A morte de um rio

Desembargador José Carlos de Oliveira, especial para o Jornal Opção

No decorrer da vida, é natural que as pessoas, com maior ou menor incidência, voltem ao passado para reavaliar o caminho percorrido e, sobretudo, para reviver momentos e, se fosse possível, eternizá-los.

Conforme já registrado em outras circunstâncias, considerável tempo da minha infância, há cerca de sessenta anos, residimos na zona rural, no município de Jataí-GO, às margens da rodovia BR-364, nas barrancas do, naquela época, caudaloso e piscoso Rio Claro, em cujas águas aprendi a nadar. Um trecho do rio passava a poucos metros da nossa casa e, no período das cheias, saía da caixa e lambia o nosso quintal. Já, na estiagem, grande volume d’água escorria em um largo e profundo canal cavado entre as pedras ao longo dos milênios, formando, assim, fortes corredeiras de águas espumantes. Mas, antes de adentrar o canal, o excesso espraiava-se nas margens, principalmente à direita, criando excelentes condições para a recreação.

Rio Claro, companheiro e testemunha, por muito tempo, de período impagável da minha existência, quando aprendi a admirar e amar. Peço vênia a Fernando Pessoa para parafraseá-lo, dizendo: o Tejo é mais belo que o Rio Claro que corre no local onde vivi minha infância, mas o Tejo não é mais belo do que o rio que corre no local em que vivi, porque o Tejo não é o rio que corre pelo local onde vivi, o Rio Claro.

Guardo nas minhas cansadas retinas sua imagem viva, suas águas enfurecidas, na época das enchentes, arrastavam tudo que estava próximo às suas margens – frondosas e centenárias árvores, inclusive o Jequitibá (yekiti’bá), gigante da floresta na língua tupi, com sua força telúrica, tal como as águas de março: “pau, pedra, resto de toco, peroba do campo” até o fim do seu caminho, seu deságue no oceano Atlântico.

Para mim, revestia-se de encantamento o estrondo do impacto de suas águas com os barrancos, e, em outros pontos, a espuma no relevo espraiado.

Naquele tempo, o silêncio da noite entrecortado pelos piados das corujas e caburés, a estridulação dos grilos e a sinfonia dos batráquios proporcionava o melhor sono do mundo.

Tudo isso se passou na década de 1950.

Há cerca de doze anos, visitei meu querido Rio Claro. Caminhei sobre as suas pedras, aproximei-me do seu canal e curvando-me toquei-lhe as águas. Pedi-lhe perdão por ter ficado tanto tempo sem visitá-lo, quase cinquenta anos.

Recentemente, recebi fotografias e vídeos do meu querido Rio Claro. Fiquei chocado e consternado. Um rio agonizante, em alguns trechos, meros filetes de água, em outros, reduzidíssima vazão. Foi como se tivesse me deparado com uma pessoa que amo em estado de definhamento, vítima de maus tratos. O ecossistema foi agredido de modo cruel, uma vez que as florestas e o riquíssimo e generoso cerrado que o ladeava foram imolados, um verdadeiro holocausto da natureza, para dar lugar às lavouras, sem que houvesse preocupação e zelo com o desenvolvimento sustentável.

Oh, Rio Claro! Perdoe a todos que, por ação ou omissão, de alguma forma, contribuíram para seu aniquilamento.

Valendo-me da inspiração do poeta: “a vida é como meu querido Rio Claro, que dá voltas e voltas, mas nunca volta a se encontrar. Ele pode voltar para a mesma direção, nunca para o mesmo ponto em que resolveu virar. E, muitas vezes, quando ele volta para a mesma direção, já não é o mesmo rio, pode estar com outro nome, pode estar mais caudaloso, por culpa dos afluentes,

pode ter minguado, pode estar poluído… Assim mesmo é a vida. Ela pode dar voltas. Mas nunca volta ao mesmo ponto, porque o tempo já é outro”.

Se pudesse, voltaria ao paraíso para acabar o sonho do meu desejo. Para concluir as pequenas coisas que deixei inacabadas e para poder amar a vida que, inconscientemente, deixei fugir sem um pleno desfrutar.

Resgato as nítidas imagens guardadas na minha memória e, comparando-as com a situação atual, fico com vontade de chorar, até derramar lágrimas suficientes para recompor suas águas.

Recordo daquele “paraíso”, onde, com minha irmã Dione e meu primo Antônio César, divertia-me em suas cristalinas e generosas águas, tomando banho, pescando…

Oh, Casimiro! Que saudades eu também tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida…Oh, Casimiro!…

O desembargador José Carlos de Oliveira é integrante e presidente da 2ª Câmara Cível e também compõe a 1ª Seção Cível e a Comissão de Jurisprudência e Documentação do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Ele também faz parte da Comissão Permanente de Cultura e Memória do TJGO

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