Ana Paula reivindica o respeito que Iris levou décadas para conquistar
08 agosto 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
Ao som de gritos e aplausos de um público eufórico, a candidata a vice-governadora de Goiás, Ana Paula Rezende pediu respeito. Mais especificamente, e pelo tom usado, quer que respeitem sua atuação política e, sobretudo, a história de seu pai, Iris Rezende Machado. O pedido veio em alto e bom som durante a convenção estadual do PL, que aconteceu na última segunda-feira, 3, na sede do partido. Na ocasião, a advogada, hoje candidata na chapa de Wilder Morais, subiu o tom contra a base governista e, mesmo não citando diretamente Daniel Vilela, deixou claro quem era o alvo.
“Quem tem que pensar duas vezes antes de citar Iris Rezende Machado é esse candidato que está aí, que um dia falou que o Iris era velho. Que o Iris era página virada. E que a política que ele fazia era ultrapassada”, disse Ana Paula. “Me respeitem e respeitem a história de Iris”.
Leia-se: trata-se de um pedido legítimo, qualquer político que se preze pode (e deve) exigir respeito. A grande questão é que, na política, respeito não é uma prerrogativa imediata, mas muito mais uma conquista. Essa percepção de saber universal joga luz sobre uma pergunta incômoda, mas necessária, para Ana Paula: o que, exatamente, ela fez até agora para que sua atuação política seja respeitada como uma trajetória própria?
Faz-se quase urgente destacar que existe uma diferença abissal entre carregar um legado e construir um. Voltemos alguns anos atrás, quando Ana Paula deixou o MDB e se filiou ao PL para compor a chapa de Wilder Morais. A decisão, ainda fresca na memória de quem acompanhou o rompimento, veio após um período em que ela ocupava a vice-presidência estadual do MDB, partido que seu pai ajudou a construir e no qual exerceu uma das mais longevas e influentes trajetórias políticas de Goiás.
Em tempo: não há nada de ilegítimo em trocar de partido, longe disso. Política, como bem se sabe, não é um casamento indissolúvel, muito pelo contrário. Contudo, quando alguém abandona a legenda associada à trajetória política do próprio pai e, depois, recorre justamente ao legado dele para cobrar autoridade e respeito de quem permaneceu no partido, inevitavelmente vai causar estranheza e muitos.
Iris Rezende era homem de diálogo. Republicano, conciliador, capaz de conversar com adversários e de construir pontes onde todos os outros enxergavam muros. Não foi por acaso que, depois da árdua disputa de 2018, quando Ronaldo Caiado e Daniel Vilela concorreram ao governo de Goiás em lados opostos, Iris sendo Iris atuou para aproximá-los. E deu certo.

Foi Iris quem ajudou a unir Daniel e Caiado. O mesmo Daniel que hoje aparece, ainda que indiretamente, como alvo das críticas de Ana Paula. Neste ponto, a discussão torna-se ainda mais intrigante. Ana Paula tem o direito legítimo de romper com o MDB, de se aliar a Wilder Morais e de disputar uma eleição pelo PL. Entretanto, o que foge da lógica da razoabilidade a qual a própria Ana Paula recorre é tratar o legado de Iris como uma espécie de certificado automático de legitimidade política.
Novamente, a pergunta é incômoda, mas pertinente: o que Ana Paula construiu até aqui? Voltemos, de novo, alguns anos atrás quando, em 2023, o MDB tinha um vácuo evidente na disputa pela Prefeitura de Goiânia e precisava de um nome capaz de ocupar esse espaço. O partido apostou nela. Houve estrutura, incentivo e, sobretudo, um convite político baseado em muita insistência para que finalmente se lançasse candidata. Mas Ana Paula não quis.
A estreia veio só agora, ao lado de Wilder Morais, justamente em um grupo político que está a anos-luz de distância da tradição de diálogo e conciliação que marcou a carreira de Iris.
Jataiense, filho de Maguito Vilela, Daniel não esperou que o pai lhe entregasse um legado pronto. Começou como vereador em Goiânia, depois foi deputado estadual, deputado federal e candidato ao governo de Goiás em 2018. Perdeu aquela eleição, mas seguiu na política. Mais tarde, tornou-se vice-governador de Ronaldo Caiado e passou a conhecer o Estado não apenas pelos palanques, mas pela experiência diária de governá-lo. Não é uma tese, mas um fato notório o de que Daniel não recebeu a política como uma herança a ser simplesmente administrada, foi acumulando degraus.
Quiçá, isso ajude a entender como o emedebista, hoje, lidera praticamente todas as pesquisas de intenção de voto para o governo de Goiás: há uma trajetória que vem antes da candidatura, uma história que não depende exclusivamente de um sobrenome.
É preciso deixar claro que sobrenomes ajudam, sim, na política e devem ser levados em conta. Ser filho de Iris Rezende, um dos políticos mais importantes da história do Estado, por óbvio é uma credencial de peso simbólico em Goiás, abre portas e gera reconhecimento e expectativa.
No entanto, o sobrenome também cria uma obrigação particularmente difícil, que é a de provar que existe alguém ali além do sobrenome. Ana Paula ainda está começando, e justiça seja feita, não existe demérito nisso. Todo político, por mais experiente que seja, teve que começar algum dia. Mas querer chegar à política já reivindicando o respeito que seu pai levou décadas para conquistar são outros quinhentos.
O legado de Iris Rezende pode inspirar Ana Paula e ser uma das razões pelas quais ela decidiu entrar na política. Mas o que não pode fazer é substituir a trajetória que ela própria ainda precisa construir. É por isso que usar Iris como argumento para atacar Daniel é, no mínimo, uma escolha curiosa.
Iris não precisa ser defendido por Ana Paula contra Daniel. A história dele está escrita e a de Daniel também (aliás, um fez parte da história do outro, politicamente falando). Seus mandatos estão registrados, seus eleitores estão aí, seus adversários também.
Quem precisa construir esse lugar hoje é Ana Paula, e ela poderá fazê-lo: mas terá de ser com as próprias pernas. É preciso que, daqui a alguns anos, alguém possa escrever “Ana Paula Rezende” sem precisar completar a frase com “filha de Iris”, assim como raramente vemos Daniel sendo citado como “o filho de Maguito” a não ser numa lembrança afetuosa.
Respeito político não é herança familiar, nem vem no sobrenome, não se exige isso no microfone e muito menos se impõe usando o nome de quem já conquistou o que o herdeiro ainda está tentando conquistar. Respeito na política se constrói, se conquista. E isso inclui uma trajetória de candidaturas, vitórias e derrotas. E a pergunta continua de pé: o que Ana Paula Rezende fez, até agora, para merecê-lo?


