Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

10 razões da diferença de desenvolvimento entre os EUA e o Brasil (parte 5)

O crescimento e o desenvolvimento do Brasil são, em larga escala, travado pelo establishment esquerdista e pelo corporativismo do Legislativo

Terminemos essa nossa discussão sobre o que nos separa dos Estados Unidos em desenvolvimento, e sobre o que fazer para reduzir a dianteira que o gigante do norte tem à frente do Brasil, também gigante, mas adormecido em berço esplêndido. O dinamismo da história mostra que não há impérios eternamente dominantes, pelas armas ou pela economia. A hegemonia estadunidense já sente o resfolegar da China em seus calcanhares, uma nação que foi subalterna por séculos. Os chineses conseguiram enormes avanços cedendo terreno político para uma vibrante economia de mercado. Até agora conseguem uma convivência, com a ditadura restrita ao que delimitou como seu e respeitando o que delimitou como de livre economia. Fatalmente, no futuro, um confronto tenderá a se produzir, principalmente porque a economia se torna mais poderosa e a ditadura tende a se tornar mais questionada. Mas isso é futurologia pura, coisa de adivinhos. Outra mostra de que hegemonia é transitória, e coisa impensável há algumas décadas, nossa produção de grãos superou a dos EUA, não só em quantidade, mas também em qualidade.

Mas vamos às duas particularidades que nos falta abordar, entre as dez que escolhemos: O establishment esquerdista e o corporativismo legislativo.

Establishment esquerdista

Quase trinta anos de governos de esquerda, os de Fernando Henrique, Lula e Dilma ou governos excessivamente tolerantes com a esquerda, os de Sarney e Itamar Franco, com respaldo ideológico e colaboração de inteligência do Foro de São Paulo, nos deixaram um legado de atraso de que só a muito custo nos livraremos. Espero que seja um custo apenas em sofrimento, aprendizagem e paciência pacíficos, e não uma ruptura institucional violenta. É extensa a lista de desgraças que herdamos desses carregadores de utopias, umas evidentes, outras nem tanto, e algumas mesmo bastante escondidas. Evidentes foram a roubalheira comprovada e confessa, o desvio de bilhões de dólares dos pobres brasileiros para Cuba, Venezuela, Moçambique e outros, a politização do Supremo etc. Menos evidentes, seja por ter a imprensa escondido, seja pela inadvertência dos menos avisados e esclarecidos, tivemos a compra da reeleição por Fernando Henrique, que trouxe com ela as reeleições de Lula e Dilma, o imenso retrocesso na Educação, em todos os níveis, a degradação da Segurança Pública e da Saúde, o aparelhamento da máquina estatal, principalmente no Ministério da Educação, a política de combate às drogas frouxa interna e externamente, a corrupção da imprensa e da classe artística, que mais não podem viver sem as verbas públicas, a degradação moral e dos costumes, o trato da religião com menosprezo e até hostilidade, a depreciação da família como núcleo básico da sociedade, a tentativa de controle social pelo desarmamento e pelo avanço da influência do Estado sobre a infância e adolescência. E mais, a política externa de aproximação com ditaduras e deterioração da imagem do Brasil no exterior, usando com proposital engano a Amazonia, principalmente. Paramos por aqui, embora a lista de males que a esquerda impôs ao país seja imensa (e ainda há quem queira sua volta!). E os malefícios não cessaram com a saída deles do Governo. Ficou plantado na nação um establishment esquerdista que vai dos militantes infiltrados na máquina pública mais modesta até o Supremo Tribunal Federal. É praticamente impossível um governante não pertencente ao establishment governar, hoje. Existe oposição dentro de casa, com o aparelhamento da máquina pública, dotando o establishment de um serviço de informações (e em alguns casos de sabotagem) deveras extenso. Um exemplo recente: o ministro da Educação revelou que dos 69 reitores de universidades federais, ele tem diálogo com um terço. É evidente: a politização do ensino fez com que as universidades fossem, antes de serem centros de conhecimento, centros de atividade político-ideológica, de militância pura. Existe a esquerda dominante na imprensa, de tal forma virulenta que qualquer coisa que o Presidente faça será objeto de crítica. Ocorrerá se ele fizer algo e ocorrerá se fizer o contrário. Um exemplo: acusado de combater o voto eletrônico alegando fraude, foi acusado de fazê-lo sem provas. Mostrou então um processo engavetado no Superior Tribunal Eleitoral, em que a Polícia Federal investigava uma invasão das urnas por hackers, durante meses. Está sendo denunciado por quebra de sigilo. Colunistas dos grandes jornais, liberados pelos patrões sedentos de dinheiro público, praticam seu esporte favorito: desancar o governo. Os partidos de extrema esquerda, atuantes como são e sem a menor vergonha do que fizeram no passado recente, descobriram no Supremo o caminho que sua insignificância não lhes abre no Congresso. Por dá cá aquela palha, entram com uma representação contra o governo, que é rápida e às vezes monocraticamente acatada pela Suprema Corte, e que manieta o Executivo. Suprema Corte que não tem a mesma destreza para julgar, por exemplo, os processos de Renan Calheiros e outros políticos. A anulação das sentenças de condenação de Lula, mesmo após os estratosféricos roubos, provados e confessos, com julgamento condenatório em três instâncias, acabou, de maneira estarrecedora, acontecendo, sob silêncio da imprensa. Todas essas ações da esquerda acabam ocorrendo como se coordenadas por um maestro, mas é apenas uma maneira de ser do establishment, onde cada um age à sua maneira, mas todos no mesmo sentido, acabando por somarem os esforços. No caso, o sentido é a derrubada do Presidente, mas atinge em cheio o desenvolvimento nacional. Isso inexiste nos EUA. Lá há uma infiltração esquerdista na imprensa, mas nada nem de longe parecido com o que há aqui, em atuação e agressividade.

Corporativismo Legislativo

O livro aqui mencionado por mais de uma vez, um clássico sobre os temas que discutimos, Bandeirantes e Pioneiros, de Vianna Moog, fala de como a ética religiosa, o Calvinismo principalmente, foi importante na formação cultural e econômica dos EUA. Virtude, trabalho e tradição eram temas impregnados na formação inglesa, presentes na religião protestante (no Calvinismo principalmente) e seguiram para os EUA com os pioneiros, que a eles incorporaram a liberdade. Essa ética está presente na atitude dos homens públicos americanos, seus congressistas inclusive. Mentir pode derrubar um Presidente, nos EUA (aconteceu com Nixon, no Watergate) ou submetê-lo a sanções (Clinton pagou US$90.000 de multa por mentir sobre Monica Lewinsky). O trato da coisa pública é levado muito a sério. Danificar o patrimônio público nos EUA dá penas severas de cadeia. Essa atitude, no comportamento político americano, se reflete no resultado da ação pública, muito mais rentável para a sociedade pagadora de impostos. Se ética e virtude permeiam a sociedade e as instituições americanas, não é isso que se vê em nosso Congresso. As duas casas legislativas, cuja função constitucional é formar e aprimorar o código das leis nacionais, parece ter se esquecido desse princípio, tanto que se afastou dele. Existem as honrosas exceções, tanto mais honrosas quanto poucas forem. Mas a maioria do Congresso é voltada para si mesma, legisla em causa própria, chantageia o Executivo, vive uma relação ora de medo, ora de concubinato com o Judiciário, principalmente o STF. O nosso motor legislativo é a reeleição de cada um, e os recursos para tanto. Deputados e senadores preservam as vantagens, salários e mordomias com que se presenteiam (e estendem aos funcionários legislativos, até como forma de apaziguar possíveis contestações). O problema aqui já não é ideológico, mas de cobiça. A ideologia, no Congresso, só está presente, negativamente, nos partidos de extrema esquerda, como PT, PSOL, PC do B. Ou, positivamente, na “bancada evangélica”, preocupada com temas éticos, como o aborto, e com a liberdade religiosa. Mas todos se unem, da direita à extrema esquerda, para votar os imorais fundos Partidário e Eleitoral, as Emendas Parlamentares ou amenizar a Lei de Improbidade, como se unem para impedir qualquer reforma eleitoral que mude – e só pode ser para melhor – o status quo, como aconteceu nesta mesma semana. Todos se unem até para impedir a chamada cláusula de barreira, que impediria partidos inexpressivos de se multiplicarem para avançar sobre verbas públicas para sua manutenção e suas mordomias. Nunca há pressa para votar reformas urgentes para a Nação. Os escândalos não mudaram o comportamento do Congresso, mesmo que duramente atingido, como nos casos Anões do Orçamento, Mensalão e Petrolão. Muito menos nos casos menos ruidosos como quando Fernando Henrique comprou a própria reeleição ou promoveu suas discutidas privatizações. O Congresso se cala quando o STF prende um deputado, um jornalista, um presidente de partido ou promove de ofício o processo das Fake News, ou ainda quando determina a abertura de uma CPI pelo Senado, que mais parece um circo. E vale lembrar que quase um terço do Senado responde a processo junto àquela Corte, e que na Câmara a porcentagem não deve ser muito diferente. Em resumo, legislar em benefício do País é o que menos se faz, nas duas casas. Brasil e EUA têm os congressistas mais caros do mundo, na casa de 7,5 e 9 milhões de dólares por ano e por parlamentar, respectivamente. Mas comparando a atuação dos dois congressos, o de lá presta muito melhor serviço à sociedade que o paga.

Uma resposta para “10 razões da diferença de desenvolvimento entre os EUA e o Brasil (parte 5)”

  1. Avatar Arnesto disse:

    Só verdades que poucos conseguem entender, fica difícil concertar com STF e parte do congresso contaminados.

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