Italo Wolff
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Novo livro reescreve 40.000 anos de história humana

Um arqueólogo e um antropólogo destroem mitos sobre nosso passado que acreditamos desde Platão – pelo bem de nosso futuro

Pintura rupestre mais antiga do mundo, na caverna de Chauvet, França | Foto: Reprodução

Existe um período da história humana sobre o qual acreditamos mais em mitos do que em fatos. Por ser difícil encontrar indicativos do modo de vida dos grupos de caçadores-coletores da pré-história (paleolítico, até 9.640 anos antes da era comum), os escritores da filosofia política e social viram nesta época uma oportunidade conveniente para especular e fundamentar suas ideias. Diversas dessas convenções arbitrárias ganharam popularidade, credibilidade, e se tornaram clássicos sem jamais serem debatidas. Agora, um novo livro questiona as suposições sobre o amanhecer da civilização. 

Para o antropólogo David Graeber e o arqueólogo David Wengrow, o consenso é o principal problema. Os pesquisadores reúnem no iconoclasta e irreverente ‘The Dawn of Everything’ evidências acerca de como as sociedades podem realmente ter se desenvolvido. As suposições desafiadas são as familiares: “as sociedades maiores inevitavelmente produzem desigualdades”; “a evolução social ocorreu em saltos”; “tribos guerreiras dominaram grupos de caçadores-coletores”; “os primeiros estados foram tentativas de reprimir nossa natureza egoísta e violenta”; “antes do estado, o humano era feliz e livre”; entre outras.

Como os humanos passaram 99% de sua existência no período pré-histórico, alegações sobre este passado são um poderoso recurso retórico. Principalmente após a publicação da Origem Das Espécies, de Charles Darwin, pensadores utilizaram a evolução natural para justificar suas ideias acerca de como as coisas deveriam ser. Por exemplo: “dentro de suas tribos, o Homo sapiens compartilhou recursos igualmente por milênios, portanto, o comunismo igualitário é como evoluímos para viver”. O mesmo recurso retórico existe no outro espectro ideológico: “é inútil lutar por igualdade social, pois as diferenças são fruto inevitável do progresso”. 

Pela maior parte de suas 526 páginas, The Dawn of Everything enumera evidências de que a chamada “revolução agrícola” foi mais gradativa e titubeante do que se pensava. Há razões para acreditar que não houve uma simples troca do modo de vida feliz, estúpido e igualitário dos caçadores-coletores pela riqueza, degeneração moral e hierarquia social das primeiras cidades. David Graeber e David Wengrow pintam um cenário mais provável, complexo e dinâmico para o período – houve imensas cidades sem hierarquia social na era do cobre (como Harappa, civilização do Vale do Indo) e houve grupos nômades democráticos e hierarquicamente complexos (como o povo Wyandot, nativo norte-americano). 

David Graeber (1961-2020), além de antropólogo foi também um militante anarquista. Sua posição política pode causar receio em alguns leitores; embora a obra não contenha a defesa de uma forma de governo. Enquanto Graeber e Wengrow não oferecem um modelo de como e por que os estados modernos surgiram da forma que surgiram, a riqueza de The Dawn of Everything está justamente no confrontamento de ideias incontestadas com as evidências. Há um frescor na postura anárquica de questionamento das versões estabelecidas por filosofias historicistas

Desconfiando das utopias

“Historicismo” é um termo cunhado por Karl Popper (1902-1994) em “A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos” (781 páginas, Editora Fragmentos, tradução de Anabela Sottomayor, Catarina Labisa e Teresa Curvelo). A palavra designa as diversas filosofias que tentam explicar eventos sociais com base em supostas leis que regem a história. Essas filosofias, segundo Popper, são perigosas porque implicam no autoritarismo. Em The Dawn of Everything, o termo “historicismo” nunca aparece, mas a relação da investigação pré-histórica com as filosofias historicistas é fundamental para compreender o espírito anárquico, tão importante em dias de ameaça autoritária. 

O filósofo Karl Popper defendeu o valor do indivíduo em uma era de autoritarismo | Foto: Reprodução

Segundo o físico e filósofo Karl Popper, a tradição historicista se iniciou com o grego Heráclito, mas foi desenvolvida e disseminada por Platão, que concebeu a ideia de que todo o conhecimento, toda a verdade, todas as relações e coisas possuem uma forma ideal, verdadeira e imutável. Aqui, no plano real e material, lidamos com suas versões degeneradas e imperfeitas. As formas ideais, criadas por deuses no passado, já estariam acessíveis apenas em pensamento. 

Partindo daí, em “A República”, Platão postulou que no passado houve uma sociedade ideal que se degenerou nas pólis gregas de seus dias. Estados degenerados, segundo Platão, devem se aproximar da utopia passada impondo a moral platônica. O filósofo viveu em 400 a.c. e escreveu sobre o passado grego, o período das Invasões Dóricas de 1.000 a.c.. Portanto, esse regresso significava adotar práticas como infanticídio espartano e escravização de outros gregos não-dóricos (Platão era um grande admirador dos espartanos, descendentes dos dóricos). 

Platão não chegou até nós sozinho. O idealismo de supostas utopias perdidas do passado foram resgatados nos séculos XVII e XVIII por pensadores como Rousseau (para quem o homem do passado remoto era o “bom selvagem”), Comte, Mill, Hegel e Marx. Todos esses filósofos utilizaram a muleta retórica de afirmar o que fosse conveniente sobre sociedades fora do alcance da civilização para defender ideias de intercessão pela força, sob o pretexto de proteger os indivíduos de eventos malignos e implacáveis da história.  

Karl Popper escreveu A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos durante a segunda guerra mundial e suas críticas a Platão na verdade miravam Hitler, Mussolini e Stalin. Esses autoritários tinham em comum o uso da força estatal para atingir a utopia – a noção de que cidadãos deveriam seguir uma moral e uma ordem ideal ou iriam cair em degeneração. Popper ainda defende o valor do indivíduo, da solução pontual de problemas concretos, de melhoramento social gradativo, contra a tentativa de dominar e impor modelos prontos.

The Dawn of Everything complementa a crítica de Popper com novas descobertas da arqueologia que revelam que nunca houve período ideal. A história humana sempre foi cheia de conflitos. No passado, algumas sociedades saíram de embates em condições melhores, outras em situações indesejáveis. As sociedades atravessaram inúmeros períodos de riqueza e escassez, liberdade e dominação, ditadura e democracia. The Dawn of Everything reforça as ideias de Popper ao mostrar que não existem leis que nos digam como as coisas serão e nem modelos que devemos seguir. Toda a responsabilidade de construir uma sociedade desejável recai sobre os indivíduos. 

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