A paralisação temporária da unidade da Mosaic Fertilizantes em Catalão, anunciada na semana passada em razão da escassez global de enxofre, trouxe à tona um problema que vai além da interrupção das atividades industriais e do risco de demissões. Para o coordenador da Câmara de Comércio Exterior (Fecomex) da Fecomércio-GO, Marcelo Gomes, o episódio evidencia uma vulnerabilidade estrutural do agronegócio brasileiro: a forte dependência da importação de fertilizantes.

Segundo ele, o caso da Mosaic não deve ser visto como um evento isolado, mas como um reflexo de uma fragilidade que volta a aparecer sempre que conflitos internacionais afetam as cadeias globais de suprimentos. “O Brasil vive uma vulnerabilidade muito grande do ponto de vista dos fertilizantes. O nosso agronegócio, especialmente no Centro-Oeste, depende da correção do solo. Se não temos fertilizantes, simplesmente não temos produção”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.

A escassez de enxofre foi provocada pelos impactos da guerra no Oriente Médio sobre o transporte marítimo no Golfo Pérsico, principal rota de exportação do insumo. A dificuldade logística reduziu a oferta mundial e elevou os preços, levando a Mosaic a reduzir ou interromper temporariamente operações em diferentes estados brasileiros, incluindo Goiás.

Em Catalão, a paralisação da unidade de mistura resultou na demissão de 22 trabalhadores, enquanto cerca de 650 empregos diretos seguem sob risco, segundo o Sindicato Metabase.

Problema recorrente

Marcelo Gomes lembra que essa não é a primeira vez que crises internacionais colocam em risco o abastecimento de fertilizantes no país. O mesmo ocorreu durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois dos principais fornecedores mundiais de nutrientes para a agricultura.

“Isso já aconteceu em outros momentos. Quando começou a guerra entre Rússia e Ucrânia, o Brasil ficou desabastecido. Nosso principal motor econômico é o agronegócio. Se não chega fertilizante, a produção para”, destaca.

Coordenador da Câmara de Comércio Exterior (Fecomex) da Fecomércio-GO, Marcelo Gomes | Foto: Arquivo

Diante desse cenário, a Fecomex tem buscado aproximar empresas goianas de mercados produtores de fertilizantes. Uma das iniciativas foi a articulação com representantes da província de Saskatchewan, no Canadá, responsável por aproximadamente um quarto da produção mundial de fosfato.

Segundo Gomes, a proposta discutida foi incentivar empresas goianas a adquirir participação em minas canadenses para garantir o fornecimento em momentos de instabilidade internacional.

Além do Canadá, a entidade também mantém diálogo com produtores da Jordânia e promoveu missões comerciais à Índia em parceria com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), que resultaram em acordos para distribuição exclusiva de nanofertilizantes no Brasil.

Bioinsumos ganham força

Embora defenda a diversificação dos fornecedores internacionais, Marcelo Gomes acredita que a principal saída para reduzir a dependência externa passa pelo desenvolvimento de soluções produzidas no próprio país.

Entre elas estão os bioinsumos, produtos à base de microrganismos capazes de melhorar a fertilidade do solo e substituir parte dos fertilizantes e defensivos químicos.

“Os bioinsumos são produzidos localmente. Você passa a utilizar fungos e bactérias para corrigir o solo e proteger as lavouras. É uma tecnologia que reduz nossa vulnerabilidade porque deixa o produtor menos dependente do mercado internacional”, explica.

Segundo ele, produtores rurais já vêm adotando essas soluções em diferentes culturas agrícolas, com resultados positivos em produtividade e sustentabilidade.

Limitações nacionais

Apesar de possuir reservas minerais, Gomes avalia que o Brasil enfrenta dificuldades para ampliar significativamente a produção doméstica de fertilizantes.

De acordo com ele, parte dos depósitos com potencial econômico está localizada em áreas ambientalmente sensíveis ou em terras indígenas, além de apresentar menor concentração mineral em comparação com grandes produtores internacionais.

“O que temos disponível exige exploração mais profunda, envolve questões ambientais e sociais e, mesmo assim, possui qualidade inferior à encontrada em outros países. É uma situação bastante complexa”, afirma.

Para o coordenador da Fecomex, o episódio envolvendo a Mosaic reforça a necessidade de uma estratégia nacional para reduzir a dependência de insumos importados, seja por meio da diversificação dos fornecedores, de investimentos em novas tecnologias ou da expansão do uso de bioinsumos.

Enquanto isso, a normalização da produção da empresa continua condicionada à retomada do abastecimento global de enxofre, cuja oferta ainda depende da estabilização do cenário geopolítico e das rotas internacionais de transporte marítimo.