As implicações econômicas da possível invasão russa na Ucrânia

por José Paulo Silva Ferreira*

José Paulo Silva Ferreira | Foto: Acervo Pessoal

No dia 30 de dezembro do ano passado, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, participou de uma ligação com seu contraparte russo, Vladimir Putin. A chamada durou quase uma hora e foi relativa a esforços diplomáticos para evitar uma invasão russa na Ucrânia, alertando Putin das consequências econômicas que adviriam de uma investida militar. Biden definiu o possível pacote de sanções como “sem precedentes”, enquanto que Putin posicionou que tal medida seria um “erro colossal” que poderia levar ao rompimento completo das relações no eixo russo-americano. O atual cenário de acirramento do embate geopolítico na fronteira entre Rússia e Ucrânia é possivelmente o momento de maior tensão entre duas grandes potências desde a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962 e, seus desdobramentos têm potencial de gerar impactos econômicos a nível global.

A região que hoje constitui a Ucrânia é foco de disputas entre povos há séculos. No entanto, o ápice das tensões entre Kiev e Moscou foi em 2014 com a anexação da região da Criméia, a qual é uma península no sul da Ucrânia, banhada pelo Mar Negro. A ocupação se deu após uma onda de protestos contra o presidente ucraniano Viktor Yanukovych, que possuía um posicionamento pró-Rússia e havia rejeitado um acordo de maior integração com a União Europeia. Yanukovych se viu encurralado, tendo sido deposto e exilado do país. Após o ocorrido, objetivando manter sua influência na região, a Rússia anexou a Criméia. Grupos separatistas emergiram e, estes passaram a contar com apoio de Moscou na expansão da fronteira russa ao oeste.

A análise da política regional explica apenas parcialmente a expansão russa sobre a Ucrânia. Outro fator a ser considerado é o estratégico-militar, visto que, desde o final dos anos 1990 a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) exerce uma pressão expansionista no Leste Europeu, região a qual já foi parte da União Soviética e que Moscou tenta manter como zona de influência. Dentro do aspecto securitário, não seria interessante a Rússia permitir a formação de um anel de segurança em suas imediações, principalmente por uma aliança militar antagônica formada durante a Guerra Fria. Ademais, a posição geográfica do território ucraniano garante acesso privilegiado de militares russos ao Mar Negro.

O que levou a emergência recente das tensões foi o deslocamento massivo de tropas russas para a Criméia. Essa distribuição das tropas foi descoberta em dezembro de 2021, por meio de imagens de satélite, e possivelmente são a forma do Kremlin de evitar a adesão da Ucrânia à OTAN. Enquanto, por um lado, os Estados Unidos e seus aliados alegam que os russos estão possivelmente planejando uma invasão, tendo até mesmo o Departamento de Estado solicitado a evacuação de parte do corpo diplomático americano da Ucrânia, que é uma ação comumente tomada na iminência de guerra. Por outro lado, Moscou alega que deve possuir liberdade de movimentar suas tropas dentro do próprio território sem interferência externa e que o reposicionamento foi gerado por manobras da OTAN na região.

Além do encontro direto entre Biden e Putin, vem ocorrendo nas últimas semanas negociações bilaterais entre diplomatas russos e estadunidenses, os quais não têm conseguido assegurar uma atenuação do embate. As discussões sobre o pacote de sanções alertado por Biden na reunião, já está em pauta no Congresso dos Estados Unidos. Evidencia-se que independentemente se a incursão militar seja mais limitada ou um avanço amplo, as consequências das políticas econômicas de Washington e seus aliados serão fatais à economia russa.

Foi apresentado no Congresso um projeto de lei pelo senador democrata Robert Menendez, o qual é presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado. A legislação intitulada Lei de Defesa da Soberania da Ucrânia de 2022 descreve as ações a serem tomadas para proteger o governo ucraniano em caso de invasão. Entre as medidas iniciais listadas estão: a autorização para uso de recursos do Departamento de Defesa e do Fundo de Aquisição de Defesa Especial, além da concessão de empréstimos. Quanto às sanções sugeridas estão: bloqueio de ativos de oficiais russos que estejam envolvidos em uma incursão contra a Ucrânia, sanções contra instituições financeiras russas, e a desconexão da Rússia ao sistema da Sociedade de Telecomunicações Financeiras Interbancárias Mundiais (na sigla em inglês, SWIFT).

Caso a última medida citada seja alcançada, as consequências seriam devastadoras, pois a SWIFT corresponde ao principal órgão que integra o sistema de pagamentos global. A Rússia ficaria praticamente isolada do sistema financeiro internacional, tendo dificuldades de manter relações comerciais com todo o mundo. Tal medida nunca antes foi aplicada contra qualquer país e corresponde a uma arma econômica norte-americana para casos críticos. No entanto, é uma decisão que não pode ser tomada unilateralmente, precisando ser negociada com os parceiros europeus.

Apesar de países como Dinamarca, Lituânia, Espanha e França já terem oferecido assistência militar, e da maioria das nações europeias comporem o mesmo sistema de segurança coletiva que os Estados Unidos, a OTAN, é improvável que se concretize a remoção de Moscou da SWIFT. Isso decorre de a Rússia ser a principal exportadora de gás natural, e o fechamento de gasodutos como forma de retaliação resultaria em custos a muitos países da Europa. Ademais, as consequências econômicas de sanções tão severas entre duas grandes potências seriam sentidas em todo o globo, o que não seria interessante ao passo que já estamos enfrentando uma pandemia e crise econômica. A própria guerra comercial durante o governo Trump contra a China demonstrou os abalos gerados num enfrentamento econômico entre duas potências e, esta não incluiu medidas tão severas como o isolamento de um rival ao sistema financeiro internacional.

Embora Joe Biden tenha assumido na campanha o compromisso de superar as guerras do passado, postura a qual já foi demonstrada com a retirada das tropas do Afeganistão, a situação com a Rússia aparenta ser mais delicada que previsto, assim, vislumbra-se um choque da política de poder suave de Biden com a política de poder e de Realpolitik de Putin. Antes mesmo da concretização do embate, as consequências econômicas já podem ser sentidas. A grívnia, moeda nacional ucraniana, sofreu depreciação cambial nas últimas semanas, além disso, houve fuga de capitais, pois os investidores estrangeiros passaram a considerar o país um investimento de risco diante da insegurança política. As próximas semanas serão críticas no andamento das negociações, deixando os investidores atentos, o que refletirá principalmente nos setores de petróleo e gás.

*José Paulo Silva Ferreira é graduando em Relações Internacionais e pesquisador assistente do Núcleo de Estudos Globais da UFG, atuando na área de Economia Política Internacional.

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