Italo Wolff
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Cientistas encontram provável origem da pandemia

Redução de habitats de espécies selvagens, caça de animais e urbanização de territórios silvestres aumentam o risco de novas pandemias

Legenda: Morcego da espécie Rhinolophus affinis | Foto: Reprodução/ASM

No dia 16 de fevereiro, um vírus muito parecido com o Sars-CoV-2 foi encontrado circulando entre morcegos de cavernas no norte do Laos, o que pode explicar de uma vez por todas a origem da pandemia. Assim como o vírus causador da Covid-19, esse vírus encontrado é capaz de se ligar com sua proteína Spike ao receptor ACE2 humano, e é inibido pelos anticorpos humanos que combatem a Covid-19. 

Os pesquisadores publicaram sua descoberta na revista Nature e mostraram que nas cavernas calcárias do Laos existem espécies de morcegos (Rhinolophus affinis) que abrigam coronavírus tão próximos ao SARS-CoV-2 que diferem em dois aminoácidos na região de suas proteínas Spike. Há  96,1% de similaridade em todo o material genético entre o coronavírus humano e o coronavírus dos morcegos (chamado RaTG13). 

Apesar da assustadora semelhança, talvez os dados mais interessantes estejam nas diferenças entre os coronavírus de morcegos e humanos. Analisando essas discrepâncias, os pesquisadores podem entender quais foram as mutações necessárias pelas quais o vírus precisou passar para conseguir infectar hospedeiros humanos. 

Os morcegos da espécie Rhinolophus affinis vivem também no norte da Índia, Nepal, Mianmar e boa parte do Sudeste Asiático. Como os morcegos vivem em comunidades densamente aglomeradas, a fácil transmissão desses coronavírus representa uma grande oportunidade para o surgimento de novas mutações. 

Além disso, mais de 500 milhões de pessoas passam pelas cavernas que são o lar dos morcegos, como coletores de guano (“esterco” de morcego utilizado como fertilizante) e religiosos ascetas que passam algum tempo dentro ou próximos das cavernas, além de turistas e geólogos que visitam as grutas. 

Levando em conta a alta transmissão do vírus em uma espécie, é possível que algumas mutações resultem em ganhos de aptidão, permitindo que o vírus se espalhe mais facilmente. Interação entre coronavírus de diferentes espécies podem resultar em trocas genéticas chamadas de recombinação.  Dada a proximidade das espécies, temos o fenômeno chamado spillover, o pulo do vírus dos morcegos para os humanos.

A lição é clara: desequilíbrios ecológicos podem causar novas epidemias. A redução de habitats de espécies selvagens, a caça de animais, a urbanização de territórios silvestres – todos esses fatores aumentam o risco de eventos zoonóticos.

Novo estudo encontra diversos vírus em animais exóticos consumidos na Ásia

Sabe-se que os mercados de animais vivos provocam surtos, como a síndrome respiratória aguda grave (SARS) há duas décadas. Mas novo estudo da Universidade Agrícola de Nanjing, publicado no periódico Cell, ressalta a extensão da ameaça, mostrando que há uma enorme diversidade viral desconhecida nos animais.

Os pesquisadores, liderados pelo veterinário Su Shuo, coletaram amostras de quase 2.000 animais representando 18 espécies diferentes em locais na China, incluindo curtumes, peleterias, zoológicos e habitats naturais. A maioria eram espécies que são tradicionalmente comidas como iguarias na China, incluindo civetas, cães-guaxinim, texugos, ratos de bambu e porcos-espinhos. 

Usando uma técnica de “metagenômica”, que sonda amostras de transcrições de RNA que os vírus fazem quando se copiam, eles identificaram 102 espécies de vírus de 13 famílias virais diferentes nos narizes, fezes e tecidos dos animais. Sessenta e cinco dos vírus nunca haviam sido descritos antes. Os pesquisadores consideraram 21 como “alto risco” para os humanos, porque eles haviam infectado pessoas no passado ou porque tinham um histórico de pular facilmente entre as espécies.

Entre as descobertas preocupantes estavam vários coronavírus. Por exemplo, um ouriço foi infectado com um vírus semelhante ao que causa a síndrome respiratória do Oriente Médio em humanos. Quatro coronavírus caninos encontrados em cães-guaxinim eram geneticamente 94% semelhantes aos coronavírus encontrados recentemente em humanos na Malásia e no Haiti. Para um vírus, diferentes espécies de mamíferos podem ser muito parecidas, desde que suas células tenham receptores apropriados. 

Algumas das espécies amostradas no estudo podem atuar como hospedeiros intermediários, que os coronavírus dos morcegos infectam antes de passarem para os humanos. De fato, um coronavírus próximo ao encontrado em morcegos apareceu em uma civeta. 

Os pesquisadores também detectaram vários vírus da gripe, outra família que pode desencadear uma nova pandemia. Em uma descoberta “de significância considerável”, escrevem os autores, as civetas e os texugos asiáticos carregavam o H9N2, um vírus influenza A que se tornou cada vez mais comum em galinhas e patos. Outros vírus detectados no estudo que podem infectar pessoas incluem influenza B, Norwalk, vírus da parainfluenza humana 2, rotavírus e ortoreovírus.

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