PF prende reitor de universidade federal suspeito de corrupção e cita organização criminosa

Polícia Federal revela que “organização criminosa” desviava recursos do programa de Educação a Distância. Os repasses foram de 80 milhões de reais

Luiz Carlos Cancellier de Olivo: reitor da Universidade Federal de Santa Catarina

A universidade Federal de Santa Catarina é apontada como uma das dez melhores instituições de ensino superior do Brasil. A UFSC conta com 40 mil alunos e mais de 1500 professores. Sua reputação de centro de pesquisas de qualidade é crescente. No entanto, sua história começa a ficar manchada. Autorizada pela Justiça Federal, a Operação Ouvidos Moucos da Polícia Federal prendeu na quinta-feira, 14, o reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo e várias outras pessoas. O “Diário Catarinense”, um dos principais jornais do Sul do país, informa que “a PF desarticulou uma organização criminosa que supostamente desviou recursos para cursos de Educação a Distância (EaD) da UFSC”. Os cursos são oferecidos pelo programa Universidade Aberta do Brasil (UAB). “Os repasses totalizam cerca de 80 milhões de reais.” Dada a dimensão da operação, 100 policiais estão cumprindo mandados judiciais de prisão temporária (sete), de condução coercitiva (cinco) e de busca e apreensão (16). A Justiça afastou “sete pessoas das funções públicas”.

Até parentes de professores recebem dinheiro ilegal

Segundo o “Diário Catarinense”, “foi identificado que docentes da UFSC, empresários e funcionários de instituições e fundações parceiras teriam atuado para o desvio de bolsas e verbas de custeio por meio de concessão de benefícios a pessoas sem qualquer vínculo com a universidade”. O programa Universidade Aberta do Brasil, criado em 2006 pelo governo federal, tem como “objetivo capacitar professores da rede pública de ensino em regiões afastadas e carentes do interior do país”. No meio da caminho, um grupo decidiu que era possível desviar recursos, mas foi descoberto pela Polícia Federal.

“Os indícios sob investigação apontam que professores, especialmente docentes do Departamento de Administração (um dos que recebe a maior parcela dos recursos destinados ao Ead); funcionários das instituições e fundações parceiras; além de empresários ligados às fraudes tenham atuado em conjunto para desviar valores repassados pela Capes à UFSC”, informa o “Diário Catarinense”. “Em alguns casos, bolsas de tutoria foram concedidas até mesmo a pessoas sem qualquer vínculo com as atividades de magistério superior em Ead, inclusive parentes de professores que integravam o programa receberam, a título de bolsas, quantias expressivas. Além disso, segundo a PF, foram identificadas casos de direcionamento de licitação com o emprego de empresas de fachada na produção de falsas cotações de preços de serviços, especialmente para a locação de veículos”, assinala o jornal.

Professores e corregedoria foram pressionados

A Polícia Federal constatou, documentalmente, que alguns “professores foram coagidos a repassar metade dos valores das bolsas recebidas para professores envolvidos com as fraudes. Os alvos da operação são investigados pelos crimes de fraude em licitação, peculato, falsidade documental, estelionato, inserção de dados falsos em sistemas e organização criminosa”. Embora o meio acadêmico se julgue isolado da sociedade, como se fosse uma ilha inexpugnável, o caso de Santa Catarina não é nada diferente dos casos de corrupção que estão sendo apurados pela Operação Lava Jato e que envolvem políticos, empresários e executivos. As organizações criminosas, revelam as investigações da Polícia Federal, estão espraiadas pela sociedade — não é um problema tão-somente da política.

A PF apurou que a cúpula da UFSC estava pressionando integrantes da Corregedoria da instituição para que fizesse vistas grossas à atuação da suposta organização criminosa. Daí a prisão de um integrante do alto comando da universidade.

As investigações da Polícia Federal — baseadas em levantamentos da Controladoria Geral da União (CGU) e do Tribunal de Contas da União (TCU) — descobriram que as irregularidades começaram no curso de Licenciatura em Física. De lá a corrupção espraiou-se para outros cursos, mas com os mesmos agentes centrais.

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