Sucesso na década de 80 e exibida por anos a fio em contínuas reprises, a série norte-americana Diff’rent Strokes, ou ‘Arnold’, como ficou conhecida no Brasil, caiu no gosto de toda uma geração por seu humor leve e familiar. Seu protagonista, Arnold, interpretado por Gary Coleman, ficou eternizado pelo bordão: “Que papo é esse, Willis?”. A frase era usada toda vez que algo era feito ou falado de modo a causar desconcerto, estranheza no pequeno Arnold.

Mas deixando os 80 dos EUA e indo para 2026 em Goiás, o caso é que, diante do que disse Wilder Morais na convenção do PL, realizada na última segunda-feira, em Goiânia, talvez fosse o caso de trocar o Willis do seriado pelo Wilder da corrida ao Palácio das Esmeraldas. “Que papo é esse, Wilder?”, perguntaria o pequeno Arnold diante de uma declaração que causou estarrecimento até mesmo entre apoiadores do candidato bolsonarista.

Durante seu discurso, enquanto bradava com unhas e dentes em defesa do nome de Flávio para o Palácio do Planalto, Wilder não hesitou ao estabelecer sua ordem de prioridades na política. “Nós sabemos que a sua campanha, a sua vitória é a vitória do Brasil, não é só a vitória de Goiás. Então, em primeiro lugar eu vou defender você, depois vou defender o nosso estado de Goiás”, afirmou, se dirigindo ao filho “01” do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Sobretudo no mundo da política, existem declarações que precisam de interpretação, que transmitem sua real mensagem nas entrelinhas. É trabalho de se ler e ouvir o que está sendo dito sem palavras, mas essa não. Wilder fez questão de deixar extremamente claro quem vem primeiro e quem vem depois. Nas palavras do candidato do PL ao governo do Estado: primeiro, Flávio. E aí, sim, depois Goiás.

A grande questão aqui é que essa frase, muito embora possa ter sido dita num ambiente de convenção partidária, com as paixões políticas à flor da pele, não diz respeito somente à estratégia eleitoral, mas dá um “spoiler” da postura que o possível mandatário do Executivo adotará para conduzir um estado com mais de 7 milhões de habitantes. Em suma, a quem o governador deve lealdade política quando os interesses do seu Estado entram em conflito com os interesses do governo federal?

Leia também: Na convenção do PL, Wilder diz que “em primeiro lugar vai defender Flávio, depois o estado de Goiás”; vídeo

Imagine, caro leitor, o seguinte cenário hipotético: Flávio Bolsonaro é eleito presidente da República e Wilder Morais, governador de Goiás. O que acontecerá quando uma decisão do Palácio do Planalto contrariar um interesse legítimo de Goiás? No caso de haver uma disputa por recursos, investimentos, obras, incentivos, renegociação de dívidas ou qualquer outra questão? Wilder ficará ao lado de Goiás ou do presidente que, segundo suas próprias palavras, vem antes do Estado?

Não para por aí: mesmo que não seja eleito governador, Wilder, é preciso lembrar, vai continuar senador da República. E senador representa um Estado. Nesse caso, no Senado, Wilder vai dar prioridade aos interesses de Goiás ou aos interesses de Flávio Bolsonaro (que também é senador, mas representa um projeto político envolvendo toda uma família)?

O mais intrigante nisso tudo, caro leitor, é que na noite de ontem, segunda-feira, Wilder talvez tenha falado demais, soltado, sem perceber, algo muito maior do que pretendia. E verdade seja dita: pegou mal.

Em tempo: candidaturas políticas podem (ou devem?) ter padrinhos, alianças, ideologias e projetos nacionais. Mas o eleitor pode razoavelmente esperar que quem pede seu voto para governar Goiás tenha como primeira obrigação, por óbvio, o próprio Estado.

Ontem, mesmo no calor das emoções, talvez tenha faltado alguém no palanque para perguntar, como o pequeno Arnold perguntava ao irmão: “Que papo é esse, Wilder?”