O produtor rural de Goiás deve redobrar a atenção no planejamento da próxima safra diante do cenário de temperaturas elevadas, estiagem e da previsão de prolongamento do período seco. Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o presidente da Aprosoja Goiás, Clodoaldo Calegari, afirmou que o momento exige cautela e planejamento por parte dos agricultores, especialmente diante dos riscos para as culturas de soja e milho. Segundo ele, o produtor não deve antecipar o plantio em condições desfavoráveis e precisa acompanhar as previsões climáticas para reduzir os riscos de perdas.

Calegari frisa que o produtor precisa priorizar a segurança da lavoura em vez da pressa para iniciar o plantio. “A gente está muito apreensivo, a gente tem orientado os nossos associados para que trabalhem com muita assertividade, que não corram risco no plantio”, disse.

De acordo com o presidente da entidade, antecipar a semeadura sem umidade suficiente pode provocar perdas significativas e até obrigar o agricultor a realizar o replantio. Por isso, a recomendação é aguardar condições adequadas de umidade e acompanhar os prognósticos meteorológicos antes de colocar as máquinas no campo.

“Tentar esperar para estabelecer a sua lavoura com condições ideais, com umidade de solo suficiente para a emergência, sempre olhando previsões de tempo, monitoramento de clima, para que seja assertivo na primeira safra”, destacou Calegari.

Segunda safra já registra perdas

O alerta ocorre em um momento de preocupação com os resultados da segunda safra de milho em Goiás. Segundo Calegari, a interrupção antecipada das chuvas deve provocar uma redução entre 25% e 30% na produção de milho no Estado.

“Esse ano, nós todos corremos muito risco para a segunda safra e o resultado está aí. A chuva cortou mais cedo e nós devemos ter uma redução aproximada no estado de Goiás, de milho em especial, entre 25% e 30%”, afirmou.

Para o dirigente, o impacto não se limita à queda na produção. A redução da produtividade pode comprometer a capacidade de pagamento dos produtores e aumentar o endividamento para a safra seguinte.

Altas temperaturas também ameaçam a soja

Na cultura da soja, ainda não é possível afirmar se haverá redução da produção em Goiás, segundo Calegari. Ele explica, porém, que determinadas regiões do Estado podem enfrentar problemas maiores em razão das temperaturas elevadas.

“Tem umidade, pode ter chovido, mas temperaturas muito elevadas em certos períodos fisiológicos da cultura da soja, como, por exemplo, florescimento, pegamento de vagens, são muito prejudiciais”, explicou.

Segundo ele, temperaturas superiores a 33°C ou 34°C por períodos prolongados podem provocar abortamento de flores e prejudicar o desenvolvimento das plantas. A preocupação é maior nas regiões norte e noroeste de Goiás, enquanto o centro-sul tende a apresentar condições mais favoráveis em determinados cenários climáticos.

Fogo é ameaça direta ao patrimônio rural

Além da estiagem e das altas temperaturas, o período seco aumenta a preocupação com queimadas. Para Calegari, o fogo representa uma ameaça direta ao patrimônio dos produtores, seja na pecuária ou na agricultura.

“Nós no campo sentimos muito, sofremos muito com as queimadas. Porque lá está o nosso patrimônio. Quando eu tenho uma pastagem queimada, é o alimento do meu gado que se vai.”

Na agricultura, a preocupação também envolve a destruição da palhada, considerada importante para proteger o solo contra altas temperaturas e erosão, além de contribuir para o aumento da matéria orgânica. Segundo o presidente da Aprosoja Goiás, a recuperação de uma área atingida pelo fogo pode levar anos.

Governo reúne órgãos para prevenir danos

Calegari avaliou positivamente a criação do gabinete de crise do Governo de Goiás para enfrentar os problemas relacionados às queimadas e à crise hídrica. Segundo ele, a integração entre diferentes órgãos públicos pode contribuir para reduzir os danos durante o período de maior risco.

O grupo reúne áreas como agricultura, meio ambiente, saúde, educação, Casa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, patrulhamento ambiental rural e Defesa Civil. Para o presidente da Aprosoja, a atuação conjunta precisa permanecer mesmo depois do período crítico.

“Eu, sinceramente, externei isso ao governador, inclusive, espero que isso não seja passageiro, seja permanente, que nós possamos ter, ao longo dos próximos anos, isso sempre agindo de forma proativa”, disse.

Para Calegari, a prevenção é mais eficiente do que atuar apenas depois que os incêndios já começaram. “A forma reativa é não consertar o problema, com a proativa para evitar problemas. Então, quanto mais proatividade nós tivermos, melhores resultados nós teremos lá no final.”

Produtor rural também atua no combate ao fogo

O presidente da Aprosoja Goiás também rejeitou a ideia de que o produtor rural seja responsável pela maior parte das queimadas. Para ele, é necessário mudar essa percepção e reconhecer as iniciativas de prevenção existentes nas propriedades.

“Você não botaria fogo nessa casa, você não botaria fogo no seu carro, você não botaria fogo no seu patrimônio. Isso é o produtor rural”, destacou.

Segundo Calegari, produtores de diferentes regiões do Estado vêm formando brigadas locais com participação de proprietários, funcionários de fazendas e moradores das comunidades. Câmeras de segurança instaladas nas propriedades também passaram a auxiliar na identificação de focos de incêndio.

Ele destaca ainda que pequenas queimadas podem sair de controle rapidamente em períodos de vento e baixa umidade. “O rural é inimigo do fogo. Seja ele agricultor ou pecuarista, ele faz de tudo para evitar”, declarou.

Endividamento preocupa setor

Além dos fatores climáticos, Calegari aponta o endividamento como um dos principais problemas enfrentados atualmente pelos produtores goianos. Segundo ele, os agricultores acumulam dificuldades provocadas por diferentes fatores nos últimos ciclos, incluindo problemas climáticos, queda nos preços das commodities e aumento dos custos de produção.

Para o dirigente, medidas de renegociação de dívidas são importantes, mas não alcançam todos os produtores que precisam de apoio. Ele defende também melhorias no seguro rural e a criação de mecanismos que ofereçam maior segurança para agricultores e instituições financeiras.

“Hoje o que mais nos preocupa na agricultura é a sobrevivência do produtor rural”, afirmou Calegari.

Na avaliação dele, a permanência do produtor no campo também é fundamental para a economia dos municípios goianos. A atividade rural movimenta comércio e serviços e gera empregos direta e indiretamente. “O produtor rural movimenta a economia das cidades”, resumiu.

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