Desde o início da campanha à Presidência em 2018, quando era ainda um “outsider” no jogo político (nada a ver com “fora do sistema”, como querem fazer crer seus militantes, mas com “azarão”, alguém que corre por fora), Jair Bolsonaro (PL) se apegou a um versículo. É o excerto do Evangelho de São João, capítulo 8, versículo 32. Na escrita codificada para a leitura dos cristãos, trata-se como “Jo 8, 32”.

A leitura correta de qualquer livro preza por seu contexto. Não adianta ler “O Pequeno Príncipe” isolando a frase “tu te tornas eternamente responsável pelo que cativas” de todo o restante da (subestimada) obra de Saint-Exupéry. Um texto da Bíblia, uma coleção de dezenas de livros sagrados para os cristãos e também para os judeus (no caso do Antigo Testamento), não pode ser medida por um de seus versículos.

Fosse assim, pela letra da lei apenas, os ricos estariam definitivamente vetados de passarem perto do encontro com Deus, segundo Mt 19, 24 (ou o versículo 24 do capítulo 19 do Evangelho de São Mateus): afinal, “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, disse o próprio Jesus. Toda a teologia da prosperidade e a ideia de que bênçãos vêm em forma de riqueza material, propagada pela Igreja Universal e outras denominações neopentecostais, cairiam por terra.

Outra frase de impacto é atribuída a Confúcio e merece ser mais discutida aqui: “As palavras convencem, os exemplos arrastam”. Ou de nada adianta (ou adianta muito pouco) falar e não praticar o que fala. E, para liderar e ter o respeito de qualquer crente – e não apenas crente religioso, diga-se –, é preciso ter atitude, muito além do que se diz.

Pois, desde o início de seu mandato, Bolsonaro sempre citou o versículo do Evangelho de João, mas nunca fez mais do que jogar as palavras bíblicas ao vento. Mentiu, e mentiu muito. Segundo a agência Aos Fatos, de fact checking, o presidente da República eleito como portador da verdade faltou com ela mais de 5,5 mil vezes. Isso com declarações contadas até 20 de junho – antes do início da campanha eleitoral, portanto.

É uma impressionante coleção de mais de 4,3 mentiras/dia, inclusos domingos e feriados. Longe, porém, de superar seu mestre, Donald Trump, que conseguiu, nos três primeiros anos como presidente dos Estados Unidos (de janeiro de 2017 a janeiro de 2020), mentir ou distorcer fatos publicamente mais de 16 mil vezes. Detalhe que refuta a citação de Confúcio: seus seguidores fiéis nunca deixaram de ser fervorosos e “arrastados” por ambos.

A mentira é um problema principalmente durante as eleições. É bem verdade que não é uma tragédia recente: mente-se para tudo e mente-se mais ainda para conseguir se eleger desde os tempos da democracia da Grécia Antiga, provavelmente.

A questão é que a internet e as redes sociais fizeram surgir a mentira industrializada: hoje chamadas de “fake news”, as notícias falsas são exploradas à exaustão por candidaturas que, por meio do desconhecimento de parte da população e da má-fé de parte de sua militância, sufocam os fatos.

Em 2018, surgiram contra a campanha de Fernando Haddad postagens como a implantação nas escolas, por seu partido, o PT, de uma suposta ideologia de gênero, um “kit gay” nas escolas e até de mamadeiras com bico em formato de pênis para crianças. Grupos bolsonaristas estruturados em cadeia disparavam essas mensagens a centenas de milhões de usuários das redes sociais, especialmente via WhatsApp. Da mesma forma ocorre agora, em 2022. A “tendência” do momento nas notícias falsas é ligar o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao fechamento de igrejas e à censura.

Nem o fato de Lula ter governado o País por oito anos, de 2003 a 2010, sem nenhuma medida que pelo menos sinalizasse algo assim parece ser levado à razão pelas pessoas que se envolvem nessa rede de fake news, à qual o jornalista André Trigueiro, da GloboNews, deu o nome de “ecossistema da mentira”: “O ecossistema da mentira reúne quem produz, quem consome e quem divulga fake news”, diz ele.

O sistema bolsonarista de notícias falsas nunca perde. Primeiro, porque a Justiça Eleitoral age por reação: não dá para atuar por antecipação em relação a uma mentira exatamente porque não se sabe o que será “mentido”. Esse tempo é valiosíssimo para quem quer espalhar boatos e distorções. Quando vem a determinação judicial para suspensão da divulgação ou mesmo o direito de resposta, o estrago já é impossível de ser corrigido.

O episódio das inserções de propaganda eleitoral nas rádios deixou bem nítido como se dá essa fomentação de uma narrativa sem pé algum na realidade

Em segundo lugar, quando ocorre a intervenção da Justiça, provocada por adversários ou pelo Ministério Público, a reação do bolsonarismo é a de acusar censura e ataques à “liberdade de expressão” por parte do “sistema”. É como se quisessem liberdade para mentir sem punição alguma. Mais: utilizam-se das medidas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como forma de provar que estão sob “ataque” das instituições.

O episódio das inserções de propaganda eleitoral nas rádios deixou bem nítido como se dá essa fomentação de uma narrativa sem pé algum na realidade. Estruturada nas redes bolsonaristas, um assunto é levantado e toma conta da pauta, muitas vezes, como foi o caso, para abafar outro (o ataque do aliado Roberto Jefferson a tiros contra policiais). Dominam as manchetes e o tema negativo fica de lado.

No caso do versículo evangélico – no sentido de “Evangelho” – citado à exaustão por Bolsonaro, a frase completa, dita por Jesus, começa no anterior: “Se vós permanecerdes na minha palavra verdadeiramente, sereis meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Para os cristãos, a verdade, na verdade, é a Verdade: Jesus – que, também no mesmo Evangelho de João, mais “à frente”, vai dizer “eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14, 6 – agora sem “legenda” para que o leitor possa testar e tirar algum aprendizado desta coluna, além do argumento propriamente dita).

Talvez Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, pudesse explicar, sendo Bolsonaro quem é, por que ele ousou tanto ao escolher tal versículo como um slogan seu.