Irapuan Costa Junior
Irapuan Costa Junior

10 razões da diferença de desenvolvimento entre os EUA e o Brasil (parte 4)

O transporte ferroviário, hidroviário e rodoviário é melhor na terra de Lincoln. E não há impunidade para traficantes de drogas

Relembrando, os dez campos de atuação por nós listados como responsáveis (entre outros) pela manutenção do desnível econômico e social existente entre nós e os irmãos do norte, eram: 1) Educação; 2) Justiça; 3) Estatismo; 4) Segurança; 5) Funcionalismo; 6) Liberdade — que já discutimos — e mais: 7) Infraestrutura; 8) Drogas; — que discutiremos a seguir — e finalmente 9) Establishment Esquerdista; 10) Corporativismo Legislativo — que ficam para a próxima semana.

Infraestrutura americana é maior

O livro que mencionamos no primeiro artigo desta série, “Bandeirantes e Pioneiros”, de Vianna Moog, aborda ampla e comparativamente as duas culturas, a brasileira e a americana, e examina, principalmente em seus primórdios, as vantagens dos nortistas sobre nós.

Viann Moog menciona o que poderíamos chamar de “infraestrutura natural”, os rios amplamente navegáveis, que os colonizadores encontraram no território estadunidense, e que facilitaram sobremaneira sua penetração. Facilidades que não tiveram aqui os bandeirantes, nem temos hoje, pois a navegabilidade de nossos grandes rios, principalmente nas regiões mais propensas à ocupação (no Sul e Sudeste), nunca foi extensa.

Transforme ferroviário nos Estados Unidos é mais abrangente | Foto: Reprodução

Na terra de Franklin D. Roosevelt, o Mississippi integra o território por mais de 3.500 km (mais de 6.000 km se contarmos com seu afluente, o Missouri), e os rios navegáveis se contam às dezenas (Potomac, Delaware, Hudson, Ohio etc.). Já nossos principais rios são, na maioria, encachoeirados, como o São Francisco, que tem a cachoeira de Paulo Afonso já a 250 km da foz, ou o Paraná, com a cachoeira de Sete Quedas.

A mesma dificuldade de penetração por terra, tiveram nossos bandeirantes, encontrando, a 30 km da costa, as serras do Mar, Geral e da Mantiqueira, enquanto nos EUA as planícies se estendiam por 300 km a partir do Atlântico, antes dos contrafortes dos Apalaches ou dos Alleghenies, facilitando a penetração dos pioneiros.

Na implantação de sua estrutura viária, souberam os EUA construir uma rede ferroviária excelente, integrando todo o território nacional e as redes fluviais de transporte, com resultante numa malha de escoamento de mercadorias e passageiros sem igual no mundo em custo, eficiência, rapidez e alcance, enquanto optávamos pelo transporte rodoviário.

Basta uma comparação para avaliarmos nossa desvantagem nesse quesito: temos cerca de 30.000 km de ferrovias. Os EUA detêm quase 300.000 km. Transportamos por trem cerca de 15% de nossas mercadorias. Os Estados Unidos transportam quase 50%.

Transporte hidroviário nos Estados Unidos é amplo e eficiente | Foto: Reprodução

A despeito de termos optado pelo transporte rodoviário de cargas e passageiros, e a despeito ainda da extensão territorial e da população serem da mesma ordem de grandeza, também perdemos longe para os EUA no que respeita à malha rodoviária: temos menos de 2 milhões de quilômetros de rodovias (menos de 10% pavimentadas), enquanto a nação do escritor Cormac McCarthy tem mais de 6 milhões (mais de 50% pavimentadas).

Mais um dado, para mostrar nosso estrangulamento relativo aos EUA: eles possuem uma extensão hidroviária de 40.000 km, maior que nossa rede rodoviária.

Nem precisamos falar do transporte aéreo, para evidenciar ainda mais as dificuldades que teremos para alcançar o país de Abraham Lincoln num futuro ainda distante. Um número diz bastante: o aeroporto de Atlanta, capital da Georgia, nos EUA, tem, sozinho, o movimento anual que têm todos os aeroportos brasileiros juntos: cerca de 110 milhões de passageiros.

Combate rigoroso ao tráfico de drogas

Tudo o que dissemos em artigo anterior sobre Segurança Pública, nos comparando aos EUA, serve para esse comentário sobre a influência das drogas em nosso desenvolvimento, principalmente se mesclarmos a Educação no assunto. Os Estados Unidos não têm os maiores produtores mundiais de drogas em suas fronteiras e não são rotas de passagem para o tráfico de exportação. Não permitem o florescimento do crime organizado, pois, ao contrário do que acontece aqui, a polícia tem todo apoio para combater energicamente a criminalidade, a Justiça não é leniente como a nossa e as ONGs de direitos humanos conhecem seu lugar.

Além disso, a população, educada e conscientizada para a importância que tem no auxiliar as autoridades a combater o crime, é muito mais alerta contra os maus políticos, que favorecem a marginalidade e a imprensa de esquerda, que faz com eles um nefasto compadrio. Até porque nos EUA, embora também existam muitos jornalistas de esquerda, são lá muito mais comedidos que os nossos, e menos propensos às distorções ideológicas, coisa de que os nossos usam e abusam.

A população armada também é um freio para que os bandidos ligados ao comércio de drogas ampliem sua atuação para outras áreas, como assaltos a bancos e transportadoras de cargas, roubo de veículos e assalto a residências ou transeuntes, o que abunda por aqui. É impensável nos EUA o domínio de um presídio por uma facção criminosa, o que é regra em nossas prisões.

A permissividade judicial somada aos privilégios abusivos dos maus advogados, principalmente, embora não se possa descartar de plano certa corrupção em meio ao corpo funcional prisional, faz nossos presídios permeáveis à entrada de drogas, armas e celulares. Não admira que certos crimes sejam comandados de dentro das prisões.

Mas há uma pergunta importante: com tudo isso não estão os EUA entre os maiores consumidores de droga do mundo? É certo que estão. São os maiores consumidores de maconha, droga usada principalmente entre os jovens, e presente em todo o extenso meio universitário americano. E de cocaína, droga mais elitista, dos que têm maior poder aquisitivo.

No Brasil, estima-se que 2,6% da população seja usuária de maconha, enquanto nos EUA esse percentual vai a 16,2% (segundo a ONU). Quanto à cocaína, segundo um estudo da Universidade Federal de São Paulo, esse percentual é bem próximo nos dois países, sendo 13% no Brasil e 12% nos EUA. Em volume, evidentemente, dado a população bem maior dos EUA, o tráfico americano é também maior.

Surge outra pergunta: por que o tráfico nos EUA não é visível como no Brasil? Onde estão os cartéis? Por que não há as guerras de facções, que no Brasil causam dezenas de milhares de mortes todos os anos? E por que não existem tantos assaltos a bancos, roubos de carga, assaltos a residências e transeuntes? Por que não há tantas drogas no interior dos presídios? Por que não há, enfim, tantos crimes violentos a perturbar o trabalho e o desenvolvimento da nação, no seu dia a dia, como acontece aqui? A resposta vem numa palavra: impunidade.

Os traficantes e usuários nos EUA constituem uma rede pacífica, discreta, silenciosa. Sabem que não podem aparecer, pois a descoberta significa longos períodos na prisão. Artistas não fazem propaganda aberta das drogas, pois teriam que prestar contas à Justiça. Polícia, justiça e presídio são duros, sem condescendência com o crime.

Aqui, a polícia prende, a justiça solta e nos presídios comanda o tráfico, com poucas exceções. Nos EUA é impensável a Suprema Corte proibir uma ação policial, como fez aqui o Supremo com a polícia nas favelas durante a pandemia. Áreas dominadas pelo tráfico é algo que sequer passa pela imaginação deles. E uma Cracolândia, então? Tente contar a um americano da gema que temos, no centro da maior cidade brasileira, uma área onde os traficantes agem livremente, sob o olhar complacente do prefeito e do governador, vale dizer da polícia, onde o consumo se faz à vista de todos, com auxílio de ONGs de Direitos Humanos e da esquerda da Igreja Católica protegendo traficantes e usuários. Não acreditaria.

Mas é resultado de trinta anos de Política de Segurança ideológica, equivocada, danosa e teimosa. É bem verdade que alguns Estados americanos liberaram a comercialização e o uso da maconha, sendo o primeiro deles o Colorado. Mas já reexaminam a questão. Nestes Estados, a estatística mostra um aumento da criminalidade.

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10 razões da diferença de desenvolvimento entre os EUA e o Brasil (Parte 3)

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