“As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”. A frase imortalizada pelo poeta Vinícius de Morais nos versos de Receita de Mulher, revela a “obsessão” da sociedade na busca pelo belo. A vaidade – muitas vezes exagerada – e o desejo de se encaixar num padrão de beleza levam muita gente a lotarem clínicas de estética em busca das “medidas” e traços “perfeitos”. Por outro lado, cresce na sociedade uma corrente de pessoas que lutam pela aceitação do que é “fora do padrão”. Mas o que faz uma pessoa bonita? Em concursos de beleza, o que mais vale: capa ou conteúdo? Se antes uma polegada a mais do quadril tirou a coroa de uma miss, hoje não faz mais sentido de apegar a esses “pequenos detalhes”.

Raffael Rodrigues com a atual Miss Goiás, Renata Guerra | Foto: divulgação

Raffael Rodrigues é organizador dos concursos Miss Goiás – nas franquias Miss Universo e Miss Mundo – e Mister Goiás CNB. No caso das misses, a vencedora representa o Estado na etapa nacional e, caso vença, vai disputar a faixa da mulher mais bonita do mundo ou do universo. Todos os anos, as mulheres e homens mais bonitos de Goiás passam pelas mãos dele.

O primeiro concurso que Raffael organizou foi o Miss Anápolis, em 2009. “Mas se for olhar pra trás, eu já era o adolescente que fazia os concursos da escola, entre amigos. Deixava de sair pra assistir ao Miss Universo na TV. É uma paixão que me acompanha desde sempre”, lembrou o organizador.

Para Raffael, os concursos de misses se perpetuam por tantos anos por tudo o que representa. “A miss é uma porta voz que tem muito a contribuir com a sociedade”, pontuou. No entanto, ele reconhece que ainda existe muito preconceito com as candidatas a misses. “A galera acha que a miss é aquela mulher sem voz, que só tem beleza. E quem não entende fica contestando os resultados”, afirmou.

O organizador define uma miss como a representante de sua geração. “Temos vivido tempos de conquistas históricas e a mulher é a grande responsável por isso. Hoje a miss representa não só a beleza, mas a garra, a determinação, o conteúdo”, argumentou. Raffael garante ainda que a miss de hoje não tem mais aquele reinado de desfiles e fotos glamurosas. “Ela desenvolve projetos sociais, dá voz e visibilidade a causas ainda esquecidas pela sociedade e isso faz toda diferença”, completou.

Mesmo assim, a receita para se tornar miss, na visão de Raffael, é simples: disposição, dedicação e entrega. “Ser miss não é fácil. Não existe mais a regra da altura, das medidas, do estado civil, mas existe a obrigação em fazer bem feito e ter essa representação da mulher atual”.

Tradição do concurso de Miss completa 70 anos no ano que vem

Dorama Cury Nasser, a primeira Miss Goiás | Foto: Revista Manchete

O primeiro concurso que contou com uma participante goiana foi o de 1954, uma tradição que completa 70 anos no ano que vem. A primeira Miss Goiás a concorrer na etapa nacional foi Dorama Cury Nasser. Nesse ano, a faixa ficou com Martha Rocha, que conquistou o segundo lugar no Miss Universo. Desde então, nenhuma representante goiana levou o título pra casa.

Em 66 edições já realizadas desde então, a final do concurso só contou com uma representante goiana em nove ocasiões: 1970 (Nara Rúbia Vieira Monteiro, que ficou em 3º lugar), 1971 (Marlene de Oliveira Prates, 4º lugar), 1977 (Selva Rios Campêllo, 4º lugar), 1979 (Suzane Ferreira de Andrade, 2º lugar), 1987 (Ana Amélia Carneiro, 2º lugar), 1989 (Sylvia Beatriz Pires Deja, 4º lugar), 2003 (Lara Brito, 2º lugar), 2008 (Cynthia Cordeiro e Souza, 3ª lugar), 2014 (Beatrice Fontoura, top 5).

Mudam os tempos, mudam as misses

Em 2023, depois da mudança de regras no Miss Universo – uma referência para todos os outros – anunciada no ano passado, agora mães também podem se candidatar ao título. Com isso, Goiás elegeu como miss a mãe Renata Guerra. Ela será a representante de Goiás no próximo concurso de Miss Brasil, em julho. Se ganhar, pode se tornar a primeira mãe a representar o Brasil no Miss Universo.

“Ser miss é muito mais que beleza”, afirma Miss Goiás Renata Guerra | Foto: divulgação

Para Renata, ser miss é muito diferente de ser modelo. “A menos que chegue no patamar da Gisele Bündchen, a modelo não tem voz e dificilmente vai conseguir levar uma mensagem e influenciar pessoas. Ser miss envolve um estilo de vida, levar mensagens sociais, levar a minha mensagem pro mundo e eu falo com a alma, com minha essência”, justificou.

Renata já tinha experiência no mundo das misses: ela foi eleita Miss Anápolis e Miss Goiás Juvenil aos 17 anos. “Era um sonho de adolescência. Mas desde então minha carreira seguiu para um rumo internacional e não pude mais ser candidata”, revelou. Ela morou seis anos fora do Brasil (na Europa e nos Estados Unidos), onde se casou e teve uma filha quando morava em Milão, na Itália. “Quando fiquei grávida pensei que nunca mais poderia ser miss”, lembrou.

O marido de Renata é médico e dois são músicos, cantam juntos. Ela diz que seu companheiro sempre apoiou seu sonho de miss. Na gestação, que, segundo Renata, teve “zero risco”, optou por um parto domiciliar. Sua filha, Samira, hoje é a “razão da sua vida”. “Ser mãe me ajudou a ser miss”, garantiu. Para ela, a maternidade é a maior ferramenta de autoconhecimento por trazer força e compromisso: “Depois de ser mãe, sou outra mulher”, garantiu.

Hoje, Renata concilia sua rotina de mãe com a preparação para o concurso de miss. Enquanto dava a entrevista ao Jornal Opção, precisava dar atenção para a filha que a chamava insistentemente e controlar o cachorro que não parava de latir. E ser miss mudou toda sua rotina. “Até dois meses atrás, só tinha eu e meu marido pra cuidar de tudo. Hoje temos alguém que ajuda. Mas eu continuo cuidando da minha filha, do cachorro, cozinhando pra todo mundo. Não é fácil, mas é uma escolha”, explicou.

Renata se preparou para o Miss Goiás como se fosse para o concurso nacional e hoje continua com a mesma rotina. “Tenho aulas de oratória, inglês, conhecimentos gerais, passarela, cuidados com o corpo, rotinas de exercício”, enumerou. Além disso, ela disse que existe uma cobrança para manter as redes sociais atualizadas, algo que deixa em segundo plano por causa da rotina atribulada. “Ou eu faço, ou eu posto”, rebateu ao lembrar que, além de tudo isso, chegou a dar três entrevistas por dia depois do título.

E enquanto for miss, a mensagem que Renata quer passar é que mães não precisam se limitar depois de terem filhos nem esquecer de si mesmas. “Não podemos desistir dos nossos sonhos. Meu papel é encorajar as mulheres e mães a acreditarem em si mesmas”, afirmou.

Homens também fazem parte desse universo

E os homens não ficam de fora do universo dos concursos de beleza. Vilmar Bertolino é o atual mister Goiás e ficou em segundo lugar no concurso nacional, o que lhe deu o direito de disputar o Mister Global, na Tailândia, ainda sem data confirmada. Até o ano passado, ele vivia em São Luiz de Montes Belos, onde se formou em direito e trabalhava em um hospital com um médico. “O salário começou a atrasar e comecei a aceitar algumas propostas para fazer fotos para algumas lojas da minha cidade”, contou.

Vilmar Bertolino acredita que pra ser mister é preciso muito mais que beleza | Fotos: divulgação

Assim, meio que por acaso, se tornou modelo e logo já estava em Goiânia fazendo campanhas. Foi onde conheceu o concurso Mister Goiás e resolveu se inscrever. “Eu imaginava que o desafio era só desfilar de sunga, mas o buraco é muito mais embaixo. Tem que ter caráter, coração, postura. A maneira como você conversa com as pessoas é avaliada”, afirmou.

O envolvimento dos participantes com projetos sociais também conta pontos. Por ter uma tia com esclerose lateral amiotrófica (Ela), há oito anos é voluntário na Associação Pró-Cura da Ela, que tem como missão promover a qualidade de vida dos pacientes dessa doença rara. “Eles precisam de atenção, de cuidado, de amor e essa entidade vem suprindo essa demanda, prestando um trabalho informativo e oferecendo até aparelhos respiratórios e dietas para quem não tem condições de arcar com o tratamento. Um paciente bem cuidado vive mais”, disse.

De origem humilde, é filho de um mecânico com uma manicure. Já, inclusive, ajudou o pai na oficina. “Nunca tivemos dinheiro, mas nossa família sempre teve muito amor”, afirmou. Depois do título, se mudou para Goiânia e recentemente fechou um contrato de modelo com uma das maiores agências do país e está passando um período do Rio de Janeiro. Por lá, foi aconselhado a estudar para ser ator e quer embarcar nessa ideia. “Ser mister mudou muito a minha realidade”, revelou.

Entre uma sessão de fotos e outra, Vilmar se prepara para a etapa mundial do concurso. Ele malha para manter o corpo em forma e está estudando inglês. Além disso, aposta na sua essência para vencer a competição. “Embora a beleza seja uma das ferramentas que mais contribuem, é algo subjetivo. Toda a minha história de vida contribuiu para eu ser o mister que sou hoje. Eu acredito que uma pessoa bonita é alguém que se cuida. E não é só sobre autocuidado: é o cuidado com o próximo que mais vale”, declarou.

O organizador do concurso concorda com Vilmar. “O que mais chega no concurso são rapazes preocupados com o corpo, se esquecendo das outras coisas. Acabam perdendo e não entendem o motivo. O mister é um representante da sociedade, não dá mais pra julgar alguém só pelo corpo”, revelou.

E Bertolino reconhece que ser mister foi uma mudança de paradigmas. “Nunca imaginei ganhar um concurso de beleza”, afirmou. Mesmo assim, sempre foi assediado em sua cidade natal. Quando trabalhava em uma faculdade, ele relata que alunas – e alunos – o abordavam nos corredores com cantadas e xavecos chulos. Hoje, ele considera a abordagem, inclusive mais respeitosa. “Geralmente, as pessoas aproximam com olhar de admiração. Gosto desse tipo de reconhecimento, mas é uma coisa muito nova pra mim. Nunca tinha vivenciado isso”, comentou.

Mesmo assim, Vilmar acredita que tem jogo de cintura para lidar com o assédio. “Nunca aconteceu realmente de alguém me colocar contra a parede. Mas sempre rola flertes, indiretas. Em Goiânia, o título de Mister Goiás tem peso muito grande. Já até recebi desconto em sushi só pelo título e eu achei o máximo”, completou.

Haters, autoestima e autoconhecimento são os maiores desafios das misses e misters

A psicóloga Yasmine Fayad Takeda tem misses entre as pacientes de seu consultório. “Geralmente trabalhamos autoconhecimento. Mas ao longo do processo entram questões com o corpo e competição”, relatou. E em sua experiência, pode garantir: “o padrão de beleza é prejudicial inclusive para as misses”. Isso porque, na visão dela, o que a sociedade impõe como belo pode “engessar e podar nossa espontaneidade” e deixar as pessoas muito inseguras.

No caso dos homens, ainda tem o preconceito da sociedade. “É algo ainda ‘novo’. Muita gente fez errado no passado e criou-se esse estereótipo de futilidade. Às vezes até sexualizam a atividade masculina dentro da moda. E não é isso que acontece na realidade”, finalizou o organizar do concurso. E a psicóloga concorda: “As pessoas rotulam muito”.

Mas Yasmine propõe uma saída: “respeitar a escolha do outro sem julgar e começar a olhar pro próximo com mais empatia”. Ela lembra que os candidatos a misses e mister sobem em um palco por acreditarem que aquele é um trabalho importante para eles. E fazem isso enquanto são criticados pelo corpo, cabelo, postura e até o jeito de andar. “Existe uma falta de limite na sociedade. As pessoas acreditam que podem falar e fazer tudo, sem levar em conta o que outro está sentindo”, arrematou a psicóloga.

O organizador dos concursos reconhece que, hoje em dia, “trabalhar com o psicológico de quem está participando dos concursos é o maior desafio”. Ele relata que os candidatos precisam lidar hoje com uma enxurrada de críticas nas redes sociais. “As pessoas assistem à final do concurso pela internet e criticam o cabelo, o andar, a postura. Ninguém faz ideia do que eles passam no confinamento e acham que tudo se resume a um corpo e um rosto bonito”, destacou.