Morre Zilma Campos, mulher do publicitário Zander Campos e mãe do publicitário Zander Jr., da Cannes

A grande anfitriã provou uma máxima não escrita: ninguém precisa ter ideologia. Gente precisa ser do bem

Iuri Godinho

Jamais conheci alguém para receber como Zilma Campos da Silva recebia. Ela se foi hoje pela manhã depois de uma enfermidade no sangue — não era leucemia, mas algo difuso, que fazia os leucócitos enlouquecerem e deixava uma das maiores festeiras de nossa história desanimada, embora jamais sem conversar, ouvir e sorrir.

Zilma era esposa do pioneiro da propaganda, Zander Campos da Silva, fundador da primeira agência de Goiás e que existe até hoje, a Cannes Publicidade. Mãe de Zander Júnior e Zandarlene. Minha segunda mãe. Zander e Zilma se casaram na véspera do casamento de meus pais, em dezembro de 1962. Zander Júnior nasceu em maio de 1964, menos de dois meses antes de mim. Estudamos juntos desde 1976, no Colégio Marista, e desde aquele ano invadi a casa de Zilma no Centro de Goiânia como se fosse minha. Abria a geladeira, subia para os quartos, usava o telefone de disco — a casa já naquela época tinha duas linhas, um luxo. Não porque fosse o folgado que vocês estão pensando, mas porque Zilma deixava e gostava. Dentro de casa, era absoluta e gostava que todos se sentissem assim.

Zander Campos, Zilma Campos, Alice e Zandarlene Campos

Entrei na Faculdade de Jornalismo da UFG sem ter feito terceiro ano, em 1982. Passei em quarto lugar. Zander Júnior em terceiro. Meu pai, Jávier Godinho e Zander pai mexeram os pauzinhos, entraram com uma ação e aos 17 anos lá estávamos nós no antigo ICHL, o glorioso Instituto de Ciências Humanas e Letras. O acordo que tinha com a família era injusto. Zander Júnior saia do Centro com seu Monza zerado e me pegava no Setor Coimbra. Atravessávamos a cidade até o Campus da UFG, ao lado do Itatiaia. À noite eu não mudava um milímetro o caminho que já teria de fazer e em um fusca usado o pegava no Centro e o levava até a Praça Universitária para nossas aulas de Direito. Ele andava 44 quilômetros, eu 12. Entrava em sua casa sem bater e Zilma sempre tinha a mesa posta, não raramente penteando o cabelo de Zander Júnior mesmo depois dele completar 18 anos. Ela o incentivava a me buscar sem reclamar. Eu gostava de pensar que, como ela era tipo uma segunda mãe, eu era tipo um segundo filho homem para ela.

Ainda estudante, uma vez um dente provisório meu caiu na porta da casa dela à noite. Chovia escandalosamente. Aquela mulher sempre chique e poderosa, sempre com o cabelo bem-feito, sempre bem-vestida, pegou uma lanterna e vasculhou a calçada e o asfalto até se ensopar e encontrar o dente.

Depois nos formamos e a aventura começou de verdade. Em 1987 fui ao Rio de Janeiro, onde Zilma e Zander já tinham apartamento. Levei alguns amigos e “esqueci” de avisar a Zilma que eles ficariam no apartamento dela que já estava cheio, era férias. Ela nem tomou conhecimento. Arrumou uma cama aqui, ajeitou um lençol ali e meus amigos ficaram 18 dias por lá. Nem a conheciam.

As festas de Zilma no reveillon do Rio são antológicas. O apartamento ficava aberto para convidados e amigos dos convidados. Ela cozinhava tudo, seu bacalhau era imbatível. A bebida sempre da melhor qualidade e variada. Zilma gostava de fazer tudo para sobrar. E quando recebia sabia ser ouvinte, sempre discreta, jamais falava mal das pessoas.

Em um reveillon lá pelos anos 90, a festa acabara e chegou o Júlio Nasser tipo quase amanhecendo. Zilma esquentou tudo e fez sala a ele. Eu fui dormir mesmo sendo o mais próximo do Julinho. Em um 1º de janeiro fiz uma escala no RJ rumo a férias no exterior e ZIlma me perguntou antes de embarcar: “Fica quanto tempo no aeroporto?” Duas horas e meia, respondi. “Então passa aqui eu vou fazer seu bacalhau”.”

Zilma era dessas. Enquanto no mundo o bonito era ser feminista e independente, Zilma foi feminista mandando na casa, cuidando dos filhos e dando apoio para que Zander pai montasse seu mini império: primeiro com a Cannes, depois com o Hospital Banco de Olhos e FacLions. Sim, tudo teve o dedo de Zilma, que ainda administrava os muitos imóveis do casal. Zilma provou uma máxima não escrita: ninguém precisa ter ideologia. Gente precisa ser do bem.

Dito isso, nós que ficamos não precisamos nos preocupar. Sorte de Zilma que será recebida em sua nova morada tão bem quanto recebeu aqui na sua.

Iúri Rincon Godinho é publisher da Contato Comunicação.

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Lukinha Rodrigues

Lamentável perda, grande Dama, ser Humano incomparável! O céu deve estar em festa com a chegada dela! Descanse em Paz.

Natanry Ludovico Osorio

Lamento profundamente. Só agora soube da passagem desta grande dama, justo porque comentava com amigos sobre a tradição do Réveillon de Zilma e Zander. Meus sentimentos Zander, pela dor que sei é grande, que Deus a tenha na Santa Glória