“O Estado sou eu”: como a influência de Vorcaro atingiu todos os Poderes da República e balançou o sistema de um país inteiro
05 setembro 2026 às 21h00

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“L’État, c’est moi.” O Estado sou eu. Essa frase é sempre atribuída a Luís XIV, da França, e atravessou séculos como uma definição crua do absolutismo. No reinado do monarca europeu, poder, governo e soberano se tornaram indissociáveis. Daniel Vorcaro (sim, o banqueiro preso e que vira e mexe está nas manchetes), evidentemente, não é Luís XIV. Não herdou coroa, não governou país nenhum e nunca precisou de um Palácio de Versalhes. Mas no Brasil, aparentemente, ele descobriu algo mais eficiente: dinheiro e influência suficientes para transitar livremente por portas que deveriam ser muito, mas muito mais difíceis de abrir.
Quando nos debruçamos sobre o escândalo do Banco Master, o maior no tipo financeiro da história do país, ele por si só já seria gigantesco apenas pelas (robustas) suspeitas financeiras que cercam a instituição. Segundo a Polícia Federal (PF), o esquema investigado inflou artificialmente o valor do banco para transmitir uma solidez inexistente, atrair bilhões de reais de investidores e viabilizar operações sem garantias reais.
Destaca-se: Vorcaro está preso, e a PF apontou ainda indícios de uma assustadora estrutura de monitoramento e intimidação de adversários, além de riscos relacionados à destruição de provas, lavagem de dinheiro e interferência nas investigações. Contudo, o Master deixou de ser apenas um caso de escândalo bancário.
A cada nova revelação, seja por parte do próprio Vorcaro, seja por vazamentos ou divulgação de pontos da investigação da PF, surge uma porta diferente de Brasília pela qual Vorcaro aparentemente conseguia passar. Supremo Tribunal Federal, Congresso Nacional, governo Lula, Polícia Federal, bolsonarismo, Daniel era amigo de tutti quanti. Esquerda e direita numa baita orgia financeira e pseudo-ideológica.
O banqueiro que hoje é o pivô de uma investigação de proporções nacionais parecia ter entendido perfeitamente uma das perversões mais antigas do poder brasileiro, a de que ideologias podem até separar palanques, mas interesses conseguem construir pontes pra lá de resistentes entre eles.
No Judiciário, o caso chegou ao STF, a instância máxima da Justiça, justamente aquela que rege e protege a Constituição. Relatório da PF tornado público pelo ministro André Mendonça expôs mensagens enviadas por Vorcaro pra um número registrado no celular do ex-banqueiro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Vale citar, porém, que o material recuperado revela aquilo que Vorcaro enviou, não o conteúdo do outro lado da conversa.
Mesmo assim, o que veio a público é politicamente (e por que não, socialmente) explosivo. As mensagens apontam possíveis interações entre Vorcaro, Alexandre de Moraes e pessoas ligadas à família do ministro. Aquele Moraes, o Xandão, que há anos tem pautado o debate sobre a postura do Judiciário em casos emblemáticos. Uma das trocas divulgadas pela imprensa indica que teria sido discutida a possibilidade de a PF deflagrar a primeira fase da Operação Compliance Zero e a estratégia que o banqueiro deveria adotar diante da ordem de prisão preventiva expedida contra ele.
Causa zero surpresa o fato de que a repercussão tenha sido gigante: para se ter noção, em apenas 24 horas, 1,1 milhão de publicações sobre os vínculos apontados pela investigação circularam nas redes sociais. Foram cerca de 120 mil autores únicos e 11,8 milhões de interações.
Mas Vorcaro não “passeava” apenas pelos corredores (e linhas telefônicas) do Supremo. No Executivo, foi o próprio ex-banqueiro quem afirmou, em depoimento prestado à equipe de André Mendonça, que pretendia envolver integrantes do governo Lula em uma eventual delação premiada, conforme noticiado pelo jornal Estadão. Também disse manter relação com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, mencionando, inclusive, viagens a eventos. Em tempo: são alegações, sem nenhuma prova apresentada até agora.
Entretanto, há um trecho particularmente… intrigante no relato do próprio banqueiro. Vorcaro afirmou que teceu relações com integrantes do “núcleo do atual governo” para se proteger dos ataques que dizia sofrer. Alegou ainda que, nessas relações, teriam sido ultrapassadas “linhas de moralidade” e “linhas de ilicitude”.
Pulamos agora do Executivo para o Legislativo. O deputado Nikolas Ferreira reconheceu ter mantido dois contatos com Vorcaro, embora negue qualquer irregularidade ou benefício financeiro. Em uma das ocasiões, o parlamentar procurou o banqueiro para tentar ajudar um amigo e ex-assessor em uma questão envolvendo um ativo minerário. Em outra, segundo o parlamentar, houve contato depois que ele apresentou um pedido de informações para saber quem havia financiado a viagem de ministros do STF e outras autoridades a um fórum jurídico em Londres.
E as conversas reveladas mostram uma intimidade inusitada, há de se destacar.
Mas o ponto principal nem é saber se pedir uma ajuda a Vorcaro configurou alguma irregularidade. Nikolas nega que tenha ocorrido qualquer uma. O grande aspecto politicamente incômodo é por que Daniel Vorcaro parecia ser alguém a quem se podia recorrer. Refresquemos a memória de quando Nikolas postou no X um pedido para que Daniel Vorcaro “delatasse todo mundo”. A postura se mantém?
E agora, passamos ao bolsonarismo em si. Vorcaro destinou milhões de dólares a “Dark Horse”, projeto de cinebiografia de Jair Bolsonaro. Os repasses conhecidos chegaram a US$ 12,3 milhões depois que investigadores identificaram uma transferência de US$ 1,6 milhão realizada em setembro de 2025. O compromisso total do banqueiro com a produção, conforme amplamente noticiado pela imprensa, teria alcançado US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões na cotação daquele período.
E aqui há outro “pequeninho detalhe”: o pagamento de setembro ocorreu dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar parcelas atrasadas. O senador havia afirmado que o último repasse de Vorcaro ocorrera em maio de 2025, mas a investigação identificou posteriormente a nova transferência. Que situação, não?
Quanto a isso, não se pode negar que Daniel era muito democrático: de personagens ligados ao governo Lula e nomes importantes do bolsonarismo, até parlamentares, juízes do STF, a “boa relação” dele era com todos.
Direita e esquerda podem passar o dia se acusando de destruir o Brasil. Podem gravar vídeos, discursar em plenário, organizar manifestações e tratar adversários como inimigos existenciais. O dinheiro, aparentemente, não participa dessa guerra cultural. Ele prefere conversar com todo mundo.
Vorcaro não precisava mandar no Executivo, controlar o Congresso ou possuir influência formal sobre o Supremo, bastava conhecer pessoas nesses lugares e poder chegar até elas (e ele podia). Aparentemente, todos deviam favores a ele.
Essa é uma forma bem mais moderna de poder do que aquela exercida por Luís XIV. O rei francês precisava concentrar o Estado em suas próprias mãos, mas o grande capital contemporâneo pode operar de maneira mais sofisticada. Não precisa destruir instituições, pode aprender a circular entre elas e conhecer quem o ocupa.
Como se vê claro como a luz do dia, o caso Master é bem maior que Daniel Vorcaro. As investigações, por óbvio, ainda terão de separar relações legítimas de eventuais ilegalidades, e bravatas de provas, e, claro, quer muitas das acusações podem desmoronar (é preciso lembrar que Daniel Vorcaro está desesperado). Enquanto outras podem produzir consequências graves. Esse trabalho fica com Polícia Federal, Ministério Público e Justiça.
Mas é que o Brasil construiu uma República baseada na ideia de que ninguém é o Estado. Nem presidente, nem senador, nem deputado, nem ministro do Supremo, e muito menos um banqueiro.
Mas daí, quando nos deparamos com único empresário que, no final das contas, consegue aparecer simultaneamente nas cercanias de tantos centros de poder, uma versão incômoda da frase atribuída a Luís XIV passa a assombrar Brasília como um fantasma monarquista europeu.
“O Estado sou eu”. Claro que Vorcaro jamais disse isso, mas nem precisa. O Estado já parece ser tudo o que ele representa.
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