Viagem a Moscou de Maristela Duarte Mendes
13 maio 2026 às 17h31

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Existe uma antiga crença de que a consciência humana seria apenas luz e libertação. Contudo, a experiência concreta da vida revela algo mais complexo: a consciência também pesa.
A filosofia acadêmica e doutrinária me permitiram comparar textos estudados, onde compreendi que saber, muitas vezes, significa perder a tranquilidade das ilusões. Quanto mais o ser humano compreende a realidade, mais percebe a fragilidade da vida, a imperfeição das relações e a inevitabilidade do sofrimento.
O filósofo Luiz Felipe Pondé frequentemente aborda essa dimensão trágica da existência. Em obras como (IN)Felicidade para Corajosos, critica a cultura contemporânea da felicidade obrigatória, segundo a qual todos deveriam aparentar equilíbrio, sucesso e satisfação permanente. Para Pondé, a consciência amplia a angústia porque impede o homem de viver anestesiado diante da morte, da solidão e das contradições humanas.
Essa reflexão dialoga com diversos pensadores. Arthur Schopenhauer entendia que quanto maior a consciência, maior a capacidade de sofrer. Søren Kierkegaard afirmava que a angústia nasce da liberdade e das escolhas humanas. Já Sigmund Freud demonstrou que a vida civilizada exige repressão de impulsos e convivência permanente com conflitos interiores.
Mas muitos filósofos também procuraram indicar caminhos. Viktor Frankl sustentava que o sofrimento deixa de ser destrutivo quando encontra sentido. Para ele, a consciência humana precisa de propósito. Já Albert Camus, embora reconhecesse o absurdo da existência, defendia a revolta digna contra o vazio: continuar vivendo, criando e amando apesar da ausência de respostas definitivas. Hannah Arendt apontava que o pensamento crítico e a responsabilidade moral impedem que o homem se torne mero instrumento das massas e das ideologias.
No campo da sociologia, Émile Durkheim advertia que sociedades sem vínculos morais produzem anomia, vazio e desespero coletivo. Já Zygmunt Bauman descreveu a modernidade líquida como um tempo de relações frágeis e identidades instáveis, no qual o homem sofre por não encontrar pertencimento duradouro. Em resposta, ambos sugerem a reconstrução de laços humanos sólidos, responsabilidade comunitária e sentido coletivo para a vida.
A tradição cristã clássica também oferece respostas profundas ao drama da consciência. Santo Agostinho escreveu nas Confissões que “o coração humano permanece inquieto enquanto não repousa em Deus”. Para Agostinho, a angústia não é defeito da alma, mas sinal de sua sede de eternidade. Já São Tomás de Aquino ensinava que a razão humana encontra equilíbrio quando orientada pelas virtudes da prudência, justiça, fortaleza e temperança. A consciência não deveria ser destruída, mas educada.
São Francisco de Assis apresentou outro caminho: a simplicidade voluntária. Em vez da obsessão pelo poder e pelo acúmulo, propôs alegria nas pequenas coisas, fraternidade e contato humilde com a criação. Séculos depois, Santa Teresa de Calcutá demonstraria que o sofrimento humano se torna menos insuportável quando transformado em serviço aos pobres e abandonados.
Também no pensamento cristão moderno surgem respostas importantes. C. S. Lewis afirmava que a dor funciona como um “megafone de Deus” para despertar consciências adormecidas. Thomas Merton via no silêncio, na contemplação e na interioridade um antídoto contra a fragmentação espiritual do mundo moderno.
Na visão espírita, o peso da consciência possui sentido evolutivo. Joanna de Ângelis ensina, por meio da psicografia de Divaldo Pereira Franco, que a consciência desperta conduz ao autoconhecimento e à transformação moral. Da mesma forma, Emmanuel, nas obras psicografadas por Chico Xavier, apresenta a consciência como tribunal íntimo da alma, diante do qual ninguém consegue fugir de si mesmo.
Nesse ponto, ganha profundidade a reflexão de Esse Capelli ao afirmar que o equilíbrio humano reside no “meio termo”. Em sua obra Páginas Escolhidas, escreve que “a vida nos ensina que o equilíbrio se encontra no meio termo, pois é tão desequilibrante a carência quanto o excesso mal administrado”. A consciência adoece tanto na privação absoluta quanto nos excessos descontrolados.
Também é de Capelli uma visão profundamente prática e esperançosa para aliviar o peso da existência. Em vez da pretensão de salvar o mundo inteiro, ele propõe a pedagogia do “um pouquinho só”. Talvez ninguém consiga acabar com toda a fome ou toda a guerra, mas cada pessoa pode repartir um pouco do pão, praticar um pouco da paz, ensinar um pouco do que sabe e oferecer, ainda que modestamente, o exemplo do amor.
Há caminhos concretos para tornar a consciência mais habitável: cultivar vínculos humanos verdadeiros, reencontrar o silêncio em meio ao excesso de estímulos, limitar os excessos materiais, praticar a espiritualidade, servir ao próximo e buscar sentido além do consumo e da aparência. A consciência não se cura pela fuga, mas pela integração entre lucidez e esperança.
Talvez a resposta mais humana para o fardo da consciência esteja numa imagem simples: a de alguém que atravessa a noite carregando uma pequena lanterna. A luz não elimina toda a escuridão do mundo, mas permite continuar caminhando. O homem consciente jamais voltará à ingenuidade perdida, porém pode aprender a transformar lucidez em compaixão, sofrimento em sabedoria e existência em serviço. Nesse ponto, a consciência deixa de ser apenas um peso — e passa a ser também um projeto existencial sólido para uma vida digna de ser vivida e bem realizada.


