Renee Wong e April Lee têm casa compartilhada, conta bancária, planos para o futuro, duas gatas e até planos de ter filhos. Também são oficialmente casadas. O detalhe que surpreende é que as duas nunca foram um casal romântico e afirmam não sentir atração sexual uma pela outra.

A relação, que foge do modelo tradicional de casamento, é descrita por elas como uma “parceria platônica de vida”. A história das duas, que se conhecem desde os 12 anos, ganhou destaque por mostrar uma forma de união ainda pouco estudada pela psicologia.

Em 2026, quando completam 29 anos, Renee e April comemoram dois anos de casamento. Elas vivem juntas em Los Angeles, nos Estados Unidos, depois de oficializarem a união no início de 2024. Para as duas, o casamento não representa um romance escondido, mas o reconhecimento formal de que já ocupavam há muitos anos o papel de principais parceiras na vida uma da outra.

“Por que a gente está reservando esse lugar tão precioso — de parceira de vida, de casamento, de cônjuge — para um parceiro romântico que nem apareceu ainda?”, questiona Renee. Para ela, não fazia sentido esperar que uma pessoa desconhecida surgisse para ocupar um espaço que já era preenchido por alguém que estava ao seu lado havia mais de uma década.

Uma amizade que começou na adolescência

Renee e April se conheceram em uma escola de Singapura. A proximidade foi imediata. As duas passavam praticamente todos os dias juntas: depois das aulas, iam para a casa uma da outra; aos sábados, faziam aulas de reforço; aos domingos, frequentavam a igreja.

“Literalmente sete dias por semana juntas”, lembra Renee.

Como nenhuma das duas tinha irmãos, elas dizem ter criado uma relação semelhante à de irmãs. As famílias também acabaram se aproximando e passaram a compartilhar celebrações como Natal e Ano Novo Lunar. Com o tempo, a amizade deixou de envolver apenas as duas e se transformou em uma espécie de família ampliada.

A vida, porém, levou cada uma para um lado. Renee se mudou para Los Angeles para fazer faculdade, enquanto April permaneceu em Singapura. Mesmo separadas por continentes, a amizade continuou.

Foi durante a pandemia de Covid-19 que a dimensão do vínculo ficou ainda mais evidente. Separadas por fusos horários e pelas restrições de viagem, elas chegaram a conversar por até 12 horas por dia.

Foi nesse período que Renee percebeu algo que mudaria o rumo da relação.

Ela entendeu que April era a pessoa que mais amava no mundo. Não de maneira romântica, mas como alguém que gostaria de ter ao lado nos momentos mais importantes — inclusive no fim da vida.

A conclusão veio quase naturalmente: se era April quem ela queria ao seu lado para sempre, por que as duas continuavam vivendo vidas separadas?

Casamento sem romance

Quando as fronteiras foram reabertas, elas começaram a planejar uma vida juntas. No início de 2024, oficializaram o casamento em Los Angeles.

A união, porém, não mudou a natureza do vínculo. As duas se identificam como bissexuais, mas afirmam nunca terem sentido atração romântica ou sexual uma pela outra.

Renee chega a brincar que existe uma “péssima química física” entre elas. Segundo ela, o longo período de convivência transformou a relação em algo semelhante ao de irmãs.

“Numa nível científico, a gente não gosta do cheiro uma da outra. Então, quimicamente, não vai rolar”, afirma.

Para as duas, portanto, o casamento não foi uma tentativa de transformar amizade em romance. Foi justamente o contrário: uma forma de reconhecer que aquela amizade já tinha adquirido um grau de compromisso que elas consideravam equivalente — ou até superior — ao que tradicionalmente se espera de um casamento.

Dinheiro, decisões e vida em comum

A parceria também ultrapassa a convivência doméstica.

Renee e April compartilham as finanças. Segundo April, o dinheiro das duas funciona como “tudo no mesmo pote”. Em determinado momento, quando April acumulou uma dívida no cartão de crédito durante uma fase de transição profissional, Renee recebeu um bônus no trabalho e decidiu quitar a dívida da amiga.

A justificativa foi simples: não queria que aquele problema continuasse pesando sobre as duas.

Para elas, esse tipo de atitude representa o verdadeiro significado da parceria. O casamento é baseado em confiança, companheirismo, responsabilidade e construção de uma vida em conjunto — e não necessariamente em atração física.

Elas podem namorar outras pessoas

O casamento platônico não significa que as duas tenham abandonado relacionamentos românticos.

Renee e April não se consideram celibatárias e continuam abertas à possibilidade de se relacionar romanticamente com outras pessoas. A diferença é que nenhum namorado ou namorada ocuparia o lugar central que uma tem na vida da outra.

As duas afirmam que não estão procurando alguém para preencher uma ausência porque não se sentem sozinhas.

Segundo Renee, relacionamentos românticos poderiam ser incorporados à estrutura que já construíram, em vez de competir com ela.

A experiência anterior de April com um relacionamento, inclusive, ajudou as duas a desenvolver maior independência emocional.

Um casamento que desafia a ideia tradicional de família

A história chamou atenção justamente porque questiona uma ideia bastante difundida: a de que casamento e parceria de vida precisam necessariamente envolver paixão ou sexo.

A psicóloga Maria Cristina Antunes, doutora em psicologia social e membro da Associação Brasileira de Psicologia, explica que o conceito de parceria platônica de vida ainda é pouco estudado.

Existem pesquisas qualitativas sobre o tema, mas não há grandes estudos populacionais capazes de estabelecer com precisão quantas pessoas vivem esse tipo de relação ou quais são seus limites.

O termo “platônico” remete às ideias do filósofo grego Platão e, ao longo do tempo, passou a ser associado a um amor que ultrapassa a dimensão física.

Na configuração contemporânea descrita pelas duas amigas, a parceria se caracteriza justamente pela ausência de atração sexual ou romântica, mas pela presença de elementos como companheirismo, compromisso, confiança e construção conjunta de uma vida.

O que a psicologia explica

Segundo Maria Cristina Antunes, relações de casal costumam ser sustentadas por diferentes componentes. Ela cita o psicodramatista argentino Dalmiro Bustos para explicar a existência de uma espécie de tripé formado por amizade e companheirismo, planos em comum e sexo.

Quando uma dessas dimensões desaparece, a relação pode ficar desequilibrada. Mas, na experiência clínica da psicóloga, um dos principais problemas enfrentados por casais não está necessariamente relacionado à falta de sexo.

A dificuldade de comunicação e a perda do companheirismo aparecem com frequência entre os motivos de desgaste.

É justamente nesse ponto que a história de Renee e April chama atenção: aquilo que muitas relações convencionais tentam reconstruir depois de anos juntas já está presente, desde o início, na parceria das duas.

A psicóloga afirma ainda que é comum observar casais de longa duração nos quais a paixão inicial diminui e a relação passa a ser sustentada principalmente por amizade, companheirismo e convivência.

Para ela, o caso também se encaixa em uma transformação mais ampla da ideia de família. Segundo Antunes, já não é possível considerar que exista apenas um modelo familiar na sociedade.

A família estranhou a decisão

A decisão das duas inicialmente provocou surpresa entre familiares.

Renee e April cresceram em Singapura, país descrito por elas como culturalmente conservador. Para Renee, se já era difícil imaginar um casamento entre duas mulheres naquele contexto, mais incomum ainda seria pensar em um casamento entre duas mulheres que não mantêm uma relação romântica.

As famílias, entretanto, acabaram entendendo a escolha. Elas já conheciam a profundidade da amizade e tratavam as duas quase como irmãs.

Hoje, o principal desafio está menos relacionado à natureza da relação e mais às diferenças entre as trajetórias profissionais.

Renee tem um emprego corporativo estável, enquanto April segue uma carreira criativa e tem maior liberdade de horários. As duas reconhecem que, em alguns momentos, sentem inveja daquilo que a outra possui: uma tem mais segurança financeira; a outra, mais liberdade.

Mas a comparação, dizem, não se transforma em disputa. O sucesso de uma é encarado como benefício para as duas.

Filhos também estão nos planos

Apesar de não formarem um casal romântico, Renee e April pretendem ter filhos no futuro.

Por enquanto, as duas vivem com duas gatas, tratadas como integrantes da família. Elas também consideram possibilidades como adoção, apadrinhamento ou atuação como mentoras de crianças.

A ideia de exercer a maternidade juntas é uma das perspectivas que mais anima Renee.

O casamento realizado em 2024 foi pequeno, com amigos presentes. As famílias não conseguiram participar. As duas brincam que, caso fiquem ricas, pretendem renovar os votos e realizar uma nova cerimônia.

O projeto de vida também inclui maior liberdade profissional, viagens e a possibilidade de trabalhar de qualquer lugar.

Uma relação que desafia as regras

Renee e April não dizem que o modelo delas deveria substituir o casamento tradicional. A intenção, segundo as duas, é mostrar que existem outras maneiras de construir vínculos duradouros.

A história também coloca em discussão o peso que a sociedade dá ao amor romântico na organização da vida adulta. Para as duas, não existe motivo para considerar uma amizade menos importante apenas porque não envolve desejo sexual.

Depois de 16 anos de amizade, elas decidiram transformar aquilo que já existia em um compromisso para o resto da vida.

E talvez seja justamente essa a parte mais surpreendente da história: elas não se casaram porque se apaixonaram. Se casaram porque descobriram que já tinham encontrado uma na outra a parceira de vida que tanta gente passa décadas procurando.

“Todo mundo poderia usar mais apoio, mais amor e mais família neste mundo”, afirma April. Para ela, questionar as regras tradicionais pode abrir espaço para relações que tragam mais apoio e afeto para as pessoas.