*Por Emídio BrasileiroEducador, Jurista e Cientista da Religião

Tobias é o décimo sétimo livro da Bíblia e o décimo segundo livro histórico do Antigo Testamento. De autoria desconhecida, foi provavelmente composto entre os séculos III e I a.C., em contexto de exílio ou pós-exílio judaico. É considerado deuterocanônico, pois integra a Bíblia Católica e Ortodoxa, mas não está incluído no cânon hebraico (Bíblia judaica) e, por isso, não é aceito como canônico pelas tradições protestantes.

A obra combina narrativa histórica e ensinamentos espirituais. É composta por 14 capítulos e pode ser dividida em cinco partes: I – Provação e oração (1-3); II – Missão do filho e encontro com Rafael (4-6); III – Matrimônio e libertação de Sara (7-9); IV – Retorno e cura (10-11); e V – Revelação, louvor e conclusão (12-14).

O livro inicia narrando a história de Tobit, homem pertencente à tribo de Naftali, casado com Ana e residente no exílio em Nínive, capital do Império Assírio. Ele era irrepreensível na observância da Lei divina, dedicando-se às obras de caridade, especialmente à esmola e ao sepultamento dos mortos, mesmo sob risco de perder a própria vida.

Apesar de sua integridade, Tobit foi submetido a severa provação. Ao realizar um ato de piedade — o sepultamento de mortos — excrementos de pássaro caíram sobre seus olhos, deixando-o cego e trazendo sofrimento à família. Enfraquecido, elevou ao Altíssimo uma súplica fervorosa, implorando pela morte ou pela misericórdia divina.

Concomitantemente, em Ecbátana, capital do antigo Império Medo, Sara, filha de Raguel e prima de Tobias, vivia atormentada pelo demônio Asmodeu, responsável pela morte de sete de seus maridos na noite de núpcias. Em desespero, rogou a Deus que a libertasse de sua angústia ou lhe tirasse a vida.

As duas preces chegaram à presença do Senhor, que, em sua bondade, enviou o Arcanjo Rafael para conceder cura a Tobit e libertação a Sara. Rafael é um nome de origem hebraica que significa “Deus cura” ou “Deus é a cura”.

Com o objetivo de assegurar o futuro da família, Tobit convocou seu filho Tobias e o encarregou de recuperar um empréstimo de prata concedido a Gabael, na Média, região do Império Persa. Tobias iniciou a jornada acompanhado de Rafael, disfarçado sob o nome de Azarias, que se apresentou como guia.

Durante a travessia pelo rio Tigre, Tobias enfrentou o ataque de um grande peixe. Sob orientação de Rafael, conseguiu dominá-lo. O anjo explicou que o coração, o fígado e a fel do peixe possuíam propriedades medicinais, úteis em momento futuro, além de revelar o desígnio divino de que Tobias deveria desposar Sara, filha de Raguel.

Ao chegarem a Ecbátana, foram recebidos com alegria por Raguel, que, embora receoso pelo destino da filha, consentiu na união. Na noite de núpcias, Tobias e Sara fizeram uma oração conjunta ao Senhor, enquanto Tobias queimou o coração e o fígado do peixe como incenso. Rafael, então, expulsou Asmodeu de forma definitiva.

Em seguida, ocorreu uma grande festividade em comemoração ao casamento. Paralelamente, Rafael dirigiu-se até Gabael para assegurar o recebimento do depósito de prata, garantindo também a estabilidade financeira do jovem casal.

Em Nínive, Ana e Tobit, preocupados com a demora do filho, temiam por seu destino. Após as festividades, Tobias retornou acompanhado de Sara e Rafael, levando alegria à casa paterna. Conforme orientação recebida, aplicou a fel do peixe sobre os olhos do pai, e Tobit recuperou a visão em meio à gratidão ao Senhor.

Desejosos de recompensar o companheiro de viagem, pai e filho ofereceram-lhe bens preciosos. Rafael, porém, revelou sua verdadeira identidade ao declarar-se um dos sete anjos que permanecem diante do trono de Deus. Também os exortou a louvar ao Senhor, perseverar na justiça e praticar a caridade. Após transmitir sua mensagem, desapareceu.

Em reconhecimento, Tobit entoou um hino de louvor, exaltando a bondade divina e profetizando a futura restauração de Jerusalém.

Já em idade avançada, Tobit transmitiu a Tobias e à sua descendência conselhos finais, reforçando a fidelidade a Deus. Pouco tempo depois, morreu em paz, assim como sua esposa Ana. Tobias, também idoso, testemunhou a queda de Nínive e o cumprimento das palavras do pai, encerrando sua vida em plena confiança no Senhor.

O Livro de Tobias ilustra a ação da providência divina por meio dos Espíritos, a Lei de Justiça, Amor e Caridade, além do valor moral da fé associada às boas obras. A presença do anjo Rafael, que guia e protege Tobias, representa a atuação de um guia espiritual que auxilia os encarnados em sua jornada, sem violar o livre-arbítrio.

Os sofrimentos de Tobit, como a cegueira, refletem provas ou expiações necessárias ao progresso espiritual, enquanto a cura final representa reparação e mérito conquistados pela resignação e pela prática do bem. A libertação de Sara da influência do Espírito perturbador pode ser interpretada como um caso de obsessão espiritual, superado por meio da fé, da oração e da elevação moral.

Assim, o livro é valorizado não como um relato de milagres sobrenaturais, mas como um conjunto de ensinamentos morais e espirituais coerentes com a Lei de Justiça, Amor e Caridade e com a assistência entre os mundos visível e invisível.

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