Moderação de Flávio Bolsonaro não durou nem os trailers do filme
25 julho 2026 às 21h00

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Junto com o jornalismo político, o cinema é uma das grandes paixões da minha vida. Ver histórias contadas na pequena ou na grande tela, acompanhadas de trilhas sonoras marcantes, atuações memoráveis e desfechos surpreendentes, para quem compartilha dessa paixão, vai muito além de um mero hobby. Afinal, o cinema foi, é e provavelmente sempre será uma das grandes ferramentas da arte para refletir a nossa própria época, registrar os conflitos do seu tempo e oferecer, quadro a quadro, um espelho da sociedade.
E, ao ir ao cinema, tenho um critério inegociável: preciso estar na sala a tempo dos trailers. Explico. É preciso de um certo tempo, uma espécie de introdução sensorial para a história que será narrada na telona, e os trailers cumprem exatamente esse papel. São eles que ajustam as expectativas, estabelecem o tom e preparam o espectador para aquilo que está por vir.
Repare, caro leitor, que as pequenas prévias exibidas antes do filme principal normalmente pertencem ao mesmo gênero da obra que você escolheu assistir. Se o filme é de terror, muito provavelmente você verá trailers de suspense e histórias capazes de provocar arrepios. Se for uma comédia, os minutos que antecedem a sessão serão preenchidos por piadas e risadas. Em outras palavras, você inicia o filme já emocionalmente ambientado pelas prévias, quase como se estivesse assistindo ao primeiro ato de uma narrativa maior.
Não é diferente na vida real. Aliás, parece que até nisso a arte imita a vida, ou vice-versa. Enfim, esse é um debate para outra coluna. A política, especialmente a brasileira, parece ter aprendido muito bem a linguagem do cinema: personagens cuidadosamente construídos, roteiros revisados conforme a reação da plateia e campanhas que, por vezes, mais se assemelham a grandes produções de marketing do que a projetos de governo.
Flávio Bolsonaro, que hoje é chamado por tantos títulos e alcunhas, senador, pré-candidato à Presidência da República, filho “01” de Jair Bolsonaro e até “irmão” de Daniel Vorcaro, parece compartilhar, ao menos indiretamente, dessa admiração pela sétima arte. Não à toa, é conduzida pelo próprio clã bolsonarista a produção do famigerado “Dark Horse”, filme que pretende retratar um dos episódios mais marcantes da trajetória política de Jair Bolsonaro, quando o então candidato ao Planalto foi alvo de um atentado que quase lhe custou a vida.
A questão é que Flávio, como mencionado, foi escolhido pelo pai para tentar trilhar o caminho até o Planalto e se tornar o próximo presidente do Brasil. Diz-se que os Bolsonaros não confiam em absolutamente ninguém que não tenha o mesmo sangue ou sobrenome. Aliás, eles parecem nutrir desconfianças e ressentimentos até mesmo entre si. Flávio, Carlos, Eduardo e Michelle que o digam.
Flávio sabia que precisava seguir os passos do pai para manter cativo o eleitorado da direita bolsonarista. Por isso, intensificou o tom dos ataques ao PT e à esquerda. Ao mesmo tempo, o senador também compreendeu que não poderia repetir, ao menos de imediato, os mesmos excessos de Jair, sob pena de afastar o Centrão e os eleitores de centro e centro-direita.
Os sinais de que seria um “Bolsonaro mais equilibrado” começaram a surgir tão logo seu nome passou a ser tratado como o principal candidato do grupo. Um elogio à ciência aqui, um aceno ao centro acolá, Flávio chegou ao ponto de publicar nas redes sociais uma mensagem utilizando linguagem neutra para pedir apoio.
Em dezembro do ano passado, em entrevista à Folha de S.Paulo, o pré-candidato afirmou: “Tenho os mesmos princípios, tenho o sangue Bolsonaro, mas nenhum ser humano é igual ao outro. Em vários momentos, ele tinha um entendimento, eu tinha outro. Ele não quis tomar vacina (contra a Covid), eu tomei duas doses”.
E ainda cravou: “Muita gente pedia: ‘Bolsonaro, você tem que ser mais moderado’. Sou eu. Bolsonaro mais moderado”.
Tanto o Centrão quanto o mercado faria-limer se extasiaram. Mas essa suave pele de moderação era apenas o trailer. E, ao que tudo indica, o filme começou antes mesmo da vinheta de abertura, sem tempo para que o público sequer acomodasse a pipoca no colo.
A poucos dias da convenção do PL que deve consagrar Flávio Bolsonaro como candidato da legenda à Presidência da República, ele repetiu, quase quadro a quadro, o episódio que tornou seu pai inelegível. Reuniu-se com mais de 40 embaixadores e utilizou a ocasião para disseminar informações falsas e atacar o sistema eleitoral brasileiro.
O filho “01” chegou ao ponto de pedir que fossem enviados “observadores” ao Brasil durante o período eleitoral. Dias depois, em uma live no YouTube, afirmou ser perseguido politicamente por representar uma “ameaça ao sistema”.
No caso Vorcaro, em que existem provas incontestáveis de sua ligação suspeita com o banqueiro que se tornou o protagonista de um dos maiores escândalos financeiros do país, Flávio Bolsonaro optou por seguir um roteiro já conhecido. Em vez de enfrentar os fatos e explicar ao eleitorado o que ocorreu, tem repetido, por vezes aos berros, que tudo não passa de “narrativas da esquerda”, negando aquilo que já não parece passível de negação.
Se estivéssemos no cinema, diria que fomos apresentados a trailers de animações da Pixar para, em seguida, sermos conduzidos a uma obra de Lars von Trier. Ou, quem sabe, vendia-se ao público um drama político sóbrio e recebemos, na prática, uma sequência apressada de um filme que já conhecemos de cor.
A sensação de segurança e tranquilidade que Flávio tentou transmitir ao eleitorado no início de sua pré-campanha desmorona de forma estrondosa diante do perfil que demonstra possuir: os mesmos métodos, o mesmo discurso e a mesma disposição para tensionar as instituições.
No cinema, há produções que entregam exatamente o que prometem nas prévias, enquanto escondem o verdadeiro enredo até os minutos iniciais da sessão. Com Flávio Bolsonaro, a plateia já percebe que a prometida renovação nunca passou de uma grande peça publicitária bem editada. E, como todo espectador experiente sabe, quando o roteiro é apenas uma repetição do original, tende a ser uma verdadeira catástrofe.
Flávio Bolsonaro não é moderado. Nunca foi. O filho de Jair é um Jair 2.0: mais jovem, mas tão repudiável quanto.



