Não adianta nem tentar: não vai colar. Detalhes tão importantes de tanta gente suspeita são coisas muito pequenas para se lembrar. A paródia com a música de Roberto e Erasmo Carlos é para preambular um dogma do bolsonarismo: nada “pega” nem vai “pegar” no Jair.

Diz muito sobre isso a forma como repercutiu, nas redes bolsonaristas, a notícia de que o ex-presidente da República havia recebido a visita compulsória da Polícia Federal em sua casa. Mais ainda: diz muito também sobre o que é o voto consolidado do chamado “conservador” brasileiro.

Ter a certeza de que Bolsonaro realmente não se vacinou é regozijante para seus apoiadores, especialmente os mais radicais. É a certeza de que o “mito” é autêntico, sincero, convicto e verdadeiro, para ser bem redundante, em suas posições. Da forma mais bizarra com que poderiam confirmar, agora eles têm esta certeza: o ex-presidente realmente não tomou vacina nenhuma. Mais do que isso: há graves indícios de que tenha conduzido – ou ao menos participado – de uma fraude no sistema eletrônico ConecteSUS para, com emitir cartões de vacinação para si e diversas outras pessoas – inclusive sua filha, Laura –, com vistas a cumprir a exigência sanitária para entrar nos Estados Unidos.

Mas por que ser protagonista de uma fraude não abala o “sentimento” sobre Bolsonaro? É por achar que isso seja pouco demais diante do que supostamente outros políticos fizeram, em termos de crimes? Também, mas não exatamente e, talvez, não prioritariamente.

Ainda que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o zero 3 da família, no mesmo dia tenha ido à tribuna para defender seu pai, falando que seria motivo para “ganhar medalha” receber a Polícia Federal em casa por conta de cartão de vacinação – enquanto, disse ele, outros políticos tinham malas de dinheiro em casa, citando o ex-ministro baiano Geddel Vieira Lima –, as hostes bolsonaristas fantasiam com outro aspecto do enredo.

A admiração incondicional dos “patriotas” pelo “capitão” se constitui de algo que vai muito além de suporem Bolsonaro não seja corrupto – apesar dos inúmeros indícios distribuídos entre rachadinhas, imóveis e joias sauditas. Eles se identificam com aquilo que se condena nele, inclusive no caso da operação da PF: ora, afinal, o que é uma falsificação de um cartão vacinal? Quem nunca?

O bolsonarista simplesmente não considera infração aquilo que não fira seus próprios costumes desviados. E desde o início da história toda – que vem ainda de quando o Palácio do Planalto era uma miragem, época em que o hoje ex-presidente era apenas aquele deputado federal bizarro que aparecia no “CQC” e no “Superpop” – essas pessoas sentiam uma chama ardendo no coração a cada fala expelida por aquela língua recheada de termos torpes, a qual rendia ibope exatamente por ser tão estapafúrdia diante dos princípios gerais de civilidade.

Bolsonaro é um avatar, alguém que está ali cumprindo um papel que é muito caro para essas pessoas

Assim, enquanto famílias em luto contínuo por suas pessoas queridas a quem a ditadura deu cabo ouviam Bolsonaro falar que “quem caça osso é cachorro”, sobre a busca dos desaparecidos políticos pela Comissão da Verdade, esses cidadãos davam risadas de cada “mitada” sobre esse tema e outros tantos. Afinal, ele “fala o que pensa”, ele “diz na cara”, ele “é bruto, mas autêntico”.

E aqui a questão se torna muito mais antropológica – e talvez psicanalítica – do que eleitoral: quem se identifica com esse tipo de discurso é um número muito maior de pessoas do que qualquer pesquisa comportamental poderia detectar. Porque há dois tipos aqui relatados: o que se via/vê, ele mesmo nas próprias atitudes que Bolsonaro fazia/faz; e o que se projeta nesse tipo de atitude protagonizada. De qualquer forma, para eles, Bolsonaro é um avatar, alguém que está ali cumprindo um papel que é muito caro para essas pessoas.

Para seu público, Bolsonaro nunca precisou fingir a polidez nem o caráter que não tem. Afinal, foi para desafiar o mundo politicamente correto que ele foi eleito. E, dentro do que consideram “politicamente correto”, está tudo aquilo que se tornou o conjunto de regras de boa civilidade trazidas pela contemporaneidade: o respeito à diversidade sexual; a paridade entre homens e mulheres; a execração do racismo e da xenofobia; a dignidade para com o corpo das outras pessoas, seja na questão da forma física, na cognição ou na faixa etária. Tudo aquilo que se encaixa no que chamam de pautas progressistas.

Da mesma forma, o mundo contemporâneo no Brasil impõe muitas barreiras às castas que beberam e se embriagaram no patrimonialismo, e se sentem “diferentes” do restante da população. Segundo o escritor Gilberto Freyre, seriam os membros da casa-grande que não aceitam que hoje têm de se “misturar” aos ocupantes da senzala. Assim, acham que não precisam das mesmas regras que os que consideram inferiores e se sentem ofendidos quando são colocados diante delas.

Daí, vêm todos os males: desde os penduricalhos que esticam salários já bem robustos – ocorre bastante com militares de alta patente, observem – até aquele recibo maroto que burla o Leão na hora de preencher a declaração do Imposto de Renda. Não consideram as vantagens financeiras que têm como privilégios nem os desvios financeiros que promovem como crimes. E isso acaba estendido para outras áreas além da conta bancária.

E aqui chegamos ao cartão de vacinação de Jair Bolsonaro. “Quem nunca?”, dirão, então, seus apoiadores. E assim o que era uma fraude para burlar as leis sanitárias de entrada em outro país se torna uma “esperteza”, uma “sagacidade” do “presidente” – eles, os bolsonaristas, nunca o considerarão um “ex”. Funciona assim para ele porque funciona assim para eles: não querem se submeter ao que chamam “sistema”, que é como chamam o regramento legal quando os desagrada.

Para olhos sãos, Bolsonaro é um fora da lei em diversas camadas; para eles, por todo o conjunto da obra durante os quatro anos de governo e também após, é nada menos do que “o mito”. Nada vai mudar isso, porque a persona do ex-presidente leva junto a essência desse povo – que não é pouca gente, é bom repetir – e os joga diante de todo o passado que querem ver pela frente, parafraseando o grande Millôr Fernandes.

Jair Bolsonaro em 2021, na apresentação do Plano Nacional de Operacionalização da Vacina contra a Covid-19, no Palácio do Planalto | Reprodução