No dia 15 de abril de 1998, em pronunciamento realizado quando era deputado federal pelo PPB (atual pP), Jair Bolsonaro criticou a política de demarcação de terras indígenas na Amazônia. Transcorria ainda o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o capitão da reserva já via ali uma conspiração “globalista” – mesmo que ainda não se usasse tal termo – contra o território brasileiro. Estava na tribuna para contar que um comandante do Exército estadunidense, o general Patrick Hughes, havia discursado na universidade de Massachusetts pregando uma intervenção dos EUA na Amazônia, a pretexto de garantir a preservação do meio ambiente.

Concatenação de ideias já não era seu forte à época e o militar de gravata resolveu, em meio ao transcorrer de seu raciocínio, abrir parênteses para perpetrar uma horrível vassalagem aos “irmãos do Norte”, com uma analogia abominável:

— Até vale uma observação neste momento: realmente, a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e, hoje em dia, não tem esse problema em seu país – se bem que não prego que façam a mesma coisa com o índio brasileiro; recomendo apenas o que foi idealizado há alguns anos, que seja demarcar reservas indígenas em tamanho compatível com a população.

O cerne do problema que o levou a discursar: a demarcação de terras para os yanomamis, uma etnia que se divide em dezenas de aldeias entre o Brasil e a Venezuela, totalizando em torno de 35 mil indivíduos. Os yanomamis não se reconhecem como um grupo unitário, mas como indivíduos associados em aldeias politicamente autônomas. Daí a necessidade de terem um território extenso, cada grupo respeitando o espaço dos demais. Uma ideia não compatível com a cabeça de alguém como Bolsonaro.

A pressão de antropólogos e outros pesquisadores fez com que em 1978, ainda durante a ditadura militar, houvesse a aprovação de um primeiro plano de demarcação de terras para os yanomamis. Veio sem atender aos mínimos anseios: eram porções de terra ilhadas, em um mapa enviesado pelos interesses escusos em minérios da região. Nenhum respeito aos costumes do povo.

No governo de Fernando Collor, em 1992, houve nova demarcação: surgia, enfim, a Terra Indígena Yanomami, com 96,6 mil quilômetros quadrados, maior do que a extensão dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Para os padrões do “homem branco”, desperdício total. Afinal, “pra que tanta terra para tão pouco índio?”, diriam sujeitos como o próprio Bolsonaro.

Foi com essa mesma crença que, no dia 3 de abril de 2017, já em campanha aberta para a Presidência – e com um fã-clube em fase de aceleração de crescimento –, o “mito” diria, em fala a plateia do clube A Hebraica, no Rio de Janeiro: “Pode ter certeza que se eu chegar lá [à Presidência] não vai ter dinheiro pra ONG. Se depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola.”

Várias vezes Bolsonaro se vangloriou de não demarcar ‘um centímetro’ para indígena ou quilombola. Mais do que isso, atacou os povos originários sempre que pôde

Essa foi uma das promessas que Bolsonaro cumpriu como ocupante do Palácio do Planalto. Fazia parte da “política do não”, tão fácil de executar como tão bem menos trabalhoso e mais rápido é destruir em vez de construir, demolir no lugar de erguer.

Durante o mandato, várias vezes Bolsonaro se vangloriou de não demarcar “um centímetro” para indígena ou quilombola. Mais do que isso, atacou os povos originários sempre que pôde. Comparou-os a animais ou os classificou como seres humanos de segunda classe. Entre 2021 e 2022, a votação do marco temporal no Supremo Tribunal Federal (STF), que acabou saindo de pauta, virou para ele palanque contra a questão indígena e mais um ponto de ataque contra o Judiciário.

Se o pico da pandemia foi um momento crítico para as comunidades indígenas – que ficaram desabastecidas de atendimento, de remédios e até de alimentação –, o incrível foi só saber o quanto era pior e ainda mais criminoso esse desgoverno da antipolítica depois de terminado o quadriênio de horrores. Bastou virar o ano e o governo para fatos escabrosos se revelarem de Roraima para o Brasil e o mundo. O Ministério dos Povos Indígenas comunicou que pelo menos 570 crianças yanomamis haviam morrido de fome nos últimos quatro anos, por desnutrição causada por nenhum outro fator a não ser a contaminação por mercúrio pela atuação de garimpeiros ilegais.

Foi Roraima o Estado que deu a Bolsonaro a maior vitória proporcional nas eleições presidenciais: 69,57% no primeiro turno e 76,08% no segundo. Não com o voto dos indígenas: em Uiramutã, extremo norte do País, onde a população tem 88% de indígenas, Luiz Inácio Lula da Silva venceu com 68,2% a 31,8%. Foi o único dos 15 municípios roraimenses em que o petista ganhou do extremista.

Pudera: na terra yanomami, calcula-se que há a proporção quase de um para um entre nativos e garimpeiros ilegais. Foi naquele Estado, embora não na área afetada pela denúncia de genocídio, que o então presidente visitou, em 2021, um garimpo clandestino. Veja só a situação: homens atuando na contaminação de terras pertencentes por lei a determinados povos recebem do responsável pela instituição Presidência da República o acolhimento à infração – para não usar a palavra “crime” – que praticam.

Enquanto isso, Jair Bolsonaro e sua equipe se esmeravam em não cuidar direito dos povos indígenas. Nomeou militares inaptos e ineptos em profusão para as pastas que deveriam servir às aldeias; negligenciou atendimento médico às aldeias; afrouxou ao máximo a fiscalização; fez vistas grossas a atentados e massacres contra tribos diversas.

No dia 20 de janeiro, o Ministério da Saúde decretou emergência em saúde pública em decorrência da desassistência aos yanomamis. Nada menos do que 21 pedidos formais de ajuda ao povo teriam sido negados ou ignorados nos tempos de Bolsonaro.

O caso deles não é isolado. Mas precisa ser isolado. As fotos de corpos esqueléticos que viralizaram são o registro fiel de mais uma vergonha nacional exposta mundialmente. Mas, desta vez, o crime vai ser tipificado. Bolsonaro e sua turma dificilmente escaparão de um julgamento de genocídio cometido contra um povo, por dolo “stricto sensu” ou eventual. Se será condenado ou não, o tempo dirá – e dirá também a respeito de seus demais crimes.

A situação dos indígenas é tão escabrosa que na sexta-feira, 26, latas de sardinha foram despejadas dos céus por uma aeronave da Força Aérea Brasileira, para que famílias yanomamis tivessem com que se alimentar. É que, pela alta contaminação de seus rios por garimpeiros, ficaram sem peixe para pescar. Os rios se tornaram imprestáveis.

A política de Bolsonaro tinha um discurso fácil e que soou como música para grande parte dos brasileiros. Não foi eleito à toa ou por acaso: foi sedutor em sua mensagem. Isso diz muito sobre o povo brasileiro. No mínimo, temos de pensar, em conjunto, o quanto fomos cúmplices com essa maligna “política do não”.