Raduan Nassar obriga o leitor a subir o Aconcágua depois de escalar o Everest. É estressante

O escritor deve deixar o pobre do narrador respirar de vez em quando. É preciso deixá-lo esticar as pernas, tomar um gole d’água, ir à cozinha beliscar um pedaço de queijo

Everardo Leitão

Carlos L. Kadosch escreve no Facebook: “Everardo, se você fosse um pouquinho mais paciente…tenho certeza de que jamais se arrependeria em ler nosso grande Raduan Nassar. Claro, é um estilo muito diferente, mas não posso negar que o tenho em alta consideração como um dos maiores de nossa literatura”.

Não, Carlos L. Kadosh, não é uma questão de paciência minha. Vou tentar explicar que não é também pela singularidade do estilo dele ou pela modernidade ou pela sensibilidade aguçada ou por qualquer outra característica que valorizo em outras medidas. E não tem nada a ver com política, raça, religião ou qualquer outro desses temas que tanto dividem o mundo hoje, como você certamente sabe. Não, nada disso. É questão de falta de afinidade literária mesmo. Vamos lá.

Vejamos um trecho da “Lavoura Arcaica” mais na frente: “me ocorrendo que já pudesse estar em comunhão com a saliva oleosa desse verbo, mas eram na verdade só as primeiras ressonâncias do meu sangue tinto que eu sentia salso e grosso, e refluindo na cabeça, e intumescendo ali a flor antes inerme, e fazendo daquele amontoado de vermes, despojada de galões, a almofada sacra pra eu deitar meu pensamento”. E mais adiante: “cheio de tremuras, chegado de muros tão irados, esmaguei a água dos meus olhos”. Quase no final: “semeando nas suas ouças uma semente insana, era a ferida de tão doída, era o grito, era sua dor que supurava”. Sei que muita gente boa gosta desse estilo. E até compreendo: rico vocabulário, poesia, trabalho de ourives. Chego mesmo a bater palmas, reconheço a grandiosidade da tarefa. Mas não gosto de ler.

Me cansa e estressa. Você, que é um grande músico, intérprete e compositor de que gosto muito, vai entender minha analogia. Para meu gosto pessoal, quero frisar bem esse ponto de vista, o autor deve deixar o pobre do narrador respirar de vez em quando. É preciso deixá-lo esticar as pernas, tomar um gole d’água, ir à cozinha beliscar um pedaço de queijo. Não dá para obrigá-lo a subir o Aconcágua depois de escalar o Everest. Ufa. Nem mesmo na condensação do poema, o tom pode ser sempre de planalto. É saudável descer um pouco à planície para que o leitor consiga enxergar a riqueza do relevo. Se coloco meu texto todo em negrito, não destaco nada.

Não gosto de ver as soldas e as marcas do cinzel no texto. Gosto que a trabalheira do autor fique disfarçada. Aliás, nem é uma questão de gostar – é que, se percebo a todo momento essa trabalheira, a leitura não flui. Quando leio um Guimarães Rosa, uma Clarice, um Kafka, um Saramago, um Quiroga, um Borges, um McEwan e mesmo um Walt Whitman nos momentos mais inflamados, não me dou conta do trabalho que tiveram para chegar às soluções adotadas. Nada ali “parece” genial. Muito ali “é” genial sem precisar bater bumbo.

Na “Lavoura” do Raduan, livro que tenho, o barulho da genialidade me machuca os ouvidos. Não é pelo truque das vírgulas, das frases de ladainha, porque dele também se valeu Saramago, que leio com prazer. Não é pela prosa poética, porque nela brilhou Drummond, que, nem precisa dizer, leio e releio e leio de novo. É pelas pancadas no ouvido. Se ele colocasse a almofada sacra num chãozinho de cimento batido, se ele fizesse o sangue salso e grosso correr numa prosaica manga de camisa, se ele nos mostrasse uma flor inerme na beira da estrada vicinal, talvez eu gostasse dele. Mas, por favor, não tenho a pretensão de exigir ridiculamente que os literatos levem em conta minhas preferências. Só que é com base nelas que vou fazendo minhas eleições.

Espero sinceramente que você não aceite esta minha longa arenga e que me exija explicações de corpo presente diante de uma taça de bom vinho. Aliás, o vinho nem precisa ser tão bom assim. A conversa vai valer a pena de todo jeito. E, quem sabe?, posso até sair dela fã incondicional do Raduan. Viro casaca sem muita cerimônia e sem qualquer constrangimento.

Everardo Leitão é jornalista e escritor.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.