Vocação comercial da Avenida Anhanguera foi redefinida pelos shoppings de Goiânia

Milhares de pessoas circulam pela maior rua cidade, todos os dias. Arquiteta Narcisa Cordeiro postula que sua vocação pode ser definida

Gabriela Macêdo

Placa sinalizadora da Av. Anhanguera, no Centro. | Foto: Gabriela Macêdo, Jornal Opção

Um cordão umbilical pode ser caracterizado como uma espécie de estrutura, exclusiva de mamíferos, que liga o feto à placenta da mãe. Crucial para o desenvolvimento do embrião, a grande artéria garante sua nutrição e oxigenação. Ao considerar Goiânia — que, em seu início, nada mais era que uma extensão do município de Campinas —, como um grande órgão, a Avenida Anhanguera pode ser vista como seu cordão umbilical; uma veia de ligação. No entanto, antes mesmo de se pensar na constituição da cidade de Goiânia, que nasceu para ser a capital do Estado de Goiás, a avenida — que, com seus mais de 13 quilômetros e meio, é considerada a maior do Estado — foi composta de uma estrada de terra que ligava a cidade-mãe — Campinas — à Estação Ferroviária de Leopoldo de Bulhões, município que hoje não passa dos 8 mil habitantes.

Asfalto da Avenida Anhanguera, em Campinas. | Foto: Gabriela Macêdo, Jornal Opção

Especialmente com o intenso fluxo de trânsito, para percorrer a longa avenida que corta Goiânia de Leste a Oeste e praticamente a divide em duas, são necessários pelo menos 23 mil passos dados em um período de, no mínimo, três horas. Por seu asfalto rachado e suas calçadas irregulares, milhares de pessoas caminham todos os dias por ela para chegarem ao seu destino — seja o trabalho, o estudo, o almoço em uma lanchonete que vende tudo por R$ 2,99, o lazer e as compras.

Há também aqueles que trabalham diretamente na avenida. Dado divulgado em 2001 pelo Departamento de Controle das Atividades Informais da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (Sedem) mostrava a presença de 38 ambulantes registrados para atuar ao

Vendedores ambulantes no centro de Goiânia e em Campinas. | Fotos: Gabriela Macêdo, Jornal Opção

longo da Avenida Anhanguera. Em 2021, em sua parte mais comercial, é pouco possível dar dez passos sem ficar deslumbrado com a quantidade de frutas, camisetas, sapatos e bolsas dispostos em bancas comandadas por trabalhadores informais que, em seus banquinhos, passam mais de oito horas por dia em busca de ganhar o mínimo para sustentar a si e a família.

Em tempos de pré-pandemia, as mais de 100 mil pessoas que circulam pela avenida diariamente podem até não saber, mas andam sobre uma via que contém uma rica história de transformações que, após sua constituição e seu auge, a deixou cada vez mais popular ao longo do tempo. A história da Avenida Anhanguera, entretanto, não se iniciou com sua construção, que foi quase instintiva, já que sua primeira finalidade não passou de um mero acesso rodoviário sem asfalto. A informação primeva de sua origem pode ser buscada no século 19, em 1830, momento em que surgiram as primeiras propostas de mudança da capital goiana. Foi Miguel Lino de Morais, segundo presidente da província de Goiás, ainda durante o Império do Brasil, quem fez a primeira sugestão. A ideia seria de uma transferência para a região do rio Tocantins, próximo ao município de Niquelândia. Naquela época, o nome da cidade ainda era Vila Boa de Goyaz e a estagnação econômica se fazia presente, com o fim do ciclo do ouro na região.

Mais de 30 anos depois, em 1863, no livro “Viagem Araguaia”, o presidente da província de Goiás (entre 1862-1864) José Vieira Couto de Magalhães explicitou essa situação ao mencionar a perceptível decadência “desde que a indústria do ouro desapareceu”, e enfatizou a importância da transferência da capital, uma vez que “continuar a capital aqui é condenar-nos a morrer de inanição, assim como morreu a indústria que indicou a escolha deste lugar”.

Apesar de grandes debates sobre a transferência da capital terem prosseguido até a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, e a própria primeira constituição do Estado de Goiás, de 1º de junho de 1891, prever a transferência da sede do governo, em seu artigo 5º, a proposta se manteve em latência até a Revolução de 1930, um movimento armado liderado por Estados como Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul. Políticos e militares — os tenentes — promoveram um golpe de Estado. Com o golpe de 1930, foi deposto o presidente da República, Washington, e barrada a posse do presidente eleito, Júlio Prestes. Em 3 de novembro, quando Getúlio Vargas assumiu o chamado Governo Provisório, apoiado pelo presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, o médico Pedro Ludovico Teixeira foi nomeado interventor federal em Goiás. Assim, logo em 1932, o político goiano tomou providências para que a nova capital fosse construída.

Plano piloto de Goiânia, projetado por Attílio Corrêa Lima. | Foto: Reprodução

Apesar de ter sido Attilio Corrêa Lima (1901-1943) o principal engenheiro, arquiteto e urbanista a projetar o plano urbanístico de Goiânia, o processo começou com um grupo de três técnicos que foram indicados para compor uma comissão que escolheria o local em que a construção seria realizada. Para que os profissionais pudessem iniciar visitas ao território que hoje é chamado de Setor Central, a estrada de terra que antes ligava Campinas à estação de trem mais próxima – de Leopoldo de Bulhões – foi estendida e passou a ser também a mesma via que conectava Campinas ao canteiro de obras que construía Goiânia naquele momento.

Vieram, então, de Campinas, pela ainda não asfaltada, demarcada ou sequer nomeada Avenida Anhanguera, os engenheiros João Argenta e Jerônimo Fleury e o médico Laudelino Gomes de Almeida, que elaboraram o relatório final a ser submetido ao parecer dos engenheiros Armando de Godoy, Benedito Neto de Vellasco e Américo de Carvalho Ramos. Logo o documento também foi encaminhado a Pedro Ludovico e ficou decidido que a capital realmente seria construída na região de Campinas. Com a decisão, Pedro Ludovico encarregou, por meio do decreto, o arquiteto Attilio como responsável pelo projeto da nova capital, que foi produzido em estilo art déco. Attilio acabara de finalizar seus estudos na França, onde se graduou como urbanista pela Sorbonne, no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, em 1930.

Jornalista Iuri Rincon. | Foto: Reprodução

O pesquisador e mestre em arquitetura Wolney Unes relata que, pouco depois de elaborar o plano-piloto, Attilio teria “levado o cano”. “O Estado era pobre naquela época. Attilio nunca recebeu, então se demitiu.” O plano de Attílio foi, portanto, revisado por Armando de Godoy e foi executado pelos engenheiros Jerônimo e Abelardo Coimbra Bueno. As primeiras avenidas oficiais e principais da capital foram a Goiás — “o grande boulevard” —, a Araguaia e a Tocantins. Juntamente com a Anhanguera, as quatro compunham o traçado estruturador da cidade, que foi constituído a partir de uma malha ortogonal e um sistema viário bem definido. Para o jornalista e pesquisador Iuri Rincon, a primeira rua da cidade a ser construída com certeza foi a Tocantins. Porém, por não existir relatos ou documentos exatamente precisos, não há como comprovar. Porque em termos de demarcação, afirma Wolney Unes, a primeira a obter o contrato de edificação foi a Rua 20, que cruza a Avenida Anhanguera, no Centro.

As transformações da extensa Avenida Anhanguera tiveram início antes mesmo de sua construção propriamente dita. Apesar de constar no plano original elaborado por Attilio, a longa via teve sua largura diminuída nas alterações realizadas por Armando de Godoy e executada pelos engenheiros. Mesmo com essas mudanças significativas feitas no plano original, Armando e Attilio tinham em comum suas inspirações europeias — o que facilitou a implantação do estilo art déco. Enquanto Armando, segundo a arquiteta Narcisa Abreu Cordeiro, se baseou em Letchworth, na Inglaterra, Attílio adotou como modelos Versalhes, na França, e Karlsruhe, na Alemanha. “Karlsruhe também tem uma figura com uma projeção do tripé fechando com a linha transversal, como a Avenida Anhanguera”, informa a arquiteta e pesquisadora.

Enquanto grande parte dos urbanistas, inclusive Wolney Unes, acreditam que a principal influência dessas construções se deve ao estilo barroco, Narcisa Cordeiro postula que esse papel se deve à ideia de cidades-jardim, um conceito arquitetônico que tinha como objetivo reunir as maiores vantagens existentes tanto dentro da zona rural quanto da urbana em um só — que é, inclusive, predominante na cidade de Letchworth.

Apesar de não se ter consenso sobre quem teve a ideia do nome da Avenida Anhanguera — mesmo com a certeza da influência do explorador e sertanista bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva Filho, que fundou o Arraial de Santana, a futura Vila Boa de Goiaz —, sabe-se que quem escolheu o nome da nova capital foi o próprio Pedro Ludovico Teixeira.

Estátua do Anhanguera, ainda hoje localizada no Centro de Goiânia, entre as avenidas Goiás e Anhanguera. | Foto: Reprodução

A influência de Bartolomeu Bueno na simbologia da edificação demonstrou-se, inclusive, na estátua do Anhanguera que ainda hoje é localizada no Centro de Goiânia, entre as avenidas Goiás e Anhanguera, que foi doada por estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1942.

Para a escolha do nome da capital, após a realização de um concurso pelo jornal “O Social”, o nome massivamente mais votado em relação a Goiânia (com 105 votos a 10) foi Petrônia, em homenagem ao interventor. Ignorando os resultados, Pedro Ludovico indicou Goiânia como nome da capital — uma “jovem” hoje com 87 anos. A data de 24 de outubro, em homenagem aos três anos do início da Revolução de 1930, foi a escolhida por Pedro Ludovico para o lançamento da pedra fundamental do que seria a nova cidade. O evento foi celebrado onde hoje se encontra o Palácio das Esmeraldas, na Praça Cívica. Apesar desta solenidade, o município de Goiânia só foi oficialmente criado dois anos depois, em 1935, por meio do decreto estadual de nº 327. A partir de sua criação, sua cidade-mãe, Campinas, acabou sendo extinta, e se torna um dos 641 bairros que atualmente, em 2021, existem em Goiânia.

O Setor Central, projetado para abrigar a administração da cidade e do Estado, comércio, habitação e outros serviços, passa a ser construído. A Avenida Anhanguera, então, por se tratar de um acesso rodoviário, se torna o principal caminho em que os profissionais passavam com materiais de construção. Por iniciativa do governo, para abrigar os servidores públicos e outros trabalhadores que diariamente atuavam nas obras, as primeiras construções se iniciaram. Na Rua 20 foram criadas as primeiras seis casas e na Avenida Goiás, em 1937, o Grande Hotel — tombado como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 2003.

Grande Hotel, após inauguração. | Foto: Reprodução

Entre o período em que as primeiras seis casas foram construídas e o Grande Hotel, feito de forma estratégica entre as principais avenidas, Goiânia só contava com pequenas pensões. Foi em 1930 que a Avenida Anhanguera começou a ser ocupada, segundo o historiador Victor Moura Soares, com seus primeiros edifícios comerciais, especialmente entre a Alameda Botafogo e a Avenida Araguaia. As razões para isso são claras: por se tratar de uma via de acesso entre Goiânia e o resto do Estado e parte do Brasil, era movimentada. Consequentemente, atraía o comércio.

Goiânia foi criada para abrigar uma população de apenas 50 mil pessoas, com um núcleo central de 15 mil. Entretanto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 1940, antes mesmo da inauguração oficial, o centro do município já continha 18.889 habitantes. (Em 2021, a população estimada da cidade, de acordo com o IBGE, é de 1.536.097 pessoas, 30,7 vezes maior.) Além de ter ultrapassado a população planejada para o núcleo nessa data, 1940 também marcou o início do processo de infraestrutura da Avenida Anhanguera, onde toda a parte do Setor Central e parte do trecho que ligava a Campinas foram pavimentadas. Apenas dois anos depois, a primeira linha de transporte urbano foi criada na cidade.

Pela avenida, diariamente começaram a trafegar caminhões transformados em jardineiras — seu nome popular —, com bancos de madeira. Com capacidade para apenas dez pessoas, difere enormemente dos veículos do Eixo Anhanguera, que trafegam pela avenida, e das 293 linhas de ônibus instituídas pela Rede Metropolitana de Transporte Coletivo da Capital (RMTC). Em tempos pré-pandêmicos, como no ano de 2019, o Eixo Anhanguera chegou a abarcar um fluxo de mais de 94 mil pessoas ao dia em seu interior. Com o objetivo de tornar a avenida cada vez mais funcional para seu principal objetivo, ao ter sido criada como uma via de acesso, o Eixo Regional de Serviços na Avenida Anhanguera foi concretizado em 1975 como efeito dos investimentos no transporte público que iniciaram no início da década — e passou a rodar em um corredor de passagem exclusiva implementado em 1998.

Pessoas que já nasceram no século 21, no entanto, além de não conhecerem a avenida em seu auge da beleza, quando era composta por fileiras de palmeiras que acabaram derrubadas para a construção do corredor por onde passa o ônibus, podem também não ter ideia de como era a concepção de shopping aberto, dada por Narcisa Cordeiro. No fim da década de 50 e o início da de 1960, a Avenida Anhanguera passou a ser um espaço constantemente frequentado pela população, tanto por suas diferentes lojas, quanto por se constituir em um local convivência –— com destaque maior até que a Praça Cívica e a Avenida Goiás, segundo o historiador Victor Moura.

Avenida Anhanguera repleta de palmeiras. | Foto: Reprodução

Esse espaço de convivência já vinha se constituindo gradativamente na avenida desde a década de 1940, com a instituição de um dos principais cartões postais da cidade: o Lago das Rosas. Hoje, um parque arborizado, com área de mais de 315 mil metros quadrados que possui percurso de caminhada, recreação infantil, estação de ginástica e até um mirante. Ao passar por ele, em certos momentos do dia, é possível ver pessoas suadas correndo, com seus fones de ouvido, ou andando, distraidamente, por sua extensão. Na época, entretanto, era um clube, onde o lago principal — que até hoje possui resquícios de sua antiga atividade, com seu trampolim preservado e inativo — era a piscina destinada a jovens e adultos. Além desta, também existia uma piscina infantil, tornando a praça um local de todos. Para os pesquisadores Iuri Rincon e Wolney Unes, o clube do Lago das Rosas era o point de lazer popular que contrastava com o clube das elites — o Jóquei Clube de Goiás, fundado em 1938.

Pesquisador e mestre em arquitetura Wolney Unes. | Foto: Reprodução

Primeiro clube recreativo do centro da cidade, o Jóquei Clube não é mais utilizado em sua função original desde o início dos anos 2000, quando foi alugado para a utilização de uma instituição de ensino superior — sendo até colocado à venda para sanar dívidas no ano de 2017. Na época, mesmo que a proposta fosse a utilização do dinheiro da venda para a construção de uma nova sede, no bairro Cidade Jardim, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO) chegou a se manifestar e apresentar ao Iphan uma proposta de tombamento da construção.

Além dos grandes clubes, era palco do lazer goiano e, especialmente do cruzamento entre a Avenida Anhanguera com a Tocantins, o majestoso Teatro Goiânia, também chamado de Teatro Municipal. Atualmente pertencente à Secretaria de Estado de Cultura de Goiás (Secult), começou a ser construído em 1940 e foi inaugurado em 1942, pouco menos de um mês da inauguração oficial da cidade — seu batismo cultural, como disse o pesquisador e escritor Ubirajara Galli, presidente da Academia Goiana de Letras. O evento, que aconteceu no próprio Teatro no dia 5 de julho, foi um dia frio, com temperatura de 6 graus, mas que fez com que a população mais uma vez se reunisse em comemoração em meio à avenida.

Com nostalgia, Narcisa Cordeio se lembra de quando percorria a avenida durante as passeatas que ocorriam nas noites de domingo, também conhecidas como footing. Essa era uma atração que acontecia quase como um complemento à sessão das sete horas da noite do Cine Teatro Goiânia, em que homens e mulheres elegantemente trajados compareciam. Na coluna Memorando, do Jornal Opção, o jornalista e pesquisador Hélio Rocha explica que o footing acontecia no quarteirão entre a Rua 3 e a Avenida Anhanguera e a Avenida Goiás, com muita gente, principalmente jovens. “Eu era mocinha, e nessa época o footing era repleto de moças andando e rapazes flertando, e eu era uma delas. Uma vez, até fui com um sapato de bico fino e, depois das andanças, acabei saindo mancando”, rememora Narcisa Cordeiro.

Teatro Goiânia; edifício em Art D’éco. | Foto: Reprodução

Direto das lembranças de sua mocidade, a arquiteta menciona as várias boutiques que compunham a avenida e faziam o “charme de Goiânia”. “Não tínhamos shoppings, depois que eles se estabeleceram, o fluxo das ‘madames’ se vulgarizou e a avenida se popularizou”, explica a arquiteta. Em 16 de outubro de 1981, um fenômeno contribuiu para a reconfiguração da Avenida Anhanguera: a inauguração do primeiro shopping do Estado de Goiás — o Flamboyant Shopping Center, juntamente com o estabelecimento do corredor exclusivo do Eixo, que acabou com os estacionamentos largos que permitiam acesso às boutiques mencionadas por Narcisa Cordeiro. O shopping levou o público do Centro de Goiânia para dentro do ambiente “seguro, confortável e refrigerado”. Depois, a construção de outros shoppings acabou por redefinir a “vocação” econômica da avenida — que se tornou um point de “camelódromos” tanto em Campinas, os maiores, quando no Centro da capital.

“A Avenida Anhanguera charmosa tinha boutiques, sapatarias e farmácias. Hoje está congestionada. Aquelas lojas eram bonitas e decoradas, mas essa característica estética se perdeu em prol da funcionalidade. Até a fumaça dos ônibus prejudicou. Com a vantagem dos shoppings, com estacionamento próprio, hoje aquelas lojas são desprezadas e adquiriu um aspecto popular enorme. E esse balanço é difícil de solucionar, porque temos que deslocar as pessoas no trecho Leste-Oeste”, complementa Narcisa Cordeiro.

Arquiteto Narcisa Cordeiro. | Foto: Reprodução

Além do transporte, Narcisa Cordeiro e Victor Moura citam a construção de Brasília como fator determinante para a explosão populacional da cidade e, especialmente, para as grandes alterações que precisaram ser realizadas na avenida. “Brasília modificou demais nossa região no que se refere ao adensamento. Pessoas vinham de lá pela Avenida Anhanguera. Se Palmas não tivesse sido construída e não tivesse sido jogado um adensamento pesado lá, não sei o que teria acontecido com Goiânia. Foi uma válvula de escape maravilhosa”, acrescenta Narcisa Cordeiro. Foi a partir disso, portanto, com a intensificação do fluxo da avenida, que quase todos os seus lotes foram ocupados e diversas edificações foram demolidas para a construção de edifícios mais altos.

Para Iuri Rincon, entretanto, esse destino não era novidade. Por se tratar de um eixo Leste-Oeste que servia como acesso rodoviário e ponto de ligação, não existia outro destino à longa via, senão sua popularização. “Sempre foi uma rua classe C, operária e trabalhadora. Ela só cumpriu o destino histórico dela, que é ser uma avenida pela qual as pessoas passam.” Se José Mendonça Teles concordava com Narcisa, Victor ou Iuri, é difícil saber, mas em seu livro ‘Eu Te Vejo, Goiânia” (2008), exibe uma escrita romântica acerca da cidade. O poema intitulado “Avenida Anhanguera” é um exemplo:

“Eu te vejo, Goiânia, quando encontro no Café Central velhos companheiros e mostro a eles que também estou enxuto, que as rugas que machucam meu rosto são passageiras, assim como as nuvens no céu de brigadeiro. Na solidão da Anhanguera, o tempo fez trotoir.”

Atualmente, em decorrência de todo esse contexto, a urbanista Narcisa Cordeiro ressalta que não somente a Avenida Anhanguera, mas todo o Centro de Goiânia — assim como grandes centros metropolitanos, como o de São Paulo e Rio de Janeiro — se encontra em estado de deterioração. “É preciso ter cuidado. Os centros vão ficando tão compartimentados e embaraçados que as pessoas não querem mais morar lá. É extremamente perigoso.” O comerciante Jocimar de Jesus Luz, de 54 anos, é sócio da Ferragista Rio Negro — nas proximidades do Brechó Goiano e no cruzamento da Avenida Anhanguera com a Avenida Paranaíba — há 23 anos. Ele afirma já ter sido assaltado na loja, em um dia em que levaram todo o dinheiro do caixa. O empresário fica indignado com o claro abandono de certas partes da avenida. Há notícia de que o Comando Vermelho atua no Centro, mas com o objetivo de vender drogas como cocaína, maconha e, sobretudo, crack.

Silvio Benízio, de 60 anos, e Júnior César, de 46 anos, são ambulantes há 14 e 30 anos, respectivamente, na Avenida Anhanguera. Ambos se encontram no mesmo lugar desde que se instalaram na grande via, entre ela e a Avenida Araguaia, e, apesar de nunca terem sido furtados ou roubados, frequentemente presenciam episódios como esse. “O medo é sempre constante”, dizem.

Como proposta de reforma para um futuro não muito distante, Narcisa Cordeiro idealiza a transformação de Goiânia em uma capital eco-civilizadora: o Eixo Anhanguera funcionaria em uma plataforma suspensa, para que a vida antes um dia presenciada na extensa Avenida que corta a cidade pudesse retornar. Classificando-a como cidade bem-nascida por suas condições favoráveis, a arquiteta diz que Goiânia então passaria a abarcar um turismo científico, e assim o diálogo e a educação ambiental se tornariam regra e as soluções limpas, como o monotrilho suspenso, se fariam lucro. “Assim conseguiríamos ativar o modelo Art déco que ficou tão marcado por tantas cirurgias que a cidade sofreu. Nem a Avenida nem Goiânia podem ser vistas de forma unitária. Tudo faz parte de uma macroestrutura que precisa ser repensada.”

Comparação da Avenida Anhanguera em 1952 e 2011. | Fotos: Hélio de Oliveira e Adriano Zago

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