Uma combinação de guerra, crise nos fertilizantes e mudança climática pode criar uma nova ameaça à produção mundial de alimentos e pressionar os preços nos próximos meses. O alerta foi feito pelo JPMorgan, que aponta para os efeitos do conflito com o Irã sobre o fornecimento de fertilizantes nitrogenados e para a possibilidade de formação de um novo El Niño.

O risco está relacionado principalmente à dependência mundial de fertilizantes produzidos a partir do gás natural. Mais de 36% da ureia comercializada no mundo é importada do Golfo Pérsico, região diretamente afetada pelas consequências do conflito e pelas dificuldades de circulação pelo Estreito de Ormuz.

Segundo a análise, a combinação dos dois fatores pode atingir diretamente a produção de culturas básicas, como milho, trigo e arroz, elevando os custos dos agricultores e, em um cenário mais grave, reduzindo a oferta de alimentos.

O problema não está apenas no preço do fertilizante. O momento de aplicação também é determinante. O nitrogênio precisa chegar ao solo durante a fase adequada do plantio para ser absorvido pelas plantas. Uma eventual falta do produto no período correto não pode ser simplesmente compensada meses depois.

Brasil está entre os países mais expostos

O cenário preocupa especialmente países que dependem de grandes volumes de fertilizantes importados. O Brasil aparece entre os mais vulneráveis por ser um dos principais compradores de nitrogenados provenientes do Golfo Pérsico.

De acordo com a análise, as lavouras de milho da América do Sul, com plantio previsto entre setembro e janeiro, podem estar entre as primeiras afetadas por eventuais interrupções no fornecimento.

O efeito pode ocorrer de duas formas. Para tentar preservar a produtividade, agricultores podem aceitar custos maiores e manter o nível de utilização dos fertilizantes. Outra possibilidade é reduzir a aplicação do produto, o que diminui os custos, mas também pode comprometer a produtividade.

Em regiões que dependem fortemente da importação, a redução do uso de fertilizantes diante da alta dos preços é considerada uma possibilidade relevante. O milho está entre as culturas mais sensíveis a esse movimento.

Por que o problema pode durar anos

Mesmo que o conflito termine rapidamente, os efeitos sobre a cadeia de fertilizantes não necessariamente desapareceriam no mesmo ritmo.

As fábricas que produzem fertilizantes nitrogenados dependem do gás natural como matéria-prima. Caso instalações de gás e unidades de produção sejam danificadas, a retomada precisa ocorrer em etapas.

A estimativa apresentada pelo JPMorgan é que a recuperação da produção de fertilizantes até a capacidade plena possa levar de um a quatro anos, dependendo da velocidade dos reparos. Algumas instalações de gás natural danificadas poderiam levar entre três e cinco anos para voltar à operação normal.

Isso cria um problema particularmente delicado para a agricultura: a indústria pode eventualmente recuperar a produção, mas o agricultor precisa do fertilizante em uma janela específica de plantio.

El Niño pode piorar a situação

Como se o risco relacionado aos fertilizantes já não fosse suficiente, outro fator pode entrar na equação: a formação de um El Niño.

O fenômeno altera padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do planeta e pode aumentar a ocorrência de secas, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos. Para a agricultura, isso significa maior imprevisibilidade justamente em um momento de possível encarecimento dos insumos.

Historicamente, episódios de El Niño estão associados a uma redução média de 3,5% na produção agrícola das regiões tropicais, enquanto regiões temperadas registram, em média, aumento de 2,4%. O desempenho, entretanto, varia de acordo com a cultura e a região.

O problema é que alguns dos países mais vulneráveis aos efeitos climáticos também estão entre os grandes importadores de fertilizantes do Golfo Pérsico. O Brasil e a Índia aparecem nesse grupo.

A análise aponta que um El Niño poderia, portanto, amplificar os efeitos da redução na oferta de fertilizantes, atingindo simultaneamente os custos de produção e a produtividade das lavouras.

Milho, trigo e arroz entram na zona de risco

As três culturas estão entre as principais consumidoras de fertilizantes nitrogenados.

Mais de metade da demanda mundial de nitrogênio está concentrada em milho, trigo e arroz. O milho responde por cerca de 20% da demanda global, o trigo por 18% e o arroz por 16%.

Isso faz com que qualquer interrupção relevante na oferta de fertilizantes tenha potencial para se espalhar pela cadeia alimentar.

No caso do milho, as plantações sul-americanas podem ser afetadas pelas próximas janelas de plantio. No trigo, as lavouras de inverno que começam a ser plantadas a partir de setembro em países da Europa, Ásia e América do Norte podem entrar no radar. Já o arroz pode enfrentar problemas em diferentes ciclos de plantio na Índia, Bangladesh, Indonésia e Vietnã.

Efeito pode chegar ao supermercado

O impacto para o consumidor não ocorre imediatamente. Existe um intervalo entre o aumento do preço dos insumos, a decisão do agricultor, o plantio, a colheita e a chegada do produto ao mercado.

É justamente por isso que o alerta aponta para um possível efeito em cadeia.

Se o fertilizante fica mais caro, o custo de produção aumenta. Se o agricultor reduz sua utilização, a produtividade pode cair. Se o clima ainda prejudicar as lavouras, a oferta pode diminuir. Com menos produtos disponíveis, os preços tendem a sofrer pressão.

O resultado pode ser uma combinação de custos agrícolas maiores, menor produção e inflação dos alimentos.

Um problema parecido já aconteceu

O mundo já passou por uma situação semelhante recentemente.

Em 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia provocou restrições no acesso a fertilizantes potássicos e fosfatados e contribuiu para o aumento dos custos agrícolas. No ano seguinte, o desenvolvimento de um El Niño também trouxe preocupações sobre a produção de commodities agrícolas.

Alguns mercados conseguiram compensar perdas com aumento da produção em outras regiões. O trigo, por exemplo, teve oferta global sustentada pelo crescimento das colheitas nos Estados Unidos e na Índia. Já arroz e cacau enfrentaram quedas importantes nas exportações de alguns países.

Agora, a preocupação é que novos choques ocorram simultaneamente.

O cenário que mais preocupa

O pior cenário seria uma combinação de interrupções prolongadas no fornecimento de fertilizantes, aumento dos preços do gás natural e um El Niño forte durante os períodos críticos de plantio e desenvolvimento das lavouras.

Nesse caso, a crise energética poderia se transformar em uma crise agrícola.

Segundo o JPMorgan, a recuperação da produção de gás natural e da energia não necessariamente significaria uma recuperação imediata da produção agrícola. Isso porque os fertilizantes dependem da disponibilidade da matéria-prima e precisam chegar aos produtores dentro das janelas corretas de plantio.

O banco destaca ainda que, caso os atrasos na entrega dos fertilizantes coincidam com perdas de produtividade provocadas pelo El Niño, um choque inicialmente concentrado no setor energético poderia se transformar em uma interrupção mais prolongada no mercado global de alimentos.

É justamente essa possibilidade — guerra afetando energia, energia afetando fertilizantes, fertilizantes afetando lavouras e clima agravando a produção — que coloca a agricultura mundial novamente diante de um cenário de pressão sobre os preços.