Carta ao professor Binômino da Costa Lima
18 abril 2026 às 12h03

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- Por Altair Sales Barbosa
O mais sábio de todos os nossos mestres
O professor Binômino saiu pelo Cerrado adentro certamente procurando um frondoso pequizeiro onde pudesse esfriar um pouco os calos dos pés, enquanto sua mente pudesse, tranquila, buscar novos pensamentos por debaixo daquela divina sombra. Uma parada para reflexão, porque nunca demonstrou cansaço. De modo que a frase latina “requiescat in pace!” (que descanse em paz!) não se lhe aplica em absoluto. Primeiro, porque ele não estava cansado e, segundo, porque nunca foi no descanso que o professor Binômino buscava a paz, e sim no trabalho, na labuta em favor da busca pelo conhecimento, pois assim é que se obtém a paz de espírito, a paz da consciência do dever cumprido; a paz dos que lutam e por isso mesmo não temem a morte. Cruzam com essa e nem tomam conhecimento.
Saiu em viagem, não avisou a ninguém, nem deixou endereço. Confesso que já estou com saudades dos seus ensinamentos, razão pela qual resolvi lhe escrever uma carta, para pelo menos compartilhar as novidades da minha última viagem a campo, pois não tivemos tempo de nos encontrarmos, por isso não lhe contei as coisas que presenciei.
Estimado e querido professor, ultimamente fiz uma viagem longa, queria rever alguns locais que estivemos juntos, para tentar entender melhor algumas dúvidas que, à época, não tínhamos como explicar. Viajei da Lagoa do rio Pratudinho, passando pelo Morro Furado, que fica na Serra do Ramalho, de lá fui até o litoral do Ceará, em Beberibe, para rever aquelas linhas de pedra, nas falésias, que o professor Aziz Ab’Sáber, à época, já meio adoentado e sempre nos pedindo para fazermos algumas medições com relação à altura do nível do mar.
A lagoa do Pratudinho, o senhor não vai acreditar, está completamente seca. Só resta um fundo fofo de areia. Aconteceu aquilo que o senhor previa. É uma triste desolação, com os buritizais todos secos. No Morro Furado, lembra daquela gruta que ficava após um despenhadeiro, aquela que tinha um rio subterrâneo? Pois bem, o rio também secou, e em meio à argila solidificada encontrei vários ossos fossilizados de mamíferos já extintos. Hoje está fácil chegar até a região, não tem mais as dificuldades que encontrávamos antigamente, e que duravam dias, até montarmos no local nosso acampamento de estudo.
Pois é, meu amigo, na Serra do Ramalho presenciei um fenômeno geológico inexplicável. Como senti sua falta! Entre as camadas de calcário, algo muito peculiar me surpreendeu, não tive e não tenho explicação. Como o senhor sempre dizia em tom de brincadeira: “nunca vi isto em minha vida.” Entre duas camadas de calcário encontrei um grande depósito de lítio, misturado com espessas camadas de pegmatito e várias colorações de argilas. Parece que o criador estava brincando quando estava fazendo aquela serra, ou então deve ter esquecido no local e nunca mais voltou para buscar.
Saindo do Morro Furado, fui rever um depósito fossilífero, num local denominado Lapinha, às margens do rio Arrojado. Neste local corre um filete de água que atravessa um pequeno cânion e vem das partes altas, não muito distante do local onde estávamos, à beira do rio. Aconteceu uma chuva tão forte que provocou um imenso volume de água neste filete, que o transformou em algo extraordinário, que chegou a atravessar o rio e, com tanta força, o represou, provocando uma situação de pavor.
Deste local segui para o litoral do Ceará, passando por Santana do Cariri onde, no início da década de setenta, juntamente com Luiz Eurico, então paleontólogo do Museu Nacional, o senhor, eu e outros coletamos e descobrimos aquele imenso jazimento fossilífero, que nos ajudou a datar os terrenos da Chapada do Araripe. Hoje, professor Binômino, a região modificou muito, a população vive do trabalho educativo dos fósseis. Em Santana do Cariri foi construído um excelente museu, impensável para a época em que passamos por lá. Foi criada uma universidade, chamada Universidade do Crato, acho que em Juazeiro, terra do Pe. Cícero. Tudo aquilo que o senhor sonhava e nos ensinava aconteceu na região, de forma tão rápida, impossível até imaginar.
Daí cheguei até Beberibe, no litoral, onde pude checar por mais de cinco quilômetros as linhas de pedra das falésias. Infelizmente só pude informar ao professor Ab’Sáber da mesma forma que estou lhe contando através de uma carta, e fico pensando se ele recebeu ou não.
São tantas as coisas que gostaria de conversar com o senhor, como, por exemplo, as rochas de Marte expostas pelos robôs, o tamanho do universo explicitado em parte pelo telescópio James Webb, mas os trabalhos à distância nos impediram. No entanto, foi até bom, para aprendermos que não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje. A comunicação por carta nunca é igual à presencial.
É isto, Meco, desta vez tomei alguns cuidados para que essa chegue até suas mãos. Comprei, pela internet, papel de arroz, escrevi com tinta indelével, estudei a direção do vento e a soltei no tempo certo. Coloquei em um envelope que traz no frontispício a arara de Serranópolis e, ao invés de escrever Binômino, escrevi bilontras, para que o senhor possa reconhecer que verdadeiramente é minha.
Aqui as coisas continuam como sempre, poucos têm princípios e ética. Tudo que ensinamos pouco ficou. Às vezes penso que chegamos a uma encruzilhada.
Mas, como o senhor sempre disse, vamos pelas trilhas corretas, orientando através do sol, para evitar que os ideais fiquem pelo caminho.
Obrigado por tudo que me ensinou, mas não aprendi a superar a saudade. Um grande, forte, firme e apertado abraço.
Ah, se nas suas andanças por aí encontrar um caminho estreito cheio de areia clarinha, siga em frente que chegará ao povoado do Grilo. Se continuar à sua direita, Correntina está logo à frente, é só seguir adiante. Não é nem perto, nem longe.
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