Quem recebe nossa violência e quem recebe nossa complacência
10 junho 2026 às 20h13

COMPARTILHAR
A agressão sofrida por coletores de lixo em Goiânia nesta semana não deveria ser tratada apenas como mais um caso policial. Em menos de dez dias, trabalhadores da limpeza urbana foram atacados duas vezes enquanto exerciam uma atividade essencial para a cidade. Em um dos episódios, um servidor público ameaçou e agrediu funcionários da coleta. No mais recente, um morador de condomínio partiu para a violência porque não quis esperar alguns minutos para a passagem do caminhão.
Os fatos são graves por si só. Mas eles revelam algo ainda mais preocupante: a naturalidade com que parte da sociedade direciona sua agressividade contra aqueles que possuem menos poder.
É difícil imaginar a mesma reação diante de alguém considerado influente. Poucos teriam coragem de descer do carro para agredir um juiz, um promotor, um grande empresário ou um político conhecido porque ficaram alguns minutos impedidos de passar. A violência quase sempre procura alvos que aparentam menor capacidade de reação.
E talvez seja justamente aí que esteja a questão mais incômoda. A hostilidade social raramente é distribuída de forma igual. Ela costuma ser seletiva.
Quando um trabalhador da limpeza interrompe uma rua por alguns minutos para prestar um serviço essencial, surgem gritos, ofensas e, em alguns casos, agressões físicas. Mas onde está essa mesma revolta quando um agente público comete abuso? Onde está essa mesma indignação quando um político é investigado por corrupção, quando uma autoridade toma decisões equivocadas que afetam milhares de pessoas ou quando alguém investido de poder é acusado de cometer crimes?
A sociedade que muitas vezes reage com fúria a um gari, a um catador ou a uma pessoa em situação de rua frequentemente demonstra uma tolerância surpreendente diante dos erros e abusos de quem ocupa posições de prestígio. Para os vulneráveis, intolerância imediata. Para os poderosos, explicações, justificativas, recursos, notas oficiais e, muitas vezes, silêncio.
Não se trata apenas de medo. Trata-se de uma hierarquia informal de respeito profundamente enraizada na cultura brasileira.
Em muitos casos, o cidadão comum sente-se autorizado a humilhar quem está abaixo, mas evita qualquer confronto com quem está acima. É mais fácil gritar com o coletor de lixo e com o entregador do iFood do que cobrar um político. É mais fácil hostilizar uma pessoa em situação de rua do que questionar uma autoridade. É mais simples descarregar a raiva sobre quem não possui proteção social, influência econômica ou prestígio institucional.
Goiânia conhece bem essa lógica.
A mesma cidade que frequentemente reclama da presença de pessoas em situação de rua nas praças e avenidas costuma reagir negativamente quando surgem iniciativas para ampliar o atendimento dessa população. O debate em torno do Centro POP é um exemplo recorrente. Muitos reclamam da existência do problema, mas também se opõem às estruturas criadas para enfrentá-lo.
O resultado é uma contradição cruel. Uma pessoa em situação de rua incomoda quando está na rua, mas também incomoda quando recebe assistência. O catador incomoda quando circula pela cidade. O gari incomoda quando o caminhão para para recolher o lixo. Os mais pobres parecem ser vistos como um problema, independentemente do que façam.
Enquanto isso, escândalos envolvendo corrupção, desperdício de dinheiro público, privilégios e abusos de autoridade raramente provocam o mesmo nível de indignação cotidiana. Vereadores, deputados e prefeitos frequentemente são presos, nunca agredidos pela população.
A pergunta que fica é simples: por que a nossa raiva parece ser tão seletiva?
Se a indignação fosse proporcional ao dano causado à sociedade, talvez os alvos fossem outros. Mas a realidade mostra que a revolta nem sempre acompanha a gravidade dos fatos.
A agressão aos coletores de lixo diz muito mais sobre a sociedade do que sobre o agressor. Ela revela quem recebe nossa impaciência, quem recebe nossa violência e quem recebe nossa complacência.
Uma cidade que agride quem recolhe seu lixo, hostiliza quem vive nas ruas e ignora quem trabalha nos serviços mais pesados não está apenas diante de um problema de segurança pública. Está diante de um problema moral.
E talvez seja hora de discutir não apenas quem agride, mas também por que tantos continuam acreditando que algumas vidas merecem menos respeito do que outras.



