Crônica
Isso foi uma bofetada em meus olhos: o vaso com uma pata-de-elefante com mais de dois metros estava repleto de tocos de cigarro. Uma cena explícita de gente imbecil, cabeça de coité...
Sinto um certo alívio em não me enquadrar em determinados moldes alheios de felicidade, em não me deixar levar por alegrias cheirando a naftalina, daquelas que são guardadas dentro de baú para uso em datas específicas
Luís de Camões, num de seus sonetos, diz que o “Amor é brando, é doce e é piedoso;
Nem toda flor é flor, e que, às vezes, o que nos salva está exatamente onde aprendemos a nos entediar
Essa pessoa coleciona versos como quem pendura medalhas no peito, exibindo conquistas que não lhe tenham nascido da sua vivência prática
A imagem que fica não é da leoa, que fez o seu papel de bicho, mas a dele: um jovem em desajuste, arrastado por pensamentos que ninguém conseguia domar
Até outro dia, o que separava a gente no voo era só o tamanho da poltrona, a comida ou a simpatia do comissário
A natureza concedeu à maria-sem-vergonha um dom raro de transformar um canto esquecido da rua ou da calçada num pequenino altar de flores vermelhas, brancas, rosas. Basta-lhe um punhadinho de poeira numa fresta qualquer para estar viva
Quando o Estado passa a medir sua eficiência pelo total de mortos produzidos por seu aparato policial, a própria fronteira moral é lançada à lata de lixo
A ave ficou parada dentro da gaiola, olhando o vazio. E logo veio a escuridão da loja fechada. Ela tinha comida na boca, mas nenhum horizonte; tinha canto, porém nenhum destino, pois suas asas ficaram inúteis
Meu sonho é ver pessoas fazendo das árvores na porta de sua calçada e/ou do seu quintal um pet vegetal. Muitas ainda, infelizmente, não conseguem enxergar as árvores como seres vivos
Penso nas minhas amadas pessoas que repousam em suas arcas eternas, enquanto eu, tecelã de fuso nas mãos, continuo urdindo os fios do novelo das minhas alfaias, olhando estranhos que passam pelas ruas
Ecoava em minha mente a voz da palestrante: “o altruísmo não existe” ... repetidas vezes. Será? Não seria simplesmente desacreditar em uma palavra por não acreditar. Não fazia sentido eliminar um termo tão antigo
Não vi na ave um velhinho abandonado na rua como a poeta Cecília Meireles viu no cachorro e a este amou, segundo ela, “apenas com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta”
O sauntering de Thoreau e o andar de Robin MacGregor se encontram na mesma trilha: a que leva da arte à natureza e da natureza à eternidade


