Afonso Lopes
Afonso Lopes

Não existe regra para vencer

Fazer uma campanha agressiva ou na base do “paz e amor”? Essa é uma eterna dúvida em todas as eleições, e não se tem uma conclusão, mas várias

Durante a década de 1980, que marcou o retorno à via democrática eleitoral com o fim das escolhas indiretas para presidente da República, governadores de Estado e prefeitos de capitais e cidades consideradas de “segurança nacional” – em Goiás, Anápolis se enquadrava nessa condição por causa da base aérea -, as campanhas eleitorais eram marcadas pela pancadaria verbal quase sem limites. Uma espécie de vale-tudo. O modelo agressivo imperou até meados da década seguinte e foi mudando a cada eleição. Hoje em dia, geralmente através de estudos preliminares realizados por especialistas em pesquisas qualitativas, sabe-se que campanhas meramente agressivas, sem preocupação com o conteúdo, e muito genéricas – contra tudo o que aí está, mas sem apresentar propostas de como deve ser no futuro – geralmente trilham um caminho que flerta com a derrota. Algumas vezes até que a coisa funciona, mas os insucessos ocorrem aos montes.

Mas então o ideal de uma campanha que trilhe rumo à vitória é sempre a fórmula do “paz e amor”? Longe disso. É importante que se passe imagem de serenidade, mas isso não significa abdicar das propostas antagônicas – no caso de candidaturas oposicionistas. As críticas, desde que não componham o alicerce central da campanha, embasam o discurso. De uma forma geral, a agressividade que passa a imagem de “sede de sangue”, empolga o eleitorado e a imprensa, mas não dá substância à definição do voto do eleitor, que é, obviamente, o objetivo de qualquer candidatura competitiva.

Ou seja, bater por bater é uma tremenda bobagem, embora crie uma áurea ilusória de sucesso de público imediato. A crítica, acompanhada de propostas inovadoras e criativas, que criem boa perspectiva para o eleitor, tem quase sempre mais chances de vitória.

Há inúmeros exemplos que podem ser observados em eleições anteriores. O ex-presidente Lula só conseguiu vencer na quarta tentativa. E a vitória dele aconteceu juntamente com uma guinada radical na sua imagem e conduta. Suas campanhas até a vitória de 2002 eram profundamente marcadas pelo tom de acirramento. Pancadaria hard em larga escala. Não era somente contra tudo o que havia, mas também contra todos os que lá estavam. Ele até conseguia, graças ao poder de uma militância apaixonada, dedicada e orgânica, se classificar para o 2º turno. E ficava nisso.

A mudança que aconteceu em 2002 foi capitaneada pelo ótimo marqueteiro Duda Mendonça, que utilizou todos os mecanismos apropriados para compor uma nova imagem para o Lula candidato. Do raivoso “sapo barbado” – como o apelidou Leonel Brizola – não restou nem a longa barba, devidamente aparada. Saiu o Lula de guerra e surgiu, com substância, o Lulinha paz e amor, como ele próprio dizia. Ainda assim, os velhos tempos poderiam impactar negativamente, e foi aí que surgiu a ideia de uma proposta com enorme densidade: a “Carta aos brasileiros”. Esse documento – que hoje pertence à história por ter sido o esteio de uma mudança nos rumos políticos do Brasil – coroou a credibilidade que Lula tanto precisava para ser aceito pela maioria da classe média.

Mas engana-se quem pensa que a campanha de Lula não apresentou questões críticas – invariavelmente acompanhadas de propostas de conteúdo. Duas peças da propaganda eleitoral são muito marcantes daquela eleição. A primeira mostrava um jovem dizendo que tinha acabado de entrar para a faculdade. E que não tinha sido fácil. “João, o brasileiro” era uma crítica poderosíssima, mas também uma proposta para mudar para melhor. A outra mostrava um grupo de jovens entrando em um carro numa noite festiva. O bate papo alegre não impediu que uma das moças observasse uma cena realmente bastante comovente: uma moradora de rua, maltrapilha, dando de mamar a um bebê. Então, para fechar, um apresentador dizia: “se essa também comoveu você, você pode até não saber, mas no fundo, você também é um pouco PT”. Um petardo crítico, emocionante e com a clara mensagem de que essa era uma situação que precisava mudar.

A campanha de Lula em 2002 foi definitivamente um marco que desnudou o mito de que agressividade vence as eleições. A crítica bem feita, sem exageros semânticos ou ódio explícito, embalada por uma proposta que dê esperança de que tudo pode ser melhor, é a maneira mais segura de se situar bem numa campanha eleitoral, embora isso não seja uma fórmula pronta e acabada. Boas campanhas, com propostas, podem naufragar por falta de estrutura. Sem militância dedicada não existe vitória eleitoral. Nenhuma chance.

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