Myrrhamm Kayapó do Sul

Neste 19 de abril, Dia Nacional dos Povos Indígenas, eu falo não apenas por mim, mas por muitos parentes que seguem resistindo nesta terra chamada Brasil. Em pleno Abril Indígena de 2026, ainda precisamos lutar pelo básico: respeito, espaço e reconhecimento.

Nós, povos indígenas, não queremos favor. Queremos direito. Direito de mostrar nossas artes plásticas, nossas indumentárias, nosso artesanato, nossas cerâmicas, nossos poemas, nossas composições e nossos saberes ancestrais. Queremos lugares onde possamos compartilhar aquilo que carregamos há milhares de anos: nossa cultura viva.

Nossa fitoterapia, por exemplo, é riquíssima. Muitos de fora reconhecem esse valor e nos procuram para aprender. Enquanto isso, dentro do próprio Brasil, ainda há quem duvide, desmereça ou ignore o conhecimento indígena. Isso precisa mudar.

Também me entristece ver que muitos espaços que guardam a memória ancestral continuam fechados ou distantes de nós. Lugares onde há grafismos, arte rupestre e marcas de nossos povos deveriam ser locais de reverência e estudo, não de exclusão. Como pode o indígena ser impedido de contemplar a própria história?

Em Goiás, terra dos Kayapó do Sul e de tantos outros povos, ainda existe muito a ser reconhecido. O Brasil precisa entender que nossa história não começou em 1500. Quando os colonizadores chegaram, nós já estávamos aqui. Já cuidávamos das águas, dos cerrados, das matas e da vida.

Nós somos os primeiros guardiões desta terra. E seguimos sendo.

Enquanto muitos enxergam progresso na destruição, nós sabemos que não existe futuro sem rio limpo, sem floresta em pé, sem respeito aos animais e sem equilíbrio espiritual. O que chamam de modernidade, muitas vezes, destrói aquilo que sustenta a vida.

Neste 19 de abril, eu digo ao Brasil: não basta fazer homenagens. É preciso garantir políticas públicas, proteger territórios, valorizar a educação indígena e ouvir nossas lideranças.

Nós existimos. Nós resistimos. Nós não desistimos.

E se este país quiser realmente honrar sua grandeza, precisa aprender a reconhecer aqueles que primeiro chamaram esta terra de lar.

Myrrhamm, cacique e liderança indígena, é psicoterapeuta indígena, fitoterapeuta, reikiana, pesquisadora e primeira advogada indígena de Goiás

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