No último dia 29 de julho, quarta-feira, a deputada federal Adriana Accorsi disse seu milionésimo “não” a uma candidatura ao Palácio das Esmeraldas. Desta vez, a negativa foi diretamente ao presidente Lula da Silva. A dirigente do PT goiano e o chefe do Executivo federal se reuniram a portas fechadas em Brasília, quando o petista tentou convencê-la, novamente, a concorrer ao cargo de governadora de Goiás. Em vão. Desde que seu nome passou a ser cotado, Adriana reforçou por diversas vezes que não tinha interesse na disputa majoritária e que sua intenção era se reeleger.

Talvez tanto a ala masculina do PT, como deu a entender Adriana em algumas ocasiões, quanto uma parte da própria imprensa tenham especulado e pressionado demais a parlamentar, julgando tratar-se de um jogo de sua parte, algo comum na política, e que, no final das contas, seu nome estaria nas urnas na chapa majoritária.

Mas, conforme avisado pela filha de Darci Accorsi, não aconteceu. E o candidato do Partido dos Trabalhadores, como já vinha se desenhando há algum tempo, quando os mais realistas já admitiam que Adriana Accorsi não seria candidata, oficializou-se com o ex-deputado Luis Cesar Bueno como representante da legenda na corrida eleitoral deste ano. A convenção partidária, inclusive, foi realizada neste sábado, 1º.

Luis Cesar pode ser considerado um dos nomes mais experientes da política goiana. Professor, pós-graduado em Políticas Públicas e especialista em Finanças Públicas, sua trajetória é quase indissociável da vida pública. Foi um dos fundadores do PT, participou da primeira direção do partido em Goiânia e também da Central Única dos Trabalhadores (CUT), da qual foi delegado em Goiás na época de sua fundação. Vereador por dois mandatos e deputado estadual por quatro, Luis Cesar sabe como poucos transitar no meio político, é um articulador nato e tem passe livre entre as grandes lideranças de Brasília.

Em suma: é um ótimo nome, mas, pelo menos por enquanto, não tem desempenho nas pesquisas. Para se ter uma ideia, na última pesquisa Genial/Quaest, o petista aparecia com apenas 3% das intenções de voto, atrás de Daniel Vilela (37%), Marconi Perillo (21%) e Wilder Morais (11%).

Um dos grandes obstáculos para Luis Cesar é o desconhecimento da população: grande parte do eleitorado não sabe quem ele é. E aqueles que sabem, muitas vezes, não têm conhecimento de que ele está na disputa pelo Palácio das Esmeraldas. Claro, o candidato pode crescer assim que a campanha começar. Mesmo assim, é improvável que alcance os índices que seriam atingidos por Adriana Accorsi na corrida.

O fato é que o Planalto sabe que precisava da filha de Darci para fazer palanque para Lula em Goiás. Mesmo com uma pesquisa qualitativa encomendada pelo PT mostrando que boa parte dos eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva não associa o voto para presidente ao voto para governador do Estado, e que há uma tendência de parte do eleitorado em optar pelo candidato da continuidade, no caso, Daniel Vilela, movimento impulsionado principalmente pela alta aprovação da gestão do governador Ronaldo Caiado, Lula sabe como ninguém que precisa se ligar a um candidato que tenha voto, pelo menos para ficar entre os três primeiros colocados.

E, até agora, não é o que se desenha para Luis Cesar Bueno.

O vídeo divulgado pela cúpula petista na última quinta-feira, 30, no qual Edinho Silva, presidente nacional do PT, aparece ao lado de Luis Cesar Bueno e o consagra como o “candidato de Lula”, seria uma amostra da atenção que o Planalto dará a Goiás nas eleições estaduais: pouca, quase nada.

Enquanto Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro e atual candidato a presidente pelo PL, faz vídeos declarando apoio até para pré-candidatos e candidatos a deputado, como é o caso de Igor Franco, Lula coloca o presidente do partido para “representá-lo” no primeiro vídeo oficializando o nome apoiado pelo presidente à disputa em Goiás. “Este aqui é o candidato do presidente Lula”. Bom, só faltou o presidente Lula na parada.

A impressão passada é a de que o morador do Palácio da Alvorada pretende evitar o desgaste de colar sua imagem diretamente em um candidato que pode chegar ao fim do primeiro turno com números pouco expressivos.

Na oficialização de sua candidatura à reeleição, Adriana garantiu que o presidente estará em Goiás, no palanque Luis Cesar. “É um compromisso que ele fez”, disse ela, à imprensa. Porém, fontes de Brasília ouvidas pelo Jornal Opção revelam desconfiar que Lula pode nem pisar no estado durante a campanha. A ver.

O caso é que o PT goiano sabe que suas chances de segundo turno no pleito deste ano são pequenas. E o Planalto também sabe disso. Mesmo assim, é incoerente com a história de um PT que se declara combativo e corajoso “fugir da raia” quando seus soldados mais precisarão de apoio.

A possibilidade de Lula deixar em segundo plano um estado que lhe garantiu 1,5 milhão de votos no segundo turno de 2022, diante da avaliação de que o candidato ao Palácio das Esmeraldas não terá força suficiente para mobilizar o eleitorado, parece um cálculo político com um grave potencial afastar o presidente de uma parcela importante da militância petista em Goiás.

Há petistas mais tradicionais que têm entre seus lemas “Por amor às causas perdidas”, trecho mais famoso da música “Dom Quixote”, da banda Engenheiros do Hawaii. Agora é a hora de ver se a ideologia se sustentará na prática.