Há um truísmo (óbvio) em política: terminada uma eleição, segue-se outra, conectada e, às vezes, desconectada da anterior. Porque os agentes políticos apreciam certa movimentação, até para manter ativos os militantes partidários e sintonizados os eleitores. Começa-se, então, a falar de alternância de poder e em mudança.

Há outro truísmo: se o gestor municipal vai bem, os eleitores não costumam trocá-lo. A ressalta é que o desgaste, se sedimentado, é muito difícil de ser contornado.

A eleição para as prefeituras ocorrerá daqui a um ano e 11 meses. Porém, para desincompatibilizações e troca de partidos, o prazo é menor: um ano e cinco meses. Como dizem os políticos, trata-se de um pulinho. Por isso, a sucessão está nas ruas, na ordem do dia.

Em Porangatu, espécie de capital informal do Norte goiano, a movimentação já começou. Há pelo menos cinco políticos articulando — uns mais, outros menos. Mas todos proativos.

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Márcio Luis da Silva/MDB

Márcio Luis, Márcio Corrêa, Sheilismar Ribeiro (não é mais aliada) e Daniel Vilela | Foto: Divulgação do MDB

O MDB tende a bancar Márcio Luis da Silva, que, em 2020, perdeu por menos de 50 votos para Vanuza Valadares.

Positivo: na campanha, ele terá o apoio decidido e presente do vice-governador de Goiás, Daniel Vilela, presidente do MDB. Conquistou também o apoio do empresário Márcio Corrêa (MDB), de Anápolis. Trata-se de um apoio forte. Corrêa, por sinal, ficou como primeiro suplente de deputado federal e deve assumir o mandato em janeiro de 2023 (o deputado federal Célio Silveira tende a assumir uma secretaria no governo de Ronaldo Caiado).

Negativo: é visto como lento (e indeciso) nas tratativas de compromissos político e perdeu o apoio da vice de 2020, a jornalista Sheilismar Ribeiro, do PRTB. Seu candidato a deputado federal, Márcio Corrêa, foi o quarto colocado, com 945 votos (4,31%), em Porangatu.

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Vanuza Valadares/Podemos

Eronildo Valadares e Vanuza Valadares: o casal é forte na política de Porangatu | Foto: Facebook

Filiada ao Podemos, a prefeita deve migrar para o pP do deputado José Nelto e do ex-ministro Alexandre Baldy.

Positivo: O filho Givago Valadares perdeu para deputado estadual, mas foi o mais votado em Porangatu: 9978 votos (44,61%). A gestão de Vanuza Valadares começou mal, com uma comunicação ineficiente, mas, aos poucos, está melhorando. A prefeita está recuperando o asfalto das ruas e está ajustando a máquina.

O apoio do deputado federal José Nelto, com estrutura e emendas, tende a ser ainda mais importante nos próximos dois anos. O parlamentar do pP, por sinal, foi o mais votado na cidade — o que prova a força eleitoral da gestora local. Ele obteve 4106 votos (18,71%).

A força da máquina também costuma definir eleição. E ela estaria “cooptando” aliados de Márcio Luis no meio empresarial, numa tentativa de isolá-lo.

Negativo: o marido Eronildo Valadares não parece satisfeito em ter perdido o trono para Vanuza Valadares, que é mais popular e simpática. Na eleição de 2022, enquanto a prefeita apoiou a reeleição do governador Ronaldo Caiado (e foi um apoio real, não proforma), o ex-prefeito coordenou, aos menos nos bastidores, a campanha de Gustavo Mendanha (Patriota) para governador e de Alcides “Cidinho” Rodrigues (Patriota) para deputado federal.

Recentemente, o ex-emedebista figurou negativamente na mídia nacional por, supostamente, “pressionar” seus funcionários a votarem no presidente Jair Bolsonaro. Ele disse, com todas as letras, que, se Lula da Silva for eleito presidente, irá fechar sua empresa em Porangatu.

O PT do ex-vereador José Uilton apoiou Givago Valadares e pode não apoiar Vanuza Valadares em 2024. Pode lançar candidato próprio ou compor com outro candidato, como Márcio Luis da Silva ou Capitão Pires. Sublinhe-se que Eronildo Valadares começou a perder eleição quando perdeu o apoio do PT.

O que se espera realmente, dada a diferença pequena em 2020, é um tira-teima entre Vanuza Valadares, agora encorpada pelo controle da máquina pública, e Márcio Luis da Silva, encorpado pela vitória de Daniel Vilela para vice-governador. Frise-se que a tendência é que Daniel Vilela assuma o governo em abril de 2026; portanto, o prefeito eleito em 2024 terá de conviver com o presidente do MDB pelo menos por nove meses. Na campanha, isto poderá pesar a favor de Márcio Luis da Silva.

3

Sheilismar Ribeiro/PRTB

Sheilismar Ribeiro: jornalista e política popular em Porangatu | Foto: Divulgação

A jornalista é uma das políticas mais populares do município, dada sua presença ativa no rádio local. Para deputada estadual, com escassa estrutura e enfrentando a poderosa máquina eleitoral de Givago Valadares, obteve 1817 votos (8,12%).

Positivo: É popular e é vista como representante do povão sem voz das ruas. Em 2020, como vice, ajudou a impulsionar a candidatura de Márcio Luis da Silva.

Negativo: Falta-lhe o que é decisivo em campanha majoritária: estrutura política e financeira. Seu partido, o PRTB, não conta com uma estrutura poderosa. A rigor, os quase 10 mil votos de Givago Valadares na cidade são da máquina eleitoral gerida por Vanuza Valadares e Eronildo Valadares, seus pais. Não foram votos dados ao partido.

Comenta-se que, para “acossar” e tentar “isolar” Márcio Luis da Silva, Vanuza Valadares pode convidá-la para sua vice, o que não tem sido confirmado pelas duas partes.

4

Capitão Pires/Agir

Capitão Pires e Glaustin da Fokus: aliança firmada para 2024 | Foto: Divulgação

O capitão aposentado do Exército é o vice de Vanuza Valadares. Na prefeitura o que se diz é que “conspira, dia e noite”, contra a gestão da prefeita. Tanto que não apoiou Givago Valadares para deputado estadual e José Nelto para deputado federal. Ele articulou a campanha de Glaustin da Fokus, do PSC, para deputado federal e a campanha de Léo Portilho (PSC) e Dr. Paulo Daher Jr. (PMN) para deputado estadual.

Glaustin da Fokus não figurou entre os 10 mais votados no município (José Nelto, Professor Alcides, Jovair Arantes, Márcio Corrêa, Alcides Rodrigues, Gustavo Gayer, Rafael Gouveia, Rubens Otoni, Magda Mofatto, Gleicy Guerra) e só obteve 420 votos na cidade (em 2018, sem o apoio do vice-prefeito, conquistou 2400 votos). Portilho recebeu 89 votos e Dr. Daher, nove votos.

Positivo: O vice-prefeito tem coragem de criticar e é posicionado. Ele parte para o enfrentamento sem receio da possível “cara feia” dos poderosos. Pode ser um calo no sapato de Vanuza Valadares. Se apoiar Márcio Luis da Silva, com um discurso firme contra a gestão da prefeita, pode ser um problemão para a prefeita

Negativo: É visto como “estranja” pelos eleitores e pelos líderes políticos. Há os que articulam de menos e há o que articulam em excesso, como o vice-prefeito. Ele é visto como não-agregador. Líderes locais sugerem que firma compromissos e, depois, muda de lado. Na prefeitura, entre os aliados da prefeita, é visto como “persona non grata”.

De acordo com uma fonte, Capitão Pires deve trocar o Agir pelo PSC do deputado Glaustin da Fokus.

5

Pedro Fernandes/Agir

Pedro Fernandes: ex-prefeito de Porangatu | Foto: Reprodução

O ex-prefeito perdeu força política município desde 2020, quando, derrotado, ficou em terceiro lugar, atrás de Vanuza Valadares (a eleita) e de Márcio Luis da Silva.

Positivo: É tido como um político tranquilo, que não promove perseguições. E ainda conta com o apoio de políticos tradicionais da cidade.

Negativo: A morte do empresário e ex-prefeito Júlio da Retífica, seu cunhado, enfraqueceu o grupo político de Pedro Fernandes.

Na disputa para deputado estadual, Pedro Fernandes ficou em terceiro lugar, com uma votação pífia — 1.711 votos (7,65%). Ficou atrás de Givago Valadares e Sheilismar Ribeiro. Sua votação prova que está perdendo substância política na cidade.

Pesquisas eleitorais

Ao que se sabe, durante a disputa eleitoral de 2022, um instituto colocou informações sobre Porangatu. Inicialmente, Márcio Luis da Silva teria aparecido bem na frente. Porém, adiante, apurou-se um quadro de empate técnico entre o emedebista e Vanuza Valadares. A batalha de 2024 tende a ser entre “estruturas”. A mais azeitada — e não, necessariamente, a maior — tende a ganhar.