Há três anos, Ana Morgana procura trabalho. Já perdeu a conta de quantas entrevistas realizou nesse período. Ela não restringe a busca a uma área específica. Procura oportunidades em diversos setores. Mesmo assim, continua fora do mercado de trabalho formal.

A principal dificuldade não está na falta de vagas. “Eu encontro oportunidades, mas a carga horária muitas vezes não fecha com os horários da creche do meu filho. Sou eu quem leva, busca e resolve tudo”, conta. Mãe solo, Ana diz que já precisou recusar propostas de emprego.

Em um dos casos, a pessoa contratada para cuidar da criança chegou a agredir seu filho. Em outro, a jornada de trabalho era incompatível com a rotina familiar. “Houve uma vaga em que eu pedi para reduzir o horário de almoço de duas horas para uma hora e sair mais cedo para buscar meu filho na creche. A empresa não aceitou.”

A história de Ana ajuda a explicar uma das contradições do mercado de trabalho brasileiro. Enquanto o país registra a menor taxa de desemprego da série histórica, milhares de vagas continuam abertas e empresas relatam dificuldades para contratar.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Goiás encerrou 2025 com taxa de desemprego de 4,6%, a menor desde o início da série histórica, em 2012.

Ao mesmo tempo, somente na ação VemKiTem Acolhe, realizada pela Prefeitura de Goiânia, foram ofertadas aproximadamente 4 mil vagas de emprego e 700 vagas em cursos profissionalizantes. Em maio, durante as ações do Dia do Trabalhador, outras 2 mil vagas de emprego e 3 mil oportunidades de qualificação foram disponibilizadas.

Para o Sine Goiânia, o mercado está aquecido. O principal desafio hoje é aproximar o perfil dos candidatos das exigências das empresas. O órgão aponta obstáculos como falta de qualificação, ausência de experiência específica, incompatibilidade de horários, distância entre residência e local de trabalho e expectativas salariais divergentes.

Segundo o Sine, as vagas abertas variam semanalmente, mas há demanda frequente em setores como serviços, comércio, atendimento ao público, funções operacionais, atividades administrativas, empreendedorismo e áreas ligadas à qualificação profissional. Na avaliação operacional do Sine, os maiores entraves para o preenchimento de vagas estão relacionados à qualificação insuficiente dos candidatos e à ausência de experiência específica exigida para determinadas funções.

Outros fatores que dificultam as contratações incluem incompatibilidade de horários, distância entre a residência do trabalhador e o local de trabalho, pretensão salarial acima da oferecida pelas empresas e até mesmo cadastros desatualizados no sistema. Diante desse cenário, o órgão defende a ampliação das ações de capacitação profissional como estratégia para aumentar a empregabilidade e atender às demandas do mercado.

Ana Morgana: “Houve uma vaga em que eu pedi para reduzir o horário de almoço de duas horas para uma hora e sair mais cedo para buscar meu filho na creche. A empresa não aceitou” | Foto: Arquivo pessoal

Mercado de trabalho aquecido convive com dificuldade de preencher vagas em Goiânia, diz gerente

Apesar dos índices positivos de emprego e da oferta constante de vagas em Goiânia, empresas e trabalhadores ainda enfrentam desafios para se encontrar no mercado de trabalho. Segundo a gerente de Projetos de Emprego e Renda da Secretaria Municipal de Desenvolvimento, Indústria, Comércio, Agricultura e Serviços (Sedicas), Karla Arantes, o mercado de trabalho da capital permanece aquecido, com oportunidades para diferentes perfis profissionais, mas a compatibilidade entre as exigências das vagas e as expectativas dos candidatos continua sendo um obstáculo.

“O mercado de trabalho em Goiânia está aquecido, com oferta de vagas em diferentes áreas e níveis de exigência. Hoje, o município reúne oportunidades tanto para trabalhadores com experiência quanto para pessoas que buscam o primeiro emprego ou uma recolocação profissional”, afirma.

De acordo com Karla, os maiores desafios de inserção costumam atingir trabalhadores com pouca experiência, pessoas que passaram longos períodos fora do mercado e candidatos que ainda não encontraram uma vaga compatível com seu perfil ou disponibilidade.

Ela ressalta que existem oportunidades que não exigem experiência prévia nem alta escolaridade, mas que dependem da disposição do trabalhador para iniciar uma trajetória profissional. A coexistência de vagas abertas e desemprego é explicada, segundo a gestora, pela falta de coincidência imediata entre o perfil das oportunidades e o dos candidatos.

“Alguns fatores pesam bastante, como qualificação, experiência, localização da empresa, salário, jornada, benefícios e deslocamento”, explica. Nesse contexto, o papel do Sine é atuar como intermediador, aproximando trabalhadores e empresas e orientando sobre qualificação profissional e empreendedorismo quando necessário.

Karla afirma que não existe uma única razão para as dificuldades de contratação. Em alguns casos, a qualificação insuficiente pesa. Em outros, a questão está relacionada às expectativas dos candidatos. “Há falta de qualificação em algumas áreas, mas também existem oportunidades de capacitação. O desafio é que nem sempre conseguimos preencher todas as turmas disponíveis”, diz.

Ela cita funções como telemarketing, auxiliar administrativo, servente de pedreiro, repositor de mercadorias e operador de caixa como exemplos de vagas que frequentemente não exigem experiência prévia e podem servir como porta de entrada para o mercado formal. Ainda assim, parte dos candidatos demonstra resistência. “Percebemos baixo interesse por algumas dessas vagas, seja pela remuneração, pela jornada, pela distância ou pela expectativa profissional do candidato.”

Entre os grupos que encontram mais dificuldades para conseguir emprego estão aqueles que ficaram afastados do mercado por períodos prolongados. Segundo a gerente, esse afastamento pode resultar em desatualização profissional e maior dificuldade para atender às exigências atuais das empresas. Jovens em busca do primeiro emprego também enfrentam barreiras, especialmente quando as vagas exigem experiência anterior.

A pandemia de Covid-19 também alterou a relação de muitos trabalhadores com o emprego formal. “Parte dos trabalhadores passou a buscar mais autonomia, flexibilidade e alternativas de geração de renda”, observa. Ela acrescenta que muitas pessoas passaram a desenvolver atividades por conta própria, o que influenciou a forma como avaliam ofertas de emprego, principalmente em relação à jornada, remuneração, deslocamento e condições de trabalho.

Entre os fatores que mais influenciam a aceitação ou recusa de vagas estão salário, benefícios, jornada e distância entre a residência e o local de trabalho. “O deslocamento pesa bastante porque aumenta o custo e o tempo gasto para trabalhar”, afirma. Para reduzir esse impacto, o Sine Goiânia tem ampliado atendimentos em bairros da capital, buscando aproximar trabalhadores das oportunidades disponíveis em suas regiões.

Embora reconheça que o trabalho autônomo ganhou espaço nos últimos anos, Karla afirma que o emprego formal continua sendo amplamente procurado. “O emprego formal continua sendo muito buscado, sobretudo pela estabilidade, pelos direitos trabalhistas e pela previsibilidade de renda.”

Entre os setores que mais concentram vagas e também apresentam dificuldade de contratação estão construção civil, vendas, atendimento ao público e atividades ligadas ao comércio atacadista e varejista. Também são frequentes as oportunidades para repositor de mercadorias, operador de caixa, telemarketing, auxiliar administrativo e funções operacionais. Para a gerente, o principal desafio atual é alinhar melhor as expectativas de empresas e trabalhadores.

“Do lado das empresas, vagas mais atrativas ajudam não apenas em relação à remuneração, mas também quanto a benefícios, jornada, ambiente de trabalho, possibilidade de crescimento e localização. Do lado dos trabalhadores, é importante haver abertura para considerar vagas de entrada e oportunidades que possam servir como primeiro passo para uma trajetória profissional mais sólida.”

Karla também rejeita a ideia de que programas sociais seriam responsáveis pela dificuldade de contratação observada em alguns setores. “Quando me questionam, sempre esperam que eu diga que ninguém quer trabalhar por causa dos programas sociais. Faço questão de desmistificar isso”, afirma.

Segundo ela, a realidade observada diariamente no atendimento aos trabalhadores aponta em outra direção. “O que presenciamos todos os dias são trabalhadores dando entrada no seguro-desemprego e deixando bem claro que preferem o reemprego. Fui gerente de atendimento ao trabalhador por quatro anos e afirmo com tranquilidade que isso não acontece. As pessoas querem trabalhar.”

Karla Arantes: “Quando me questionam, sempre esperam que eu diga que ninguém quer trabalhar por causa dos programas sociais. Faço questão de desmistificar isso” | Foto: Arquivo pessoal

Quem continua desempregado

A realidade de Gustavo Baraúna é diferente, mas também ajuda a explicar por que parte dos trabalhadores permanece fora do mercado. Morador de Bela Vista de Goiás, ele procura emprego há pouco mais de um mês nas áreas de tecnologia da informação, suporte técnico e atendimento ao público. Nesse período, participou de apenas duas entrevistas.

Segundo Gustavo, um dos principais obstáculos é a escassez de oportunidades na cidade. “Em Bela Vista praticamente todas as vagas são para trabalhar no laticínio. Não existem muitas empresas contratando profissionais de outras áreas”, afirma.

Ele também observa uma contradição frequente nos anúncios de emprego voltados para iniciantes. “Para as áreas de entrada no mercado de trabalho, acredito que falte qualificação, mas muitas vagas exigem experiência demais. Em alguns casos, a experiência exigida nem combina com o salário oferecido.”

Gustavo afirma que ainda não recusou propostas de trabalho. Embora considere que os salários oferecidos nem sempre sejam atrativos, os benefícios costumam compensar parte dessa diferença. “O salário sozinho não tem sido um grande atrativo, mas quando somamos os benefícios oferecidos, o valor acaba ficando aceitável.”

Sua experiência reforça um dos pontos levantados por especialistas: mesmo em um cenário de baixo desemprego, a distribuição geográfica das oportunidades e as exigências das empresas podem dificultar a inserção de trabalhadores, especialmente daqueles que buscam o primeiro emprego ou tentam ingressar em novas áreas profissionais.

Gustavo Baraúna: “O salário sozinho não tem sido um grande atrativo, mas quando somamos os benefícios oferecidos, o valor acaba ficando aceitável.” | Foto: Arquivo pessoal

O trabalhador mudou

Para a especialista em Recursos Humanos Thamyris de Medeiros, o fenômeno é resultado de mudanças profundas no mercado de trabalho após a pandemia, do crescimento da informalidade e de um desalinhamento entre as exigências das empresas e as expectativas dos trabalhadores.

Segundo a especialista, parte da explicação para os baixos índices de desemprego está no aumento do número de trabalhadores autônomos e microempreendedores individuais (MEIs). Ela observa que muitas pessoas passaram a gerar renda por conta própria e, por isso, não se consideram desempregadas nas pesquisas oficiais.

“Desde a pandemia houve um movimento muito forte das pessoas se tornando MEI ou exercendo outras atividades por conta própria. Em uma pesquisa, essa pessoa não responderia que está desempregada, porque ela tem uma atividade e uma renda”, afirma.

Ao mesmo tempo, empresas relatam dificuldades crescentes para preencher vagas, principalmente em funções operacionais. De acordo com Thamyris, muitos trabalhadores têm evitado empregos formais com carteira assinada. “Quando abrimos uma vaga temporária ou sem registro formal, geralmente ela lota de candidatos. Quando falamos que a vaga tem carteira assinada, muitas pessoas tomam outro tipo de decisão e acabam não vindo”, relata.

A especialista afirma que parte desse comportamento está relacionada à manutenção de benefícios sociais e à busca por maior flexibilidade na rotina. Já nas vagas de níveis técnico, especializado e de gestão, o problema é diferente: há menos oportunidades disponíveis, mas elas exigem qualificação cada vez maior.

“As demandas do mercado por competências técnicas e relacionais aumentaram muito. Isso acaba dificultando a contratação de algumas pessoas”, explica. Entre os grupos que encontram mais obstáculos para ingressar ou permanecer no mercado de trabalho, Thamyris destaca jovens, profissionais acima dos 50 anos e mulheres sem filhos na faixa dos 32 aos 40 anos.

No caso dos jovens, ela afirma que o desafio vai além da experiência profissional. “Quando falamos de experiência, nem sempre queremos alguém que já tenha trabalhado. Muitas vezes buscamos experiência de vida, iniciativa, capacidade de organização e responsabilidade”, diz.

Segundo a especialista, alguns candidatos chegam aos processos seletivos sem desenvolver habilidades comportamentais valorizadas pelas empresas. “Você encontra pessoas de 22, 23 ou 24 anos cujos pais participam da entrevista porque elas não sabem lidar sozinhas com algumas situações. Isso acaba prejudicando a avaliação”, afirma.

Já os trabalhadores acima dos 50 anos enfrentam preconceitos relacionados ao uso de tecnologia. “As empresas muitas vezes presumem que esse profissional terá dificuldade com ferramentas digitais e nem chegam a entrevistá-lo”, observa. Ela destaca, contudo, que empresas têm criado políticas específicas para atrair esse público, especialmente diante da necessidade de manter renda após a aposentadoria.

“Hoje vemos pessoas com mais de 40 anos trabalhando em áreas que antes eram ocupadas quase exclusivamente por jovens, como redes de fast-food. As empresas começaram a perceber que há profissionais muito qualificados nessa faixa etária”, afirma. Outro grupo afetado por barreiras no recrutamento são as mulheres que ainda não tiveram filhos.

“Algumas empresas têm receio de contratar uma mulher nessa faixa etária por medo de que ela engravide e precise se afastar. É um preconceito que ainda existe”, diz. Para Thamyris, o principal problema atual das empresas deixou de ser a seleção e passou a ser a atração de candidatos.

“Hoje enfrentamos um problema de recrutamento. Divulgamos a vaga e recebemos poucos currículos. Se eu tenho apenas dois candidatos, não existe uma seleção de fato”, explica. A especialista acredita que a busca crescente por trabalhos autônomos e informais contribui para essa escassez de interessados em vagas tradicionais.

Ela também aponta que a pandemia alterou as prioridades dos trabalhadores. Aspectos como qualidade de vida, tempo de deslocamento e flexibilidade passaram a pesar tanto quanto o salário. “As pessoas estão muito mais preocupadas com o impacto que aquela vaga terá na vida delas do que apenas com o valor que vão ganhar”, afirma.

Segundo ela, um aumento salarial nem sempre é suficiente para convencer alguém a trocar um emprego mais próximo de casa ou com horários mais flexíveis. “Às vezes a pessoa almoça em casa, busca o filho na escola e tem uma rotina mais confortável. Mesmo recebendo uma proposta com salário maior, ela prefere permanecer onde está”, diz.

A resistência a jornadas que incluem finais de semana ou escalas como a 6×1 também tem se tornado mais frequente, segundo a especialista. “Quando falamos em trabalhar de segunda a sábado ou em escalas mais extensas, muitas pessoas não querem. Algumas até aceitam inicialmente, mas depois começam a faltar ou apresentam comportamentos que dificultam sua permanência na empresa”, relata.

Embora essa postura seja mais comum entre os jovens, ela observa que a preocupação com equilíbrio entre vida pessoal e trabalho se espalhou para diferentes faixas etárias. “É uma tendência geral. As pessoas passaram a priorizar mais a qualidade de vida depois da pandemia”, afirma.

Na avaliação de Thamyris, a dificuldade de contratação deve continuar nos próximos anos, especialmente em setores que exigem trabalho contínuo, como o agronegócio. “Se você trabalha em uma granja ou cuida de uma lavoura, a atividade não para no fim de semana. São operações que funcionam de domingo a domingo”, explica.

Diante desse cenário, muitas empresas têm investido em automação e tecnologia para reduzir a dependência de mão de obra. “O aumento dos caixas de autoatendimento em supermercados e lojas é um exemplo. As empresas estão automatizando processos para continuar operando mesmo com a dificuldade de encontrar profissionais”, afirma.

Para a especialista, a combinação entre mudanças nas expectativas dos trabalhadores, envelhecimento da população e transformação tecnológica continuará moldando o mercado de trabalho nos próximos anos, exigindo adaptação tanto das empresas quanto dos profissionais.

Thamyris de Medeiros: “Você encontra pessoas de 22, 23 ou 24 anos cujos pais participam da entrevista porque elas não sabem lidar sozinhas com algumas situações. Isso acaba prejudicando a avaliação” | Foto: Arquivo pessoal

Outra dimensão do mercado de trabalho

Pedro Henrique Magalhães Rodrigues revela outra dimensão do mercado de trabalho. Após cerca de seis meses procurando emprego, ele conseguiu nesta semana uma vaga de auxiliar administrativo.

Desde janeiro, participou de aproximadamente quatro processos seletivos, todos voltados para a área administrativa. Segundo ele, uma das principais dificuldades está nas exigências feitas pelas empresas para cargos considerados de entrada.

“Tem sido difícil porque vagas que deveriam ser de entrada no mercado exigem ensino superior e experiência.”Durante a busca, Pedro também recusou algumas propostas. “Normalmente eram vagas com salário a combinar. Quem está procurando emprego acaba sendo colocado numa situação de adivinhação. É bastante estressante.”

Na avaliação dele, o mercado não sofre apenas com falta de candidatos, mas também com a qualidade de parte das oportunidades oferecidas. “Acredito que faltam boas oportunidades. Existem muitas vagas com alta rotatividade, problemas internos, escalas desgastantes e salários baixos.”

Mesmo após conquistar uma colocação, a procura por emprego se tornou parte de sua rotina. “Eu consultava vagas praticamente todos os dias em plataformas.” Pedro Henrique ilustra um dos pontos destacados por especialistas em Recursos Humanos: além da qualificação profissional, fatores como remuneração, condições de trabalho, perspectiva de crescimento e qualidade de vida passaram a ter peso cada vez maior na decisão dos trabalhadores.

Pedro Henrique Magalhães Rodrigues: “Tem sido difícil porque vagas que deveriam ser de entrada no mercado exigem ensino superior e experiência.”
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Empresas apontam falta de qualificação

Apesar do mercado de trabalho aquecido e da oferta de vagas em diversos setores, empresários do comércio ainda enfrentam dificuldades para preencher postos de trabalho em Goiás. Segundo o presidente do Sistema Fecomércio/Sesc/Senac Goiás, Marcelo Baiocchi Carneiro, o principal obstáculo não é a falta de candidatos, mas a ausência de profissionais qualificados para atender às exigências das empresas.

De acordo com Baiocchi, a escassez de mão de obra é mais evidente em segmentos que exigem qualificação técnica ou treinamento específico. Entre os exemplos estão bares e restaurantes, serviços terceirizados, tecnologia da informação, segurança, vigilância e conservação.

“O comércio enfrenta falta de mão de obra em alguns segmentos onde se demanda uma qualificação maior. São atividades que exigem treinamento e preparo específico”, afirma. O dirigente ressalta que a dificuldade não se limita a essas áreas. “O que falta realmente são pessoas com especialização e qualificação em vários segmentos. Não é um problema exclusivo dos setores que citei”, diz.

Segundo ele, quando as empresas anunciam vagas, geralmente há procura por parte dos trabalhadores. O problema surge durante o processo seletivo, quando muitos candidatos não atendem aos requisitos exigidos pelos empregadores. “O maior problema está na qualificação. Quando abre uma vaga, aparecem candidatos, mas nem todos têm a qualificação desejada para ocupar aquela função”, explica.

Outro fator apontado por Baiocchi é a resistência de parte dos trabalhadores à formalização do vínculo empregatício. Segundo ele, muitos profissionais que atuam em funções mais operacionais demonstram receio de perder benefícios sociais caso sejam contratados com carteira assinada.

“Muitos trabalhadores que exercem atividades mais braçais estão recebendo algum benefício social e não querem registro formal por medo de perder esse benefício”, afirma. O presidente da Fecomércio também avalia que houve mudanças significativas no comportamento dos trabalhadores nos últimos anos.

Para ele, além da preocupação com benefícios sociais, o acesso à informação ampliou o conhecimento dos profissionais sobre seus direitos trabalhistas, tornando-os mais criteriosos na escolha de uma vaga. “Hoje é um trabalhador muito mais exigente para aceitar uma vaga. Com o acesso fácil à informação, ele conhece melhor seus direitos e acaba não aceitando propostas que não estejam de acordo com suas expectativas”, observa.

Nesse cenário, salários e benefícios adicionais têm ganhado peso nas negociações. Baiocchi afirma que os trabalhadores avaliam não apenas a remuneração direta, mas todo o pacote oferecido pela empresa. “Além do salário, eles buscam benefícios como vale-alimentação, plano de saúde e outras vantagens. Esses complementos fazem diferença na hora de compor a remuneração”, destaca.

Diante da dificuldade para encontrar profissionais prontos para assumir determinadas funções, muitas empresas têm optado por contratar trabalhadores com potencial e investir na qualificação interna. “As empresas não estão necessariamente mais flexíveis, mas estão dispostas a treinar. Muitas contratam pessoas que ainda não têm a qualificação necessária e fazem o treinamento para que elas possam ocupar a vaga”, afirma.

O dirigente também aponta o crescimento da presença de imigrantes no mercado de trabalho goiano, especialmente haitianos. Segundo ele, a maior parte desses trabalhadores acaba sendo absorvida por atividades operacionais. “Os imigrantes já são uma realidade em Goiás, principalmente os haitianos. Na grande maioria, eles vêm para trabalhos mais braçais, porque normalmente não possuem qualificação para atividades mais especializadas”, diz.

Para Baiocchi, a dificuldade de contratação pode se agravar com discussões em curso sobre a redução da jornada semanal de trabalho e o fim da escala 6×1. Ele argumenta que mudanças desse tipo aumentariam a necessidade de contratação de novos funcionários, especialmente em atividades que exigem atendimento contínuo.

“Empresas que trabalham em escala 6×1 ou em sistemas de rodízio precisariam ampliar seus quadros para manter o mesmo nível de atendimento aos clientes. Isso geraria uma pressão ainda maior sobre um mercado que já enfrenta dificuldades para encontrar mão de obra qualificada”, avalia.

Marcelo Baiocchi Carneiro: “O comércio enfrenta falta de mão de obra em alguns segmentos onde se demanda uma qualificação maior. São atividades que exigem treinamento e preparo específico” | Foto: Divulgação

Falta de qualificação, baixa remuneração e avanço do trabalho autônomo

Para o secretário de Estado da Retomada, César Moura, a situação é resultado de uma combinação de fatores que envolve qualificação profissional, remuneração oferecida pelas empresas e o crescimento das alternativas de trabalho autônomo.

Segundo o secretário, o Estado registra atualmente grande oferta de vagas em diversos setores da economia, mas nem sempre encontra profissionais interessados ou preparados para preenchê-las. “Hoje há muitas vagas disponíveis para vários setores. O que a gente observa é, muitas vezes, falta de qualificação profissional e também pessoas que têm interesse em trabalhar na informalidade”, afirmou ao Jornal Opção.

De acordo com Moura, parte dos trabalhadores desempregados procura oportunidades compatíveis com sua formação ou experiência, enquanto algumas vagas disponíveis oferecem salários considerados pouco atrativos. Como exemplo, ele cita o cargo de repositor de mercadorias em supermercados.

“Não se interessam nesse valor porque o salário é muito baixo e a carga horária, às vezes, é pesada. A gente não acha o profissional que se interesse nessa vaga, mesmo tendo pessoas desempregadas”, disse. O secretário avalia que o perfil de parte dos desempregados atualmente está relacionado à dificuldade de atender às exigências de qualificação de determinados cargos e, ao mesmo tempo, à resistência em aceitar funções com remuneração reduzida.

“Para poder buscar um salário melhor, a pessoa tem que estar qualificada para isso. E também tem que existir o interesse da pessoa”, afirmou. Outro fator apontado por Moura é a influência dos programas de transferência de renda na decisão de alguns trabalhadores. Segundo ele, há casos em que beneficiários temem perder o auxílio ao ingressar no mercado formal.

“Se ela sai dessa vulnerabilidade, ela perde esse benefício, então usa isso como balizamento. Em alguns casos isso nos atrapalha”, declarou. O secretário também relatou que, durante feirões de emprego promovidos pelo Estado, alguns candidatos manifestam interesse em trabalhar sem registro formal.

“Várias pessoas chegam querendo ser contratadas, mas não querem que assine a carteira. Essa modalidade não recomendamos a ninguém fazê-la”, ressaltou. Além da informalidade, o crescimento do empreendedorismo individual e dos serviços autônomos tem ampliado a concorrência com as vagas formais.

Moura afirma que muitos trabalhadores conseguem obter renda semelhante à oferecida por empresas sem precisar cumprir jornadas fixas. “Se você faz doces, bolos e massas e começa a vender em casa, pelas redes sociais ou em feiras, vai preferir um emprego formal que está sendo oferecido? Essa é uma concorrência que existe hoje”, observou.

O mesmo fenômeno ocorre em áreas como manutenção predial e pequenos reparos. Segundo o secretário, trabalhadores autônomos conseguem, em alguns casos, rendimentos próximos aos pagos por empresas da construção civil.

Essa realidade levou parte do setor a rever estratégias de contratação. Moura cita o exemplo das grandes incorporadoras imobiliárias de Goiânia, que passaram a investir em planos de carreira, qualificação e melhores condições de trabalho para atrair profissionais.

“O empregador tem que oferecer um salário que o trabalhador aceite para poder prestar aquele serviço. É uma questão de oferta e procura”, afirmou. Questionado sobre as mudanças provocadas pela pandemia no comportamento dos trabalhadores, o secretário reconhece que o trabalho remoto se consolidou em algumas áreas, especialmente no setor de tecnologia.

“Na área de TI, desenvolvimento de sistemas e games, se não for home office, eles não conseguem contratar as pessoas”, disse. Por outro lado, ele avalia que a maior parte das atividades da chamada economia tradicional voltou ao modelo presencial, principalmente aquelas que exigem atendimento ao público ou execução de tarefas físicas.

“Essa questão do home office veio para ficar em algumas atividades, mas não em todas”, pontuou. Além dos cargos de reposição em supermercados e da construção civil, outros segmentos enfrentam obstáculos para preencher vagas. Segundo Moura, o setor de telemarketing e teleatendimento sofre com alta rotatividade de funcionários.

“A gente consegue contratar, mas as pessoas não estão permanecendo muito tempo nessas vagas”, explicou. Já na indústria de confecção, especialmente nas áreas de corte e costura, a concorrência com o trabalho autônomo também dificulta a contratação.

“O serviço autônomo às vezes dá o mesmo valor que uma indústria vai pagar”, observou. Para o secretário, a solução para reduzir o descompasso entre oferta e demanda de trabalho passa por esforços tanto dos trabalhadores quanto dos empregadores. “Do lado do trabalhador, olhamos a questão da qualificação. Do lado do empregador, uma melhor remuneração”, resumiu.

Ele defende que empresas ofereçam salários e benefícios capazes de competir com as alternativas de renda disponíveis atualmente e que levem em consideração aspectos relacionados à qualidade de vida dos trabalhadores. “Hoje a economia permite outras formas de a pessoa se sustentar sem se submeter, às vezes, a um trabalho que ela considera excessivo. As empresas precisam entender também o que esse trabalhador procura”, concluiu.

César Moura: “Para poder buscar um salário melhor, a pessoa tem que estar qualificada para isso. E também tem que existir o interesse da pessoa” | Foto: Leoiran/Jornal Opção
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Varejo enfrenta dificuldade crescente

A dificuldade para preencher vagas de emprego tem se tornado um dos principais desafios enfrentados pelo comércio varejista em Goiás. Segundo o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Goiás (FCDL-GO), Valdir Ribeiro, o problema vem se agravando desde a pandemia de Covid-19 e ainda não apresenta sinais de solução.

De acordo com o dirigente, havia uma expectativa de que o mercado de trabalho encontrasse um novo equilíbrio após o período mais crítico da pandemia, mas isso não ocorreu. “É uma dificuldade que vem se acentuando nos últimos anos, principalmente depois de 2021. A perspectiva era de que a equação entre oferta e demanda se equilibrasse no pós-pandemia, mas infelizmente isso não se concretizou”, afirma.

Entre as funções com maior dificuldade de contratação estão cargos estratégicos para o funcionamento das empresas, como gerente de vendas, vendedor e gestor de recursos humanos. A escassez de candidatos tem levado empresários a reverem suas políticas de recrutamento e retenção de profissionais.

Segundo Ribeiro, um dos principais obstáculos relatados pelos empresários é a resistência de parte dos trabalhadores em retornar ao modelo tradicional de emprego, com jornada fixa, trabalho presencial e vínculo formal. “Alguns desses desafios são o convencimento para que os trabalhadores se sujeitem novamente ao trabalho presencial, com horários fixos, contratação formal e perspectiva de construir uma carreira dentro das empresas”, explica.

O presidente da FCDL-GO também aponta outros fatores que influenciam a baixa procura pelas vagas disponíveis. Entre eles estão a dependência de programas sociais e a falta de qualificação profissional. Ainda assim, ele ressalta que muitas empresas têm flexibilizado suas exigências e estão contratando pessoas sem experiência para capacitá-las internamente.

A mudança no comportamento dos trabalhadores também é apontada como uma das razões para a dificuldade de contratação. Para Ribeiro, muitos profissionais passaram a buscar formas alternativas de geração de renda. “Muitos deles passaram a trabalhar por conta própria, uma parcela grande na informalidade. Outros optaram por atividades on-line ou pela prestação de serviços por aplicativos de transporte e entrega”, observa.

Sobre a remuneração oferecida pelo comércio, o dirigente afirma que os salários são definidos em negociações com os sindicatos e procuram refletir as condições econômicas do setor. “As negociações levam em conta a oferta de salários que sejam justos e razoáveis, dentro da realidade do mercado, das empresas e da conjuntura econômica”, diz.

Outro fenômeno observado pelo setor é o aumento da rotatividade da mão de obra. Embora os índices variem conforme o segmento, Ribeiro afirma que o problema se intensificou nos últimos anos. “A rotatividade aumentou significativamente”, destaca.

A escassez de trabalhadores também tem levado as empresas a flexibilizar a busca por profissionais altamente qualificados. Segundo o presidente da FCDL-GO, diante da baixa oferta de mão de obra, muitas organizações passaram a priorizar candidatos dispostos a aprender e receber treinamento. “As empresas estão revendo suas políticas de contratação para absorver trabalhadores sem experiência, que estejam dispostos a ser treinados e qualificados”, afirma.

Para enfrentar o cenário, o comércio tem apostado em novas estratégias de gestão de pessoas. “O problema está posto e não podemos fugir dele. Por isso, as empresas têm procurado inovar, estimular os profissionais mais experientes e incentivar os que estão entrando no mercado de trabalho”, conclui Ribeiro.

Valdir Ribeiro: “As empresas estão revendo suas políticas de contratação para absorver trabalhadores sem experiência, que estejam dispostos a ser treinados e qualificados” | Foto: Sebrae Goiás
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Dados

Os números ajudam a explicar por que empresários e trabalhadores descrevem realidades aparentemente contraditórias. Goiás vive hoje um dos momentos mais favoráveis de sua história recente no mercado de trabalho. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) mostram que o Estado encerrou 2025 com taxa de desemprego de 4,6%, a menor desde o início da série histórica, em 2012. O índice ficou abaixo da média nacional, de 5,6%, e colocou Goiás entre os estados com menor desemprego do país.

O avanço do emprego também aparece em outros indicadores. O número de pessoas ocupadas atingiu aproximadamente 3,9 milhões no segundo trimestre de 2025, o maior contingente já registrado no Estado. Ao mesmo tempo, a informalidade recuou para 35,1%, o menor patamar dos últimos anos e abaixo da média nacional, de 37,6%.

O cenário de aquecimento do mercado de trabalho não é exclusividade de Goiás. Em todo o país, o desemprego de longa duração apresentou queda significativa. No quarto trimestre de 2025, 1,1 milhão de brasileiros procuravam emprego há dois anos ou mais, uma redução de 19,6% em relação ao mesmo período do ano anterior. Outro dado chama atenção: metade dos desempregados brasileiros estava em busca de trabalho havia menos de um mês, indicando maior dinamismo nas contratações.

Em Goiânia, a percepção de mercado aquecido também aparece nas ações públicas de intermediação de mão de obra. Na edição de 2026 do programa VemKiTem Acolhe, foram ofertadas aproximadamente 4 mil vagas de emprego e cerca de 700 vagas em cursos profissionalizantes. Um mês antes, durante as ações do Dia do Trabalhador, outras 2 mil vagas de emprego e 3 mil oportunidades de qualificação profissional foram disponibilizadas à população.

Dados da Secretaria de Estado da Retomada reforçam esse movimento. Atualmente, Goiás possui 9.105 vagas de emprego abertas, das quais 4.957 estão concentradas em Goiânia e na Região Metropolitana. As oportunidades se concentram principalmente nos setores de comércio, indústria, logística e prestação de serviços.

Apesar do grande volume de oportunidades, algumas funções permanecem com dificuldades de preenchimento. Os cargos de repositor de mercadorias, auxiliar de logística e auxiliar de limpeza estão entre os mais difíceis de contratar, segundo a Secretaria da Retomada.

Os dados também ajudam a traçar o perfil de quem ainda procura uma colocação profissional. Os trabalhadores que mais buscam emprego no sistema estadual são pessoas acima de 40 anos, aposentados que procuram complementar a renda e cidadãos em situação de vulnerabilidade social. Curiosamente, esse mesmo grupo aparece entre os que encontram mais dificuldade de contratação, especialmente candidatos acima dos 40 anos com ensino fundamental incompleto.

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Entre janeiro e maio deste ano, 7.231 trabalhadores foram cadastrados nos sistemas estaduais de intermediação de mão de obra. Segundo a Secretaria da Retomada, um dos principais desafios enfrentados pelos empregadores é que muitos candidatos iniciam processos seletivos, mas não os concluem. O órgão aponta ainda a informalidade e a permanência em programas de transferência de renda como fatores que influenciam a decisão de parte dos trabalhadores.

No varejo, a situação é semelhante. Dados do Sindilojas apontam a existência de mais de 5 mil vagas disponíveis no setor em Goiás. As maiores demandas estão concentradas em funções como vendedores, gerentes de vendas, balconistas, estoquistas, atendentes, empacotadores, auxiliares e operadores de caixa.

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Por outro lado, as posições mais difíceis de preencher continuam sendo aquelas que exigem experiência e qualificação mais elevada. Cargos de gerência, liderança de equipes e tecnologia da informação figuram entre os que enfrentam maior escassez de candidatos aptos.

A falta de trabalhadores já produz impactos concretos sobre as empresas. Segundo o Sindilojas, a dificuldade de contratação pode levar ao adiamento de investimentos, à limitação da oferta de produtos e serviços e até à redução da arrecadação tributária, uma vez que parte dos tributos está vinculada à folha de pagamento das empresas.

Outro fenômeno observado em diferentes regiões do país é o crescimento da participação de imigrantes no mercado de trabalho. Dados da Polícia Federal (PF) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que Goiás registrou 8.224 imigrantes internacionais entre 2018 e 2022.

A maioria deles está na faixa etária entre 15 e 40 anos, justamente a parcela mais ativa da força de trabalho. Entre 2022 e 2023, o número de estrangeiros registrados no Estado correspondeu a 1,1% do total nacional, reforçando a tendência de utilização dessa mão de obra para suprir carências em determinados segmentos econômicos.

Embora Goiás apresente uma das menores taxas de desemprego do país, os dados do IBGE mostram que ainda há um contingente expressivo de pessoas em busca de uma oportunidade. No primeiro trimestre de 2026, o Eestado registrava 206 mil desempregados.

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A maior parte deles estava em uma situação considerada transitória. Segundo a PNAD Contínua, 125 mil pessoas, o equivalente a 60,7% dos desempregados goianos, procuravam trabalho havia entre um mês e um ano. Outros 40 mil (19,7%) estavam desempregados havia menos de um mês.

Os casos mais difíceis de recolocação representam uma parcela menor, mas ainda significativa. Cerca de 23 mil goianos permaneciam à procura de emprego havia dois anos ou mais, enquanto outros 17 mil buscavam uma vaga entre um e dois anos.

Os números sugerem que, apesar do aquecimento do mercado de trabalho, ainda existe um grupo de trabalhadores que enfrenta barreiras persistentes para retornar ao emprego formal. Entre elas estão baixa escolaridade, idade mais avançada, falta de qualificação específica e dificuldades para conciliar trabalho e responsabilidades familiares.

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A trajetória recente do mercado de trabalho ajuda a explicar por que empresários falam em escassez de mão de obra. Dados da PNAD Contínua mostram que Goiás atravessa um período de desemprego historicamente baixo.

No primeiro trimestre de 2012, quando a série começou, a taxa de desocupação era de 6,3%. O indicador chegou a superar 13% durante a pandemia de Covid-19, atingindo 13,1% no segundo trimestre de 2020. Desde então, porém, iniciou uma trajetória contínua de recuperação.

A partir de 2022, o desemprego passou a recuar de forma acelerada. Em 2025, Goiás alcançou os menores índices já registrados, chegando a 3,9% no quarto trimestre. No primeiro trimestre de 2026, a taxa estava em 5,1%, ainda entre as menores do país.

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A redução do número de desempregados ajuda a explicar a crescente dificuldade relatada por empresas para preencher vagas. Com menos pessoas disponíveis no mercado, aumenta a disputa por trabalhadores qualificados e cresce a necessidade de treinamento e retenção de profissionais.

Os dados do IBGE mostram que a geração de empregos em Goiás está concentrada principalmente nos setores de comércio e serviços. No segundo trimestre de 2026, o comércio e a reparação de veículos empregavam 846 mil pessoas, o equivalente a 22,1% dos trabalhadores ocupados no Estado, mantendo-se como o principal empregador da economia goiana.

Em seguida aparecem a administração pública, educação, saúde e serviços sociais, responsáveis por 637 mil ocupações (16,6%), e o grupo formado por atividades financeiras, imobiliárias, profissionais e administrativas, com 438 mil trabalhadores (11,4%).

A indústria também possui papel relevante na geração de empregos. A indústria geral ocupava 481 mil pessoas no segundo trimestre de 2026, sendo 428 mil apenas na indústria de transformação. Já a construção civil empregava 306 mil trabalhadores. Os números ajudam a explicar por que a maior parte das vagas abertas hoje em Goiás está concentrada justamente nos segmentos de comércio, indústria, logística e prestação de serviços, conforme levantamento da Secretaria de Estado da Retomada.

O levantamento também mostra a importância do agronegócio para o mercado de trabalho goiano. Agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura empregavam 257 mil pessoas no segundo trimestre deste ano, mantendo o setor entre os principais empregadores do Estado.

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Embora Goiás esteja próximo do pleno emprego, os dados revelam uma economia fortemente dependente de atividades que demandam grande volume de trabalhadores operacionais e de atendimento, justamente as funções que empresários relatam maior dificuldade para preencher atualmente.

O perfil das ocupações em Goiás ajuda a entender por que determinados setores enfrentam mais dificuldades para contratar. Dados da PNAD Contínua mostram que os trabalhadores dos serviços, vendedores do comércio e mercados formam o maior contingente de empregados do Estado, somando 879 mil pessoas no segundo trimestre de 2026. O grupo representa quase 1/4 de toda a força de trabalho ocupada em Goiás.

Também possuem grande participação as chamadas ocupações elementares, que incluem atividades de limpeza, conservação e apoio operacional, com 602 mil trabalhadores, além dos profissionais qualificados da construção civil, indústria e outros ofícios especializados, responsáveis por 580 mil postos de trabalho.

O retrato é compatível com os dados da Secretaria da Retomada e do Sindilojas. Entre as funções mais difíceis de preencher atualmente estão justamente cargos operacionais, como repositor de mercadorias, auxiliar de logística e auxiliar de limpeza, além de posições que exigem maior qualificação, como gerentes, líderes de equipe e profissionais de tecnologia da informação.

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Os números indicam que a escassez de mão de obra atinge tanto a base quanto o topo da pirâmide ocupacional. De um lado, empresas têm dificuldades para preencher funções operacionais marcadas por alta rotatividade. De outro, enfrentam falta de profissionais qualificados para cargos técnicos e de liderança.

A pesquisa do IBGE também mostra que Goiás possui 402 mil operadores de máquinas e montadores, 362 mil técnicos e profissionais de nível médio e 402 mil profissionais das ciências e ocupações intelectuais. Esses grupos tendem a concentrar as vagas que exigem maior qualificação e experiência profissional, justamente aquelas que empresários apontam como mais difíceis de preencher.

O maior grupo ocupacional do Estado é justamente o de serviços e comércio (879 mil trabalhadores), os mesmos setores que concentram a maior parte das vagas abertas atualmente. Isso reforça a tese de que o problema não está apenas na geração de empregos, mas no encontro entre o perfil dos candidatos e as necessidades das empresas.

A comparação histórica dos dados deve ser observada com cautela. Ao longo da série da PNAD Contínua, o IBGE realizou ajustes metodológicos para adequar a pesquisa às recomendações internacionais da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Entre as mudanças estão alterações nos critérios de classificação de pessoas ocupadas e desocupadas, além da atualização da ponderação estatística da pesquisa em 2025.

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