UFG mostra que frutos do Cerrado podem acabar com a insegurança alimentar em comunidades indígenas: “É acessível e eles podem fazer o preparo sozinhos”, diz líder do estudo
08 agosto 2026 às 16h00

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Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Goiás (UFG) revela que a farofa e o beiju, alimentos enraizados na cultura alimentar indígena, ganham um aumento nutricional ao serem enriquecidos com frutos nativos do Cerrado. A descoberta, fruto da dissertação de mestrado do cientista de alimentos Gabryel da Silva Alves, de 28 anos, mostra que a simples incorporação da castanha de pequi torrada ou das amêndoas da palmeira jerivá eleva os teores de lipídios, proteínas e valor energético dessas preparações.
O trabalho visa oferecer uma tecnologia acessível para que as próprias comunidades tradicionais possam preparar refeições mais nutritivas e enfrentar a desnutrição. “O estudo foi pensado para que eles pudessem sozinhos fazer esses alimentos com mais valor nutricional”, afirmou o pesquisador, em entrevista ao Jornal Opção.
O cenário que motivou a equipe vem de um levantamento transversal feito com 49 famílias indígenas da etnia Terena, na Área Indígena Buriti, que mostrou que apenas 24,5% delas viviam em segurança alimentar. A mandioca, base que origina o beiju e a farofa, mantém a subsistência diária dessas populações, porém entrega baixos teores de proteínas, minerais e vitaminas. Foi justamente dessa lacuna que brotou a ideia de convocar a biodiversidade do Cerrado (o segundo maior bioma do país, cobrindo 21% do território nacional) para complementar a dieta sem descaracterizar os hábitos locais.
Em conversa com a reportagem, Gabryel detalhou os primeiros passos do projeto. “Quando comecei o mestrado, na primeira reunião que eu tive com o orientador, ele trouxe esse projeto que iria fazer de tentar utilizar alguns frutos nativos para complementar, para suprir o déficit alimentar dessas comunidades indígenas na Terra Indígena Tirecatinga, lá no Mato Grosso”, recordou.

A iniciativa, costurada em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e a Embrapa, integra o projeto guarda-chuva Iniciativa Amazônia+10, que fomenta a pesquisa e o desenvolvimento sustentável na floresta tropical. Inicialmente, outras espécies estavam no radar, mas a indisponibilidade de matéria-prima redirecionou o foco. O jerivá, que o pesquisador já manipulava para aprender metodologias, e o pequi, enviado diretamente pelos indígenas da comunidade mato-grossense, tornaram-se o foco das análises.
A estratégia não se limitou a quantificar nutrientes. Desde o princípio, o projeto se baseou no fato que os resultados pudessem ser replicados em qualquer aldeia. As castanhas e polpas passaram por secagem direta ao sol e, depois, por um forno comum para torra. “Busquei utilizar metodologias mais simples, acessíveis e que pudessem ser replicadas lá na aldeia”, explicou o cientista. “Um dos motivos para desenvolver esta pesquisa era poder levar estes resultados para aldeias, para poder complementar nutricionalmente a dieta das pessoas, por isso também o emprego de tecnologias mais acessíveis”, completou.
Quando os números começaram a emergir das análises, a reação foi de entusiasmo. Gabryel confessa ter sido pego de surpresa pela riqueza que se escondia nos frutos. “Eu fiquei surpreso a partir do momento que eu fiz as análises com as farinhas dos frutos. Porque eu percebi uma grande quantidade de lipídios, bastante lipídios na castanha de pequi”, relatou.
A farinha da castanha de pequi torrada apresentou um valor energético de 706,11 kcal por 100 gramas, sustentado por um teor de lipídios de 70,13 g/100g e 12,23 g/100g de proteína. Ao substituir 50% da massa de mandioca por essa farinha na produção da farofa, o alimento final disparou em qualidade nutricional: alcançou 36,92 g/100g de lipídios, 11,39 g/100g de proteína e 468,75 kcal/100g de valor energético total, contra índices baixos da versão convencional. “A massa de mandioca sozinha, ela não tinha uma grande quantidade de lipídios, nem de valor energético total. Aumentou com a adição da castanha de pequi”, constatou o pesquisador, classificando o desfecho como “bastante positivo”.
Já o jerivá revelou vocação para aumentar o teor de fibras. A amêndoa da palmeira entregou 49,48 g/100g de lipídios e 11,78 g/100g de proteína, enquanto a polpa se destacou em 15,29 g/100g de fibra alimentar solúvel e 23,90 g/100g de fibra insolúvel. Quando o beiju recebeu 25% de substituição da massa de mandioca por farinha da amêndoa de jerivá, as fibras solúveis subiram para 3,74 g/100g e as insolúveis para 6,64 g/100g, um ganho considerável frente ao beiju controle.
Além disso, nenhuma das farinhas apresentou toxicidade, e todos os produtos (beijus, farofas e até o petisco de castanha de pequi torrada salgada) ficaram livres de desenvolvimento microbiano, comprovando que as técnicas rudimentares de secagem e torra foram suficientes para garantir segurança alimentar.
Por trás dos resultados, existe um esforço para enxergar valor no que está subaproveitado. O pequizeiro frutifica entre novembro e fevereiro e está presente em Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins e no Distrito Federal, mas a castanha costuma ser descartada. O jerivá, palmeira espalhada por vários biomas, permanece pouco conhecido fora das populações nativas.
“O jerivá mesmo, ele não é necessariamente consumido como o pequi. Eles são bem diferentes. O jerivá é bastante fibroso. E a gente geralmente não consome a castanha do pequi. Essa seria uma forma de pegar uma coisa que tem lá, que eles têm acessível, que seria essa castanha de pequi, por exemplo. É adicionar uma técnica comum ao alimento que eles já têm lá justamente para ter esse aproveitamento do recurso que eles já têm. Que acaba que não é tão utilizado. É mais para utilizar um recurso existente para melhorar algum outro alimento”, detalhou Gabryel.
A transferência do conhecimento já começou, e isso trouxe uma dose extra de entusiasmo ao pesquisador. Durante a entrevista, ele revelou que havia descoberto, nesta semana, que os resultados das análises estão sendo levados às comunidades. “É algo muito bom. Estão transferindo esse conhecimento das análises que a gente fez para eles. Para fazer essa inserção na alimentação deles”, celebrou. A ideia é que o passo a passo, da colheita à mesa, seja dominado localmente, sem depender de insumos externos ou equipamentos sofisticados.
A pesquisa não se encerra nos limites do mestrado. Gabryel agora cursa doutorado também em Ciência e Tecnologia de Alimentos na UFG, e mantém o olhar sobre as potencialidades dos frutos nativos. A etapa de bancada, concentrada entre fevereiro e dezembro do ano passado, culminou com análises sensoriais no início de fevereiro deste ano, e a boa notícia é que a adição da castanha de pequi não comprometeu a aceitação dos beijus e farofas. O petisco de castanha de pequi torrada salgada, inclusive, atingiu índice de aceitação superior a 70% em todos os atributos avaliados.
Para o agora doutorando, o horizonte é de expansão, mas com os pés fincados na realidade de cada território. “É uma pesquisa que pode sim ser aplicada para outras regiões também, mas teria que pensar na realidade de cada região. Porque, por exemplo, muitos frutos são frutos que estão no Cerrado apenas, que fazem parte do ambiente e têm um acesso mais facilitado. Acredito que para outras regiões seria necessário considerar o que há presente nessas outras regiões”, finaliza Gabryel.
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