*Por Emídio BrasileiroEducador, Jurista e Cientista da Religião

Salmos é o vigésimo terceiro livro da Bíblia e o segundo dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento. O Livro dos Salmos, também chamado de Saltério, reúne 150 cânticos e orações que expressam os sentimentos humanos diante de Deus: confiança, devoção, súplica, arrependimento, louvor, adoração e ação de graças, além de salmos históricos, messiânicos e de instrução.

Embora muitos salmos tenham autoria anônima, os autores tradicionalmente reconhecidos são Asafe, Davi (autor de cerca de 71 salmos), Salomão, Moisés, Hemã, Esdras, Etã, Ezequias, os filhos de Corá e Jedutum.

Tradicionalmente, o livro é dividido em cinco partes ou cinco livros, refletindo a estrutura do Pentateuco. Cada seção termina com uma fórmula de louvor, conhecida como doxologia:

Livro I – Salmos 1 a 41: A comunhão pessoal com Deus.
Livro II – Salmos 42 a 72: A comunhão da nação com Deus e o reinado do Messias.
Livro III – Salmos 73 a 89: O santuário e a justiça divina.
Livro IV – Salmos 90 a 106: O domínio eterno de Deus e a fragilidade humana.
Livro V – Salmos 107 a 150: O louvor universal ao Deus redentor.

O primeiro livro contém, em sua maioria, composições de Davi. Ele apresenta a vida do justo em contraste com a do ímpio e ressalta a confiança pessoal em Deus. O Salmo 1 descreve o justo como aquele que medita na Lei do Senhor, enquanto o ímpio é comparado à palha levada pelo vento. O Salmo 8 contempla a grandeza da criação e a dignidade do ser humano.

O Salmo 22 expressa o clamor de quem se sente abandonado, mas permanece confiante, e o Salmo 23 tornou-se célebre por apresentar o Senhor como o Pastor que guia e protege. O livro termina com a doxologia de Salmos 41:13: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! Amém, amém!”.

O segundo livro reúne hinos atribuídos a Davi, Salomão, Asafe e aos filhos de Corá. Os textos relatam a experiência do povo de Israel por meio de salmos de lamento, confiança e súplica diante das dificuldades nacionais. O Salmo 42 expressa a sede espiritual do fiel: “Assim como a corça suspira pelas águas correntes, assim minha alma suspira por ti, ó Deus”. O Salmo 46 proclama a segurança em Deus, ainda que a terra trema e os montes se abalem.

O Salmo 51 registra a súplica de Davi após o pecado com Betsabé. Já o Salmo 72, atribuído a Salomão, descreve o ideal de um rei justo, prenunciando a figura do Messias. A seção encerra-se com a doxologia de Salmos 72:18-19: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que só faz maravilhas! Bendito para sempre o seu nome glorioso! Encha-se de sua glória toda a terra. Amém! Amém!”.

O terceiro livro está ligado às tradições de Asafe e dos filhos de Corá. Seus salmos refletem sobre a justiça divina, a fidelidade de Deus e a dor provocada pelas crises nacionais, especialmente a destruição de Jerusalém e o exílio. O Salmo 73 aborda a perplexidade diante da prosperidade dos ímpios e encontra resposta no santuário de Deus.

O Salmo 77 recorda o Êxodo como fundamento da esperança. O Salmo 80 apresenta uma súplica pela restauração de Israel. Já o Salmo 89 lamenta a aparente ruptura da aliança davídica diante do desastre nacional, mas reafirma a fidelidade divina. O livro conclui-se com a doxologia de Salmos 89:52: “Bendito seja o Senhor para sempre! Amém, amém!”.

O quarto livro é marcado pela ênfase na eternidade de Deus e em sua soberania universal. O Salmo 90, atribuído a Moisés, destaca a transitoriedade da vida humana em contraste com a eternidade divina. O Salmo 91, também tradicionalmente atribuído a Moisés, é um dos mais conhecidos e recitados da Bíblia. Trata-se de um salmo de proteção, confiança e fé, iniciado pelas palavras: “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará”.

O Salmo 93 exalta o Senhor entronizado sobre a criação. Os Salmos 95 a 100 são cânticos de aclamação ao Rei universal. O Salmo 103 celebra a misericórdia de Deus, que perdoa, cura e renova as forças do fiel, enquanto o Salmo 106 relembra a história de Israel, suas infidelidades e a constante misericórdia divina. A doxologia aparece em Salmos 106:48: “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! E todo o povo diga: Amém! Aleluia!”.

O quinto livro destaca o louvor e a ação de graças. O Salmo 107 exalta a bondade do Senhor para com aqueles que foram libertados de situações de aflição. O extenso Salmo 119 é um hino à Lei do Senhor e a apresenta como guia seguro para a vida. Os Salmos 120 a 134, conhecidos como “Cânticos de Peregrinação” ou “Cânticos dos Degraus”, eram entoados pelos peregrinos que subiam a Jerusalém. O livro encerra-se com os cinco salmos “Aleluia” (Salmos 146 a 150), formando um grandioso hino final. O último versículo do Saltério, em Salmos 150:6, proclama: “Todo ser que respira louve ao Senhor! Aleluia!”.

O Livro dos Salmos constitui uma coletânea de preces e expressões da alma humana em diferentes estados espirituais, revelando a relação íntima entre o ser humano e Deus. Seus textos traduzem sentimentos de fé, angústia, arrependimento, gratidão e esperança, funcionando como modelos de elevação do pensamento ao Criador por meio da oração. As súplicas por proteção e justiça refletem a confiança na providência divina, enquanto os clamores diante do sofrimento expressam as provas e desafios da existência.

Mesmo as passagens que pedem punição aos inimigos podem ser compreendidas à luz do contexto histórico e moral de sua época. Assim, os Salmos permanecem como instrumentos de elevação espiritual, capazes de fortalecer a fé, promover o consolo e inspirar a confiança em Deus diante das dificuldades da vida.

Leia também:

COMPÊNDIO DA BÍBLIA – 1. GÊNESIS