Satoshi Kanazawa é o comunicador científico mais “cancelado” do planeta (a disputa com Richard Dawkins por esse posto é acirrada). Kanazawa é um psicólogo evolutivo formado pela Universidade do Arizona e dá aulas na Escola de Economia e Ciência Política de Londres. Como Dawkins, as razões para a rejeição a seu nome são duas: os tópicos delicados abordados e o fato de ser um autodeclarado “fundamentalista científico” (esse era o título de seu blog). 

A psicologia evolutiva busca entender o comportamento e a cognição do ponto de vista da adaptação às pressões da seleção natural. Enquanto outras áreas da psicologia podem investigar a história de vida do indivíduo, a linguagem ou as influências sociais para explicar atitudes e comportamentos, a psicologia evolutiva se interessa pela forma como esses fatores podem ter sido premiados pelo processo evolutivo das espécies.

Desta forma, psicólogos evolutivos caminham em território delicado. Esses cientistas refletem sobre a cultura, hábitos, tabus e preferências em função da competição dos indivíduos pela sobrevivência e pela reprodução. Abordar questões como a atração sexual em termos de vantagem requer cuidado e clareza – qualidades que Kanazawa não teve e que lhe transformaram em persona non grata na academia.

Porém, nem todas as suas ideias merecem desprezo. No livro de 2007, “Why Beautiful People Have More Daughters” (“Por que pessoas bonitas têm mais filhas”, sem tradução para o português), Kanazawa apresenta o “Princípio da savana”. Trata-se da ideia de que, como os humanos passaram 99% de sua história evolutiva na savana africana, o comportamento da espécie está adaptado àquele contexto e pode levar a problemas no ambiente moderno. 

Kanazawa usa a disparidade entre o ambiente em que surgimos e o ambiente em que vivemos para explicar uma série de dificuldades sociais. Por exemplo, ancestrais que ansiavam por alimentos açucarados e gordurosos viviam mais e eram mais saudáveis do que aqueles que não os comiam, pois naquele contexto em que calorias eram escassas, essa predileção era recompensada. Hoje, a abundância de alimentos açucarados e gordurosos faz com que a escolha instintiva por mais calorias leve à obesidade e doenças cardíacas. 

Na melhor livro do autor 2012, “The Intelligence Paradox” (“O Paradoxo da Inteligência: Por que a escolha inteligente nem sempre é a mais esperta”, 2012, sem tradução para o português), Kanazawa expande sua teoria, propondo uma interação com o QI. A hipótese é que indivíduos mais inteligentes são mais propensos a comportamentos evolutivamente novos e mais propensos a valores que promovem maior desejo de novidade. Para justificar sua ideia, Kanazawa analisa milhares de dados dos sistemas de saúde de diversos países que mantém registro da inteligência medida por teste de QI dos cidadãos. 

A principal contribuição é a distinção entre problemas evolutivamente familiares e evolutivamente novos. Os problemas familiares são os desafios que também eram encontrados na savana onde a humanidade evoluiu – encontrar parceiros, manter relacionamentos familiares, lutar e guerrear, entre outros. A ideia é que nossos ancestrais tiveram milhares de anos para lidar com esses problemas e a evolução moldou nosso comportamento de forma que solucioná-los exige menos criatividade, análise e outras capacidades associadas com a inteligência geral (G). 

Os problemas novos são aqueles criados após a industrialização da sociedade. Permanecer sentado e concentrado por muitas horas é uma complicação relativamente nova na história humana – e assim Kanazawa justifica o maior sucesso profissional das pessoas com alto QI. Resolver desavenças por meio da diplomacia e política é evolutivamente novo; por isso, a maior parte dos presidiários britânicos condenados por crimes violentos têm baixo QI, segundo Kanazawa. Entretanto, crimes financeiros são evolutivamente novos, e a maior parte das pessoas condenadas por eles têm alto QI, segundo apontam os bancos de dados dos sistemas de saúde analisados.

O principal ponto de interesse do livro The Intelligence Paradox está na aparente contradição de que pessoas inteligentes fazem escolhas estúpidas. O tabaco é uma planta das américas e o cigarro só se tornou um produto disponível para as sociedades pós-industriais no século XVIII, por isso é um problema evolutivamente novo. Apesar de todas as evidências de que fumar é uma péssima ideia, as pessoas inteligentes sempre fumaram mais (até as campanhas anti-tabaco dos anos 1990).

No livro, Kanazawa resgata alguns de seus estudos prévios e os reinterpreta à luz da nova teoria. Em uma pesquisa de 2004, seu grupo da Escola de Economia e Ciência Política de Londres havia medido o QI de participantes, exibido uma série humorística de TV e aplicado um questionário sobre a satisfação que cada um sentiu ao assisti-la. Em média, os participantes menos inteligentes afirmaram sentir mais prazer do que as pessoas mais inteligentes. A justificativa dada em The Intelligence Paradox é de que, na savana, nossos ancestrais não tinham TV. Assim, discernir experiências reais das experiências vistas na tela é uma habilidade evolutivamente nova, privilegiada pela maior inteligência. Por isso, pessoas menos inteligentes teriam criado mais vínculos com os personagens e se emocionado mais com o que assistiram. 

É importante lembrar que todos esses achados dizem respeito a uma média: detestar televisão não é evidência da inteligência de uma pessoa – na verdade, a pessoa mais inteligente do mundo pode adorar o pior programa de TV e isso não significa que o estudo está errado. Frequentes lembretes como este ao longo do livro ilustram a dificuldade do problema. Nós aprendemos a associar a inteligência com o valor que uma pessoa tem, e o esforço de Kanazawa para desfazer essa confusão é a melhor qualidade de The Intelligence Paradox

Estudos como “Por que os menos inteligentes gostam mais de televisão do que os mais inteligentes” nos obrigam a questionar: por que queremos detestar assistir televisão? Por que desejamos gostar de música clássica? Por que associamos essas coisas com o valor humano? 

A questão fica ainda mais absurda quando consideramos que sermos inteligentes não nos torna bons em problemas antigos, como criar os filhos. Existe uma correlação muito clara entre alto QI e a falta de interesse em ter filhos. Principalmente entre as mulheres, a alta inteligência significa muito menos descendentes em todos os países analisados. Sendo a reprodução a própria definição de sucesso evolutivo, este é o exemplo mais claro de um problema antigo em que pessoas inteligentes fracassam, pois o alto QI ajuda a solucionar apenas problemas novos.

O problema se estende além: pessoas inteligentes têm menos amigos. “Estudar qualquer assunto ouvindo palestras, lendo livros e fazendo exames escritos é evolutivamente novo. Na verdade, provavelmente todas as matérias ensinadas na escola são mais ou menos evolutivamente novas, e é por isso que precisamos ensinar aos alunos como fazê-las. Não precisamos ensinar os alunos a fazer amigos, porque faz parte da natureza humana e todo mundo sabe fazer amigos por conta própria. Todos, isto é, exceto pessoas inteligentes.”

Sim, as pessoas inteligentes ganham mais dinheiro e alcançam um status mais alto nas organizações, porque as organizações complexas nas quais a maioria das pessoas trabalha hoje são inteiramente novas evolutivamente. Sim, pessoas inteligentes são melhores médicos, melhores astronautas, melhores cientistas e melhores violinistas, porque todas essas atividades são evolutivamente novas.

“Mas essas são todas as coisas sem importância na vida”, frisa Satoshi Kanazawa. “Não fomos projetados para sermos médicos, astronautas, cientistas ou violinistas. E pessoas inteligentes falham nas coisas mais importantes da vida. Eles não são melhores amigos, não são melhores cônjuges e parceiros, e não são melhores pais, precisamente porque são coisas que nossos ancestrais fizeram por centenas de milhares de anos na savana africana. Se você pudesse escolher, preferiria ser um bom neurocirurgião ou um bom pai? “

“A inteligência é apenas uma das muitas, muitas características que os humanos possuem e nas quais existem diferenças individuais, como altura, peso, cor do cabelo, cor dos olhos e muitos traços de personalidade como agressividade e sociabilidade. Assim como as pessoas inteligentes são diferentes das pessoas menos inteligentes – tanto no que é bom quanto no que é ruim – as pessoas mais altas são diferentes das pessoas mais baixas, e as pessoas sociáveis ​​são diferentes das agressivas Mas nunca igualamos nenhum desses traços individuais com o valor humano. Nunca acreditamos que pessoas mais altas são seres humanos mais dignos ou melhores do que outros. No entanto, por alguma razão insondável, as pessoas tratam a inteligência de forma diferente. Eles acreditam (ou pelo menos agem como se acreditassem) que a inteligência é a medida final do valor humano.”