O preocupante caso da curtíssima memória de Marconi sobre a segurança pública de Goiás
15 agosto 2026 às 21h00

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O ano era 2011. Quem chegava a Valparaíso de Goiás ou a Águas Lindas, no Entorno do Distrito Federal, se deparava com enormes outdoors na entrada das cidades que despertava a vontade no motorista de pegar qualquer retorno ou caminho alternativo à vista para não precisar passar pela região. “Você está entrando na região mais violenta do planeta! O Entorno do DF! CUIDADO!”, dizia a grande placa, em letras garrafais. Mais embaixo, a mensagem continuava: “O Governo de Goiás não valoriza o Policial Civil e não protege o cidadão”.
Os letreiros chamativos na entrada de duas das maiores cidades de Goiás, na época, eram fruto de um protesto de policiais civis contra um apontado descaso do então governo estadual com a segurança pública. Em entrevista à imprensa na ocasião, o então diretor administrativo do Sindicato dos Policiais Civis de Goiás, Gildásio Rodrigues, denunciou que a instituição tinha somente 390 policiais na região do Entorno, com 10 mil inquéritos parados. A região, naquele tempo, era considerada uma das mais violentas do Brasil.
Para se ter uma ideia, em 2011, dados do Ministério Público divulgados pelo g1 Distrito Federal revelaram que 19 cidades de Goiás no Entorno eram responsáveis por quase 40% dos casos de homicídio registrados no estado em 2010, embora concentrassem apenas 20% da população. E, apesar de ter o triplo da média nacional de assassinatos, havia cidades com 75 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes, ainda segundo o MPGO.
Em 2017, seis anos depois, o cenário não era em nada diferente. De acordo com o Atlas da Violência 2017, publicado naquele ano pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o Ipea, quatro cidades de Goiás figuravam entre as mais violentas do Brasil: Luziânia e Novo Gama, no Entorno do DF, Trindade e Senador Canedo. Luziânia havia “conquistado” o 21º lugar nacional, com uma impressionante taxa de homicídio de 74,1. Já Trindade, que naquele tempo também parecia ser conhecida como terra sem lei, “exibia” um índice de homicídio de 69,8.
Os números aqui expostos, por óbvio, são de causar revolta e arrepios em qualquer cidadão que se preze. São índices, leia-se, de locais em situação de guerra. Não à toa, Marconi Perillo, do PSDB, expôs toda a sua revolta e inconformismo com a situação da segurança pública em uma sabatina. “Tem que mudar, não dá pra ficar como está”, disse. A exclamação soaria aceitável… caso a sabatina tivesse ocorrido em 2011 ou em 2017, quando ele era governador do Estado, e não há poucos dias, em pleno 2026, quando os dados oficiais apontaram queda em praticamente todos os indicadores criminais desde 2018.
Aqui, parece haver um caso inusitado de amnésia, quando há um comprometimento preocupante de memórias e lembranças referentes a eventos passados. Há uma certa… comicidade (talvez seja esta a palavra) quando Perillo aborda um tema que, em seus governos, fez com que o Estado fosse parar nas manchetes nacionais. E spoiler: não do jeito bom da coisa.
Em tempo: segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2016, na gestão Marconi, Goiás registrou, em números absolutos, 2.491 crimes violentos letais intencionais. Em 2024, na gestão Caiado, esse número foi de 960, número 61,4% menor. Quanto ao crime específico de latrocínio, o Anuário de Segurança apontou a ocorrência de 186 no ano de 2016. Em 2024, a quantidade desse crime caiu para 18. Sim, uma queda de 90,3%.
Na sabatina em questão, ocorrida há poucos dias, um Marconi indignado também bradou em defesa da Polícia Civil. “Dá pra fazer concurso, sim!”, exclamou.
De novo, aparentemente há um certo desaviso por parte do ex-governador quanto aos eventos registrados em seus mandatos de governador de Goiás. O ano era 2015, e a segurança pública vivenciava o caos após o Supremo Tribunal Federal (STF) considerar inconstitucional a famigerada polícia temporária criada por Marconi, o Simve, e não havia policial para suprir a ausência dos “coletes amarelos” nas ruas. Na época, o então governador tucano fez declarações à imprensa prometendo, assim como o Simve, uma solução temporária.
“Vamos compensar, preliminarmente, a ausência do Simve com o banco de horas da PM, chamando policiais que, eventualmente, possam estar de folga para as atividades de rua”, disse, em uma entrevista ao g1, em abril de 2015.

Leia-se: o Simve contratou mais de mil soldados para atuarem em uma espécie de categoria dentro dos quadros da PM. O contingente era formado por reservistas do Exército, com direito a porte de arma para atuar no policiamento. Os soldados passavam por curso teórico e prático com duração de apenas três meses e recebiam menos da metade do salário de um PM concursado.
É mais que necessário destacar: nenhum governo deve ser condenado eternamente pelos erros do passado, assim como nenhum sucessor pode reivindicar sozinho os méritos de uma transformação que se constrói ao longo de anos. Contudo, quando passamos a lupa sobre os números de 2011, 2015, 2016 e 2017, fica difícil, como Marconi parece querer, sustentar que a segurança pública era um case de sucesso em sua gestão. Muito pelo contrário. Era um problema escancarado, estampado literalmente em outdoors, em estatísticas e, sobretudo, na rotina de quem vivia no Entorno e em outras regiões violentas do Estado.
O que mais chama atenção não é Perillo cobrar soluções para pontos específicos da segurança pública em 2026. Ele pode e deve fazê-lo (afinal, é candidato oposicionista). Mas é fazê-lo como se estivesse chegando agora ao assunto, como se não tivesse ocupado por quatro vezes a cadeira de governador. E como se algumas das cenas mais desastrosas do passado recente da segurança pública de Goiás não tivessem ocorrido justamente durante seus governos.
De novo: pode ser que seja só uma questão de memória do ex-governador. Uma curta e seletiva memória, convenientemente incapaz de guardar o que hoje seria menos confortável lembrar. Seja o que for, é um caso de reflexão. Ou de vitamina B12.



