordo, homem —, tomando da gaveta um molho de chaves.

Elevador. Sexto andar. “Faz favor”, disse o porteiro, cedendo a passagem. Ele saiu pelo corredor de muitas portas. Caminhou seguro, até que parou em frente a uma delas. Não precisava olhar os números para parar em frente àquela, que marcava: 614. Esperou que o porteiro a abrisse.

Entraram na pequena habitação: uma sala e um quarto conjugados, um banheiro, uma cozinha. Os cômodos pareciam um pouco menores, mas eram eles mesmos. Procurou o armário barato, que ficava no canto da sala. Não estava ali, mas ele podia vê-lo com exatidão: sua madeira clara, as quinas arredondadas, o espelho manchado nos cantos e a porta que não fechava bem, deixando perceber nos cabides baratos as roupas simples de estudantes.

Viu também os três sofás-camas de ocasião, com seus forros desbotados, lugares de sono e repouso que só vinham a altas horas, depois de muito tempo de estudo. Viu-os, embora não estivessem ali. Viu também o lençol, a coberta fina e o cobertor sapeca-negrinha que ficavam dobrados no pé de cada sofá, sob o travesseiro: era uma regra da república cada um dobrar os seus pela manhã, ao levantar.

Via tudo, como vira tantas e tantas vezes, ao entrar no fim do dia, cansado das aulas e do trabalho como estagiário. Ganhava pouco, mas valia. Podia complementar a mesada que o pai, com grande dificuldade, lhe mandava, religiosamente, sempre no primeiro dia do mês. E aprendia na prática os rudimentos da futura profissão.

O banheiro em nada havia mudado. Ali estava a banheira que ficava sempre cheia, para atender às mínimas necessidades, nas constantes faltas de água. Lá estava também o chuveiro, onde aplicavam um bom banho frio, quando algum deles se excedia na bebida e chegava turbulento, perturbando os outros, que estudavam para as provas na faculdade. O armário de plástico na parede de azulejos brancos ainda era o mesmo — ou teria sido trocado por outro mais novo, porém idêntico? Teve a impressão de que, se o abrisse, lá estariam três escovas de dentes e os apetrechos de barbear, com que raspavam, solene e orgulhosamente, os pelos das barbas ralas recém-aparecidas e os quase imperceptíveis bigodes.

O pequeno basculante do banheiro não havia sido mudado, mas estava pintado de novo e os vidros, antes lisos, agora eram canelados. Era o basculante pelo qual, à noite, luzes apagadas, revezando-se, espreitavam as incautas vizinhas que trocavam de roupa nos apartamentos da testada em frente. Lembrou-se que uma delas, a de formas mais apetitosas, era Mara, corista daquele teatro da Praça Tiradentes. A persiana do quarto, de correr, da enorme e única janela que dava para o pátio, parecia apenas mais velha, e mesmo sem movê-la, podia ouvir o ruído que fazia, quando corria nos trilhos pouco lubrificados.

O pátio embaixo estava igual, com suas plantas que sempre pareciam tristes, por pouco cuidadas. Mas um paredão de cada lado mostrava que as duas vetustas casas dos terrenos vizinhos tinham sido sequestradas por outros prédios, tão altos quanto aquele onde estava.
Olhando em volta do apartamento — ou da república de estudantes que fora um dia —, viu a estante de cerejeira, e nas prateleiras os retratos das namoradas, o despertador a corda, os livros, e, sobre o forro de crochê que a mãe havia tecido, o rádio de válvulas. Nele ouviam a Rádio Nacional, e entre outros programas, o “Repórter Esso” e as “Músicas na Passarela”. Este último era o preferido: as músicas suaves não tiravam a concentração, enquanto estudavam.

A estante, haviam-na comprado por uma ninharia, numa daquelas lojas de móveis da Rua do Catete, mas tiveram que juntar os restos das mesadas dos três, para pagá-la. O rádio — quase podia ouvi-lo, com sua incurável estática — havia sido presenteado pelo pai do mais remediado do trio. Estante e objetos estavam lá, absolutamente nítidos, embora ninguém mais, além dele, pudesse vê-los.

Abriu a porta da pequena, para não dizer minúscula cozinha, e imediatamente viu, embora há muitos anos tivessem saído dali, a mesinha e a cadeira de compensado que ele usava para estudar em maior isolamento. Sobre a mesinha, o abajur de latão pintado e a lâmpada azulada — chamava-se luz solar, e diziam que poupava os olhos —, as folhas de papel almaço, a régua, o esquadro, o compasso e a caneta Bic.

Na pequena pia também não estavam, embora ele pudesse vê-los com nitidez, o filtro de barro e a cafeteira italiana, que o padrinho, um médico de posses, lhe dera. Nela era fácil e rápido fazer um café para espantar o sono, quando ameaçava o estudo para as provas escritas ou orais.

O porteiro, parado, olhava intrigado suas mudanças de expressão: ora sorria, ora fechava o semblante, conforme a cor das lembranças que iam brotando. Devia estar pensando que ele não regulava bem, mas isso não lhe importava o mínimo.

O piso de granitina da cozinha tinha sido conservado, como o do banheiro, mas os tacos de madeira da sala e do quarto tinham sido substituídos por uma imitação de assoalho, o que lhe pareceu, no momento, quase uma ofensa.

Mais um olhar em volta: podia ver tudo como era antes. Tudo? Não, algo essencial faltava, algo que ele não mais via nem sentia, ainda que procurasse. E que era, afinal, o que ele fora buscar ali: onde estava aquela alegre juventude que impregnava o ambiente e parecia destinada a ser eterna? Onde estavam aqueles três rapazes, risonhos e dispostos, mesmo nas horas mais difíceis de suas regradas vidas de estudantes? Onde eles, que preenchiam aquelas paredes com suas risadas sinceras, suas sentenças absolutas, suas afirmações que derramavam otimismo e confiança? Onde estavam aqueles três, que não mais os via, com seus corações cheios da mais válida emulação e suas mentes repletas dos mais legítimos projetos e sonhos? Onde estariam? E seus desejos, seus planos, suas doiradas visões de futuro, para onde haviam voado?

Teve a impressão de que veria um deles, como sempre via, ao chegar em frente ao armário do banheiro. Mas foi apenas ligeira ilusão. Viu alguém muito diferente, ainda que guardasse longínqua semelhança com um dos rapazes. Era apenas um senhor com um ar grave, rugas de preocupação na testa franzida e comissuras nos cantos dos lábios, que só poderiam ser de velhice, cansaço ou tristeza. Sentiu vontade de gritar, com todas as forças: Voltem! Mas não faria o que sabia inútil. Não seria ouvido jamais.

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