O aumento do interesse pela ayahuasca dentro e fora do Brasil tem ampliado o debate sobre os impactos ambientais e culturais associados à bebida tradicional dos povos amazônicos. Lideranças indígenas, pesquisadores e organizações ligadas ao tema alertam que a crescente procura pode pressionar espécies vegetais utilizadas em sua produção e estimular a comercialização de conhecimentos ancestrais sem a participação das comunidades que os desenvolveram.

Produzida principalmente a partir do cipó mariri (Banisteriopsis caapi) e das folhas de chacrona (Psychotria viridis), a ayahuasca é utilizada há séculos por povos indígenas da Amazônia em rituais espirituais e práticas de cura. Nas últimas décadas, porém, seu uso se expandiu para centros religiosos urbanos, retiros terapêuticos e circuitos internacionais ligados ao chamado turismo psicodélico.

O interesse também chegou ao meio científico. Estudos têm investigado o potencial terapêutico da bebida no tratamento de transtornos como depressão e dependência química. Paralelamente, cresce a preocupação com os efeitos da demanda sobre a floresta e sobre os povos que preservam esse conhecimento.

Para o líder indígena Benki Piyãko, do povo Ashaninka, o avanço do mercado em torno da ayahuasca representa um risco para a própria sustentabilidade da floresta amazônica.

“O que vemos é uma tentativa de transformar um conhecimento ancestral em produto. Se existe espiritualidade, ela precisa estar associada ao cuidado com a terra”, afirma.

Segundo ele, a discussão não se limita à bebida. A preocupação envolve todo o conjunto de espécies vegetais e relações culturais que sustentam os sistemas tradicionais de conhecimento dos povos indígenas.

Falta de dados dificulta controle

Especialistas destacam que ainda há poucas informações sobre a distribuição das espécies utilizadas no preparo da ayahuasca e sobre o volume de extração realizado na Amazônia.

O pesquisador Eufran Ferreira do Amaral, da Embrapa Acre, afirma que inexistem levantamentos consolidados sobre a disponibilidade dessas plantas na natureza. Sem esse monitoramento, torna-se difícil avaliar os impactos da coleta e estabelecer critérios seguros para o manejo sustentável.

De acordo com o pesquisador, já existem relatos de redução da oferta das espécies em áreas onde anteriormente eram abundantes. O avanço do desmatamento e a coleta sem planejamento estariam obrigando extratores a buscar as plantas em regiões cada vez mais distantes.

A ausência de informações também impede estimativas confiáveis sobre a produção e circulação da ayahuasca no Brasil, cenário que preocupa pesquisadores e órgãos ambientais.

Regulamentação gera controvérsia

Em 2025, o Acre aprovou a primeira legislação estadual voltada à regulamentação da extração, transporte e utilização das plantas empregadas na produção da ayahuasca. A proposta buscou estabelecer regras para grupos religiosos e organizações que utilizam a bebida em seus rituais.

A iniciativa, entretanto, recebeu críticas de lideranças indígenas e especialistas. Um dos principais questionamentos é a falta de estudos que indiquem a quantidade disponível das espécies e os limites seguros para sua exploração.

Relatório técnico divulgado pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) apontou que a legislação não estabelece critérios detalhados para garantir a regeneração das plantas nem substitui exigências previstas na legislação ambiental federal.

Organizações indígenas também contestam a elaboração da norma, alegando ausência de consulta prévia aos povos tradicionais, conforme previsto em acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário.

Mercado internacional e insegurança jurídica

Além das questões ambientais, a expansão da ayahuasca ocorre em meio a um cenário jurídico complexo. Embora o uso religioso da bebida seja reconhecido no Brasil, diferentes países adotam interpretações distintas sobre sua legalidade.

A controvérsia envolve a presença da DMT (dimetiltriptamina), substância psicoativa encontrada naturalmente nas plantas utilizadas no preparo da bebida. Enquanto algumas legislações diferenciam a substância isolada das preparações tradicionais, outras equiparam a ayahuasca a drogas proibidas.

Segundo entidades que acompanham o tema internacionalmente, essa situação tem resultado em apreensões e processos judiciais envolvendo indígenas e praticantes da bebida em diversos países.

Povos indígenas articulam resposta global

Diante do crescimento do mercado e dos desafios regulatórios, lideranças indígenas têm ampliado a articulação internacional para discutir o futuro da ayahuasca.

Um dos principais movimentos será o Fórum Mundial da Ayahuasca, previsto para setembro, na Espanha. O encontro reunirá representantes indígenas, pesquisadores e organizações de diferentes países para debater temas como preservação ambiental, proteção dos conhecimentos tradicionais, regulação e uso sustentável das chamadas medicinas da floresta.

A proposta é fortalecer o protagonismo dos povos originários nas decisões relacionadas à ayahuasca e impedir que a expansão global da bebida ocorra sem a participação das comunidades responsáveis pela preservação desse conhecimento ao longo de gerações.

Para os defensores da iniciativa, o desafio é garantir que o interesse crescente pela ayahuasca não resulte apenas em benefícios econômicos para terceiros, mas contribua também para a conservação da floresta e para a valorização dos povos indígenas.

“O maior patrimônio da Amazônia não é apenas sua biodiversidade, mas também a diversidade cultural e os conhecimentos construídos por seus povos”, resume o engenheiro florestal peruano José Torres Vázquez, estudioso do tema.

Entre a crescente procura internacional e a falta de informações sobre os impactos da exploração, especialistas e lideranças indígenas defendem a criação de mecanismos que conciliem preservação ambiental, respeito aos saberes tradicionais e uso sustentável das espécies utilizadas na produção da bebida.

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