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Opinião
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Esperar pela viagem de Maurício Sampaio é um escárnio

A justiça para a família do ex-radialista Valério Luiz, assassinado por causa da sua profissão, começa a ser feita. Na última sexta-feira, o Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) pediu a prisão do mandante do crime, Maurício Sampaio, e do autor dos disparos Ademá Figueiredo. Um dos condenados já está atrás das grades do presídio militar de Goiânia, tendo em vista que é um militar da reserva renumerada.

O outro, entretanto, está de viagem. Curtindo os últimos dias em liberdade e tentando ganhar tempo até que a defesa quebre a cabeça e tente arrastar ainda o cumprimento da decisão judicial. Parece brincadeira que um réu condenado em duas instâncias, com diversos habeas corpus negados pela Justiça, tenha mais alguns dias de curtição por aí. Mas é a vida como ela é, pelo menos no Brasil.

Desde maio o ex-cartorário já deveria estar cumprindo a pena por mandar matar o jornalista. Ele, que utilizou-se do seu poder econômico e da influência com agentes militares corruptos, teve um recurso regimental - leia-se recurso protelatório - negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Deve entregar-se à Justiça na próxima quinta-feira, 20.

Vale ressaltar que nada o impedia de viajar enquanto o pedido de prisão efetivamente fosse emitido por um juíz de direito. Enquanto provavelmente aproveita com a família o restinho de liberdade que ainda lhe reta, outras milhares de famílias aguardam ansiosamente pelo seu retorno e prisão. Essa espera, ainda que dotada de uma contagem regressiva, não deixa de ser um escárnio com uma população que aguarda por Justiça, especialmente quando o crime é cometido por aqueles que se acham acima da Lei por causa de suas posses.

O crime, cometido por motivo fútil, deixou uma marca também no jornalismo goiano. As críticas a diretoria do Atlético Goianiense, ocupada também por Maurício, foram o estopim para que uma vida fosse ceifada. Referência no esporte goiano, Valério tecia comentários certeiros nos programas Jornal de Debates, da Rádio Jornal 820 AM, e Mais Esporte, da PUC TV. O crime foi cometido por volta das 14 horas de 5 de julho de 2012, na Rua T-38, no Setor Bueno, a poucos metros da emissora em que a vítima trabalhava.

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O que Toguro tem a nos ensinar sobre o mundo dos influencers é difícil, mas real

Na última semana, viralizou na rede o vídeo em que o digital influencer Tiago Toguro, ou simplesmente Toguro, promove uma "boa ação". No vídeo em questão, o influenciador aparece comprando todos os cofres artesanais vendidos por uma criança. "Para ajudar o moleque, ajudar a quebrada", diz. A frase é dita, no entanto, durante uma pechincha. Cada cofre de gesso, segundo o menino, era feito por seu tio e custava R$ 20. Na "boa ação", Toguro pede um desconto e leva os seis cofres por um valor menor. "Faz por 100?”, pergunta, diante de um assentimento acanhado e até melancólico da criança. 

É claro, nem é preciso dizer que a chuva de críticas foi instantânea. “PQP! A cara que o menino faz já diz tudo. O maluco milionário pedindo desconto de 20 reais para o garoto pobre, é muita escrotidão”, escreveu um usuário do X (antigo Twitter). “O Toguro querendo lacrar, compra 6 cofrinhos a 20,00 e pede desconto de 20,00 pagou 100,00. Ridículo tirou o que pode ser o lucro do garoto carente”, publicou outro. 

Contra qualquer unanimidade, por óbvio houve também quem defendesse. “O importante é que ele ajudou”, “O menino está aprendendo a barganhar na prática. Qual o problema?”, “Preço no atacado é diferente do preço no varejo”, foram alguns dos comentários de internautas que tomaram partido de Toguro. 

O fato é que, tanto a situação viralizada quanto as reações na internet nos direcionam para uma única percepção: o mundo dos influencers não é o mundo real, e isso preocupa. Muito. 

Perceber a (grande) quantidade de pessoas defendendo o ato de Toguro sob o argumento de que ele estava, no final das contas, ensinando a criança a negociar e que aquilo não passava de uma transação comercial pura e simples, um mero acordo sob a égide do capitalismo, nos dá a consciência do impacto que a geração de influenciadores financeiros de redes sociais teve em nossa época.  

Somos bombardeados diariamente por publicações patrocinadas, vídeos e comerciais de influenciadores financeiros com o slogan padrão “Te ensino a ganhar dinheiro”, com a maioria deles (e aqui, destaca-se, não é justo generalizar) doutrinando seu público com uma linha de pensamento que leva a crer que é válido vender a própria mãe para obter lucro financeiro. Junte um pouco de carisma, uma boa retórica e um público desesperado para ganhar dinheiro fácil e voilà

E é justamente essa nova filosofia, nascida no âmago do mundo dos coaches, fruto da convicção de que não é preciso ter conhecimento técnico e empírico para nada, bastando uma boa câmera de celular e 10 mil seguidores ou mais no Instagram, que nasce a pedra fundamental do argumento que relativiza e, pior, naturaliza um milionário tirando lucro de R$ 20 em cima de uma criança. 

O que se faz aqui, vale enfatizar, não é um júri para determinar se Toguro é, ou não, uma pessoa solidária de verdade. Não o conheço e não me interessa conhecer. O que aqui se expõe e se discute é um exemplo esmerado de ato originado, embasado e motivado por uma “moderna” linha de pensamento que diz: Não importa se você é um influencer montado em uma motocicleta avaliada em mais de R$ 40 mil obtendo vantagem de R$ 20 em cima de uma criança que vende cofres de gesso na rua. O que importa, no final de tudo, é o like, é o view, é o “Se inscreva no canal”, é a grana, mesmo que desumana. 

Se a vantagem obtida por Toguro na transação comercial com o menino foi apenas isso mesmo – uma transação comercial -, então que não tenha a audácia hipócrita de chamar de “boa ação”. E aqui, nem falo mais de Toguro, falo da “fábrica’ da qual ele é apenas um produto. 

Fato interessante é: uma grande parte desses mesmos influenciadores que esbanjam uma vida de luxo nas redes, vez ou outra ostentando (esse é o justamente o termo) “boas ações”, citam constantemente Deus e a Bíblia. A quem, com gosto, serviu a carapuça, segue uma passagem bíblica que muito me apetece. Fica ali no livro de Mateus, capítulo 6, versículos 2 a 3: “Quando, pois, deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”. 

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