Há em São Petersburgo, durante os breves dias do verão boreal, um fenômeno que Dostoiévski imortalizou em prosa: o sol quase não se põe, o crepúsculo se prolonga madrugada adentro e a cidade inteira flutua numa luz suspensa entre o sonho e a vigília — as noites brancas. É nesse limiar encantado, onde o tempo parece dobrar sobre si mesmo e o belo se faz mais intenso por ser efêmero, que o grande escritor russo situou seu mais lírico romance de amor. Mas algo muito parecido aconteceu, em junho de 1963, com uma mulher chamada Maristela — e ela escreveu sobre isso, à sua maneira simples e luminosa, num caderno que o mundo demorou quase meio século a ler.

Maristela Duarte Mendes partiu de Anápolis, Goiás, rumo a Moscou no verão daquele ano, integrando uma delegação de 54 mulheres brasileiras convidadas ao III Congresso Mundial de Mulheres. Quando o avião soviético pousou e ela desceu na capital da União Soviética, havia flores esperando por ela. Havia, literalmente, flores: “Estava no aeroporto uma comissão de mulheres soviéticas, esperando-nos e oferecendo a cada uma de nós um belo ramalhete de flores. Ficamos todas muito emocionadas”. São palavras simples, mas há nelas a mesma emoção das primeiras páginas de Dostoiévski — o espanto de quem nunca havia sido recebido com tanta ternura pelo mundo.

Moscou revelou-se a ela como uma cidade de assombros. O Hotel Ukraina, com seus 27 andares, elevava-se como um castelo moderno sobre o rio Moscou. A Praça Vermelha, enorme e solene, abrigava naqueles dias a homenagem à astronauta Valentina Tereshkova — a primeira mulher no espaço —, e Maristela assistiu pela televisão do hotel à cena de Tereshkova e Kruschev “de mãos dadas e muito sorridentes, respondendo aos aplausos de uma grande multidão”. No Teatro Bolshoi, viu o balé Flor de Pedra e ficou “bastante impressionada com a beleza, com a perfeição e com a técnica. A leveza das bailarinas até parecia irreal”. E ao visitar o Mausoléu de Lênin, escreveu com aquela admiração contida que é a marca de seu estilo: “Todo visitante tem a impressão de que ele está apenas dormindo”. Moscou era, para aquela mulher do sertão pernambucano que havia escolhido o cerrado goiano como pátria, um universo inteiramente novo — e ela o atravessava com os olhos abertos e o coração desperto, como a Nástienka de Dostoiévski nas noites claras às margens do Neva.

O momento mais alto dessa experiência foi o encerramento do Congresso, quando duas mil mulheres de cento e dez países se levantaram de braços dados para cantar Noites de Moscou — a mesma canção que dá nome ao fenômeno que Dostoiévski celebrou. Maristela anotou: “A minha impressão, naquele instante, era de que todas se sentiram irmanadas, tomadas por um sentimento único: o de que as fronteiras devem desaparecer”. Era um instante de pura luz suspensa — um minuto de deleite que ela soube, como o Sonhador dostoievskiano, transformar em eternidade de palavras.

Quando o filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, narrou ao mundo a história de Eunice Paiva — a mulher que criou cinco filhos sozinha depois que o marido, o ex-deputado Rubens Paiva, foi preso e desaparecido pela ditadura em 1971. Mas essa história, como tantas vezes acontece com as histórias mais verdadeiras, não é única. Ela se repete. Em Anápolis, o marido de Maristela, o advogado e odontólogo Cláudio Mendes, militante do Partido Comunista Brasileiro, foi preso, torturado e morreu em junho de 1965, um mês depois de deixar as prisões do regime. As duas mulheres — Eunice no Rio de Janeiro, Maristela em Anápolis — criaram os filhos sozinhas, cursaram Direito já adultas, advogaram por décadas, morreram aos 89 anos e travaram sua última batalha contra o Alzheimer, como se o corpo quisesse apagar o que a alma se recusava a esquecer.

O caderno em que Maristela escreveu suas impressões de Moscou ficou escondido por quase cinco décadas. Os militares destruíam livros — ela os havia visto destruir os seus —, e os originais foram guardados em outra cidade, longe do alcance das buscas. Somente após a anistia concedida pela Lei nº 10.559, de 2002, foi possível publicar o que ela havia visto. Em 2010, a Editora Kelps, de Goiânia, lançou Viagem a Moscou — obra que se somou ao seu já publicado Dicionário da Mulher, dedicado às questões femininas e feministas — e Maristela explicou com palavras que são, ao mesmo tempo, um manifesto e uma absolvição: “Hoje, livre daquela ditadura, encontro-me anistiada e por isso mesmo posso publicar tudo que vi nos países socialistas. É o que vocês lerão nas páginas seguintes”.

Quem escreve este artigo teve o privilégio de conhecer e conviver com a honrada Dra. Maristela Duarte Mendes — advogada conceituada em Anápolis, mulher de olhos verdes e feição sincera, de brilho forte e presença que não se esquece. Ela integrou a União Literária Anapolina e foi, juntamente com o signatário destas linhas e com Natalina Fernandes, uma das fundadoras da hoje conceituada Academia de Letras de Anápolis — ALEA. Mas Maristela não era apenas uma mulher de letras: era também uma mulher de ação. Quem ora escreve pegou carona no jeep da solidariedade da Dra. Maristela — rica materialmente e socialmente — que buscava a periferia da Cidade de Ana para distribuir donativos aos mais pobres. Nos anos finais da década de 1990, encabeçou, ao lado da Dra. Márcia Alves Lima e do signatário deste artigo, a campanha para a formação da Associação de Proteção e Assistência ao Condenado — APAC. Naquele ano em que a Igreja Católica dedicava ao Ano Internacional “Os Encarcerados”, a frente liderada também pelo Promotor de Justiça Abílio Wolney Aires e pelo Monsenhor Luiz Ilc conseguiu edificar o Pavilhão B da cadeia local — dando condições humanas aos encarcerados num tempo em que, numa única cela coletiva, chegavam a se acumular quarenta presos em regime de calabouço e degradação humana. Maristela era, de fato, uma estrela. Mãe amorosa, formou filhos honrados que ajudaram a construir a Anápolis de hoje: cidadãos que pagaram impostos, ergueram construções, emprestaram à comunidade o peso de seus talentos profissionais e se destacaram pela educação e pela intelectualidade — como é o caso do Dr. Luiz Carlos Mendes e do também advogado Dr. Roberto Mendes, que ainda hoje vivem e se destacam no meio social anapolino.

Enquanto Ainda Estou Aqui leva às salas de cinema do mundo a história de Eunice Paiva, o livro Viagem a Moscou aguarda ser lido com a atenção que merece. Não porque seja apenas o relato de uma militante ou de uma advogada de Anápolis. Mas porque é o diário de uma mulher que atravessou o mundo, viu o Bolshoi, pisou na Praça Vermelha, recebeu flores de desconhecidas em Moscou, cantou com mulheres de cem países ao entardecer — e voltou para casa carregando tudo isso dentro de um caderno que nenhuma ditadura conseguiu destruir. Maristela nasceu Maria Stela, nome que significa estrela. E as estrelas, mesmo quando a escuridão tenta apagá-las, continuam a brilhar.

Referências
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites Brancas. São Petersburgo, 1848.
GIBRAN, Khalil. O Profeta. São Paulo: Círculo do Livro, 1980.
MENDES, Maria Stela Duarte. Viagem a Moscou. Goiânia: Editora Kelps, 2010. ISBN 978-85-400-0004-9.
SALLES, Walter (dir.). Ainda Estou Aqui. Brasil/França, 2024. Oscar de Melhor Filme Internacional, 2025.
BRASIL. Lei nº 10.559, de 13 de novembro de 2002. Diário Oficial da União, 14 nov. 2002.

Abílio Wolney Aires Neto é Juiz de Direito, professor e doutorando em Direito Constitucional. Autor de 18 livros, graduando em Filosofia, História e Jornalismo. Integra a Academia Goiana de Letras, IHGG, ICEBE e UBE, além do IHGT, ALEA, ADL, ALETRAS e do Gabinete Literário Goiano.