A nova dor de cabeça de Wilder Morais
10 maio 2026 às 06h00

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O Partido Liberal em Goiás parece ter como especialidade fabricar crises internas continuamente e sangrar com elas. A legenda, composta por figuras de temperamento colérico e midiático, consegue sozinha implodir diálogos e alianças, desalinhar discursos e levar para a praça pública a lavagem de roupa suja que, em tese, deveria ser feita nos bastidores de seus diretórios, como ocorre em qualquer outro partido.
Sob o comando do senador e pré-candidato ao governo de Goiás, Wilder Morais, o PL estadual soa mais como um carro em chamas desgovernado. Em chamas não no bom sentido da metáfora, que serviria para descrever um projeto imparável e fulminante, mas no pior deles: uma geringonça que deu defeito, perdeu o freio, explodiu e agora ninguém mais sabe como parar.
O “pepino” da vez, novamente, envolve dois de seus integrantes. Com xingamentos que vão de “moleque”, “burro” e “traíra” a “soldadinho de chumbo” e “palhaço”, os deputados estaduais Major Araújo e Amauri Ribeiro por pouco não foram às vias de fato no meio do Plenário da Assembleia Legislativa de Goiás.
Leia-se: a briga física só não aconteceu porque até a Polícia Legislativa precisou intervir. Mas palavrões, insultos e até ameaça de morte não faltaram. Um raivoso Araújo gritou “Põe a mão em mim que amanhã você amanhece morto” para um descontrolado Amauri, que havia berrado “Não deixa eu pôr a mão em você não”. Agora, os dois prometem levar um ao outro ao Conselho de Ética da Casa. Dois deputados do mesmo partido.
A confusão teve origem justamente, ainda que de forma indireta, na figura que deveria atuar para resolver a situação. Wilder Morais, após se ausentar da votação histórica no Senado que barrou a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, virou alvo de críticas de todos os lados, inclusive de integrantes do partido que comanda em Goiás.
Logo após a constatação de que Wilder simplesmente não apareceu para votar, Amauri Ribeiro cobrou, no Plenário da Alego, explicações do senador sobre a abstenção. Major Araújo não teria gostado nada e saiu em defesa de Wilder, afirmando que Amauri tinha cargos no governo estadual e que “sempre se vendeu”. “Esta prática de adesão do deputado Amauri por emprego, por vantagens, sempre esteve aqui”.
Em resposta, Amauri Ribeiro desafiou Major Araújo para “um debate olho no olho”. Na réplica seguinte, Araújo intensificou as críticas e chegou a dizer que Amauri era de uma “direita trans”. O circo estava armado, e o resto é história.
Acontece que o atrito, que acabou evoluindo para um “Amanhã você amanhece morto”, remontaria a uma situação ainda mais antiga, também ligada ao manejo de Wilder com o partido. Diz-se, nos bastidores, que a filiação de Amauri, que até então estava no União Brasil, teria deixado muitos bolsonaristas de orelha em pé. Isso porque, mesmo declarando apoio a Wilder ao governo, o parlamentar ainda teria um “pezinho” na base governista, contando, de fato, com cargos no governo e até certa simpatia pelo governador Daniel Vilela e seu projeto para o pleito deste ano.
Wilder, ciente desse e de outros burburinhos, parece não ter dado a devida importância. Deu no que deu: uma exposição raivosa e à luz do sol de que não há qualquer tipo de alinhamento dentro do PL goiano, sobretudo no discurso e nas posições do partido.
A dor de cabeça de Wilder fica ainda mais intensa quando se observa o contexto de sua pré-candidatura ao governo de Goiás. Vale lembrar: o senador atropelou as negociações da figura mais proeminente de seu partido no estado, Gustavo Gayer, para lançar-se no que muitos viam, e ainda veem, como uma aventura.
E se antes o PL ensaiava pisar em terra firme, com a possibilidade de Gayer concorrer ao lado de Gracinha Caiado ao Senado pela base governista, potencializando, assim, as chances de o partido cumprir sua meta em Goiás, a de fazer ao menos um senador e o máximo possível de deputados federais, agora a legenda parece patinar com um pré-candidato ao Executivo que aparece em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto e que sinaliza não ter habilidade sequer para conter os descompassos do próprio partido.
A ausência de Wilder Morais na votação de Messias, o descontrole contínuo do PL em Goiás, com perda ininterrupta de prefeitos e apoiadores e filiados apoiando pré-candidatos rivais, e as brigas entre correligionários expostas à luz do dia têm feito com que o crédito do senador com o clã Bolsonaro esteja perto do fim.
Para se ter uma ideia, já circula nos bastidores a informação de que Flávio Bolsonaro, que viria a Goiás no próximo dia 23 de maio, agora não deve mais aparecer. Recado para Wilder mais claro do que esse não poderia haver.
O melhor seria que Wilder Morais esteja com uma carta na manga, um trunfo secreto em elaboração. Caso contrário, pelo que se desenha, não haverá Tylenol possível para sanar a dor de cabeça gerada pelos rumos do PL e de seu próprio projeto.

