O senador e candidato a governador Wilder Morais pode ter se metido numa enrascada sem tamanho ao criar espaço para a representação oferecida pelo seu próprio assessor que pede a expulsão do prefeito Márcio Corrêa do PL.

Seja qual for o grau de participação do senador na iniciativa – estímulo, permissão ou uma encomenda direta da representação – o fato político está colocado: um ajudante parlamentar lotado em seu gabinete protocolou a denúncia, a Executiva estadual a recebeu e agora um dos prefeitos mais populares do partido está formalmente submetido a um processo que pode terminar com sua expulsão.

Por óbvio, é um movimento encontra amparo nas normas internas do PL. Politicamente, porém, pode ter sido um péssimo negócio. Veja os três motivos:

Primeiro,

porque Márcio Corrêa não é um filiado qualquer: é prefeito de Anápolis, uma das maiores e mais importantes cidades de Goiás, e dispõe, hoje, de aprovação popular considerável. Gustavo Gayer, deputado federal do próprio PL e candidato ao Senado, fez questão de classificá-lo como “o prefeito mais bem avaliado de Goiás e o 3 do Brasil” ao comentar a abertura do processo de expulsão.

Comprar uma briga desse tamanho com um prefeito politicamente fortalecido já seria uma aposta alta pra qualquer dirigente partidário. Mas para Wilder, que ainda enfrenta dificuldades para aglutinar em torno de sua candidatura ao governo até mesmo integrantes do próprio PL, o risco é bem maior.

Segundo, é que

se a intenção era enquadrar o prefeito anapolino e demonstrar aos correligionários sua autoridade, o efeito inicial pode ter sido justamente o contrário, o famoso “tiro saído pela culatra”. Ao tomar ciência do processo, Corrêa não recuou, não pediu desculpas e tampouco assumiu postura defensiva. Não: o prefeito revidou e abriu fogo com o dirigente estadual do PL, no caso, o próprio Wilder Morais.

Em vídeo divulgado na quinta-feira, 27, Márcio Corrêa questionou, de forma dura e sem rodeios (citou de Jorge Messias a Alexandre de Moraes) a própria fidelidade partidária de Wilder, recuperou votações do senador no Congresso nas quais ele teria caminhado com o governo Lula e colocou sobre a mesa o questionamento: se a régua da fidelidade partidária será aplicada “a ferro e fogo”, por que começar justamente por ele?

Gayer abordou a questão antes mesmo de Corrêa. Talvez um dos nomes eleitoralmente mais relevantes do PL goiano, o parlamentar também expôs a contradição ao lembrar que outros prefeitos de relevância da legenda, como Carlinhos do Mangão, não apoiam Wilder para o governo e, nem por isso, foram submetidos a processos de expulsão. Ou ainda serão?

Se o apoio de Márcio Corrêa a Daniel Vilela é suficiente pra desencadear um processo por infidelidade partidária, a direção estadual vai ter de explicar por que o mesmo critério não seria aplicado aos demais mandatários que também não apoiam a candidatura de Wilder (e eles são muitos, de deputados a prefeitos do partido. Aliás, aparentemente, o número de mandatários do PL goiano que apoiam Daniel quase beira o dos que apoiam Wilder).

O prefeito de Novo Gama foi citado nominalmente por Gayer, e o próprio Márcio afirma que há deputados federais e vários prefeitos que não estão com o projeto do presidente estadual.

Serão todos enquadrados? Haverá representações em série? O PL goiano está disposto a abrir uma temporada de expurgos em plena campanha eleitoral para assegurar que todos os seus mandatários marchem obrigatoriamente ao lado de Wilder?

Se a resposta for positiva, o senador deverá decidido medir forças com uma parcela do próprio partido justamente quando mais precisa dela. Se for não, a pergunta seguinte é inevitável: por que Márcio?

E o terceiro motivo,

o presidente do PL goiano afirmou em nota lamentar que o partido tenha de “despender esforços para resolver questões internas enquanto deveria estar focado em discutir pautas para melhorar a vida dos goianos”. A declaração, claro, seria compreensível não fosse por um detalhe pequenininho de nada: a representação que obrigou o partido a despender esses esforços partiu justamente de um funcionário de seu gabinete.

Márcio, sem dúvidas, não deixou passar esse detalhezinho de nada em branco. “Ele [Wilder] diz que lamenta muito esse processo que aconteceu, mas quem fez a denúncia foi seu assessor. Muitos ali presentes na Executiva são seus funcionários”.

Ora, Wilder sabia da representação? Concordou com ela? Pediu que fosse apresentada? Tentou impedir? Foi surpreendido? São perguntas que precisam ser respondidas antes que o senador consiga se colocar na posição de espectador de uma crise que nasceu dentro de sua própria estrutura política.

Partidos e suas lideranças podem estabelecer regras, cobrar disciplina e punir filiados, mas a verdadeira liderança política não se constrói apenas com estatuto e resolução administrativa mas com a habilidade de articular e agregar. E quando muitos integrantes de uma legenda não acompanham o próprio presidente estadual em sua candidatura ao governo, é porque algo está saindo muito errado.

Se Márcio ficar, Wilder vai ter que administrar a convivência com um prefeito que o enfrentou publicamente, não apoia sua candidatura e ainda colocou em xeque sua autoridade dentro do PL. Se Márcio for expulso, Wilder precisará explicar por que outros prefeitos e deputados que também não estão em seu projeto permanecem no partido.