Italo Wolff
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Como a erupção de Tonga está nos ajudando a entender Marte

Cientistas da NASA afirmam que há semelhanças entre a formação do vulcão basáltico e estruturas que vemos em Marte e Vênus

Vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha’apai durante explosão | Foto: Reprodução

A brutal erupção do vulcão submarino próximo à ilha de Tonga, neste sábado, 15, foi tão forte quanto a bomba atômica que destruiu Hiroshima no fim da Segunda Guerra Mundial. Com potência equivalente à detonação de dez mil toneladas de TNT, a erupção de 8 minutos foi tão poderosa que pôde ser ouvida nos Estados Unidos, a mais de 10.000 km de distância, e as ondas geradas causaram a morte de duas pessoas no Peru. Entretanto, o evento está ajudando cientistas espaciais a compreender outros planetas. 

Cientistas da NASA publicaram que a erupção do vulcão Hunga Tonga-Hunga Ha’apai está é uma oportunidade para entender as características que se formaram nas superfícies de Marte e Vênus, por oferecer uma rara oportunidade de estudar como a água e a lava interagem. Ao redator Smriti Mallapaty do periódico científico Nature, cientista-chefe do Goddard Space Flight Center da NASA, James Garvin, afirmou que há semelhanças entre a formação do vulcão de Tonga, do tipo basáltico, e estruturas que vemos em Marte e Vênus. 

Ilha vulcânica durante erupção | Foto: Reprodução / NPR

Normalmente, cientistas não registram a formação de ilhas vulcânicas, pois, em geral, elas duram poucos meses antes de explodir ou de ser erodidas pela água. Mas Hunga Tonga–Hunga Haʻapai, que começou a se formar em 2015, sobreviveu por anos, permitindo que a equipe de Garvin observasse por satélites o levantamento do fundo do mar. Os pesquisadores podem usar esse conhecimento para entender como pequenos vulcões cônicos encontrados em Marte podem ter se formado na presença de água bilhões de anos atrás.

As erupções submarinas são muito diferentes das erupções que ocorrem em terra e podem produzir diferentes formas de relevo. A presença de grandes quantidades de água do mar pode tornar as explosões mais violentas, além de resfriar rapidamente a lava e restringir a quantidade de gás emitida por ela. Acredita-se que muitos vulcões em Marte tenham entrado em erupção com fluxos constantes de lava, mas alguns podem ter sido explosivos, como Hunga Tonga-Hunga Ha’apai.

O ambiente marinho também imita alguns aspectos das configurações de baixa gravidade em pequenos planetas como Marte e pode lançar uma luz única sobre as características marcianas que se formaram em menor gravidade. Além disso, a violenta explosão do último fim de semana foi precedida por uma série de pequenas erupções a partir de dezembro que aumentaram o tamanho da ilha. 

Os pesquisadores da equipe de James Garvin estavam no processo de redação de um artigo científico descrevendo a lenta erosão da ilha e de um modelo teórico explicando o que tornava a formação tão estável – mas, então, BOOM. “Tivemos que redefinir”, diz Garvin sobre seu artigo. Na NPR (Rádio Pública Nacional, veículo jornalístico do estado americano), Gavin explicou os próximos passos para os cientistas. 

Após a erupção, a ilha foi dividida em duas | Foto: Reprodução / PBC

Garvin diz que os cientistas querem pesquisar a área ao redor da caldeira do vulcão com drones, satélites ópticos, de radar e laser. Ele também espera que o vulcão seja seguro o suficiente para que os pesquisadores o visitem no final do ano. Ele explica que a explosão foi tão forte que arrancou partes das ilhas mais antigas próximas, como Mango Island. Parte dos destroços lançados ao ar que vemos nas imagens de satélite não eram cinzas – eram rocha sólida, explodida em pedaços.

Garvin diz que a formação da ilha “semeou sua própria destruição”. À medida que subia do mar, camadas de magma líquido preenchiam uma rede de câmaras abaixo dela. Ele suspeita que a explosão foi desencadeada por uma mudança repentina no encanamento subterrâneo, que causou a inundação dessas câmaras por água do mar. “Quando você coloca uma tonelada de água do mar em um quilômetro cúbico de rocha líquida, as coisas ficam feias bem rápido”, diz ele.

O cientista conclui que entender o acontecimento é uma forma de impedir que as mortes e destruição sejam em vão. “Este é um evento absolutamente horrível para os tonganeses. Mas pode também ser um marco divisor de águas na vulcanologia”.

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