Italo Wolff
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Morte de animais leva à morte de vegetação. Brasil está no topo do índice

Estudo analisou ecorregiões de todo o mundo e encontrou que a perda de animais dispersores de sementes no Brasil deixa biomas vulneráveis a mudanças climáticas

Servidor do ICMBio tenta salvar anta no Cerrado | Foto: Reprodução/ICMBio

Um novo estudo publicado pela revista Science analisou 406 redes de interações entre plantas e animais ao redor do mundo para compreender o impacto causado pela ameaça às espécies dispersoras de sementes. O esforço de fôlego dos quatro autores da pesquisa envolveu mais de 4.500 espécies e apontou para o declínio acelerado de plantas, que ficam impossibilitadas de migrar pela falta de animais dispersores. Entre centenas de ecorregiões analisadas, os resultados para o Brasil estão entre os mais assustadores

A maioria das espécies de plantas depende de animais para carregar seus frutos carnosos para outras áreas. Com o declínio nas populações de animais (defaunação), o potencial das plantas de se adaptarem às mudanças climáticas também é reduzido. Por exemplo: plantas habituadas a climas amenos não conseguem migrar para locais mais frios conforme sua região nativa é degradada se os animais que poderiam carregar suas sementes foram extintos.

Os autores publicaram: “Estimamos conservadoramente que a defaunação de mamíferos e aves já reduziu a capacidade das plantas de se adaptar às mudanças climáticas em 60% globalmente. Essa forte redução na capacidade das plantas de superar a transformação do ambiente por meio da migração mostra uma sinergia entre a defaunação e as mudanças climáticas que prejudicam a resiliência da vegetação.”

Entre as centenas de ecorregiões analisadas, constam os biomas brasileiros da Mata Atlântica em vários estados, a floresta amazônica, a Caatinga, o Cerrado, as áreas costeiras do nordeste, os Pampas, e outros. O Cerrado é uma das regiões mais penalizadas do mundo, com perda estimada de 80% da capacidade de adaptação da vegetação às mudanças climáticas, segundo a metodologia. 

Para entender

No caso do Cerrado, a perda da diversidade animal impactou principalmente o índice de dispersão de longa distância das espécies vegetais. Os cientistas analisaram os efeitos da degradação atual do Cerrado em comparação com a natureza original onde essas espécies evoluíram para habitar. O que encontraram foi uma perda de 85% na capacidade de migração das espécies, ou seja, uma incapacidade quase completa de alcançar áreas mais preservadas, como reservas ambientais. 

Os modelos desenvolvidos pelo grupo foram baseados em características para prever interações de pares e levaram em consideração variáveis como a distância média percorrida por cada espécie animal e a capacidade de adaptação a mudanças climáticas. Esses critérios foram ponderados em função da mudança na riqueza de espécies e no funcionamento de cada ecossistema.

A vegetação de outros biomas brasileiros também está em risco. A Mata Atlântica perdeu 86% da capacidade de dispersão. Para comparação, a média mundial é de menos 60%. A Caatinga também está acima do risco médio do planeta, com 73% de perda na capacidade de adaptação. O Pampa da região sul é o triste recordista brasileiro, com menos 95% da capacidade original de dispersão. 

O que isso quer dizer

O estudo é fundamental para compreender que a simples política de criar áreas de proteção ambiental não é suficiente. Como comentou Ary Soares, ex-superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em reportagem do Jornal Opção, a criação de corredores de biodiversidade entre áreas protegidas é fundamental para que as espécies possam se dispersar e alcançar reservas. 

A proteção à vida animal nativa também precisa ser intensificada caso o Brasil queira proteger seus biomas. O estudo publicado na Science não analisou o impacto da perda da vegetação na fauna, mas podemos inferir que trata-se de uma cadeia interdependente, na qual a morte de animais acelera a morte da vegetação e vice-versa, o que cria um ciclo vicioso.

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