Ucrânia ataca refinarias, enfraquece estrutura energética Russa e muda lado de pressão na guerra
02 julho 2026 às 15h24

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Durante os primeiros anos da guerra, a Ucrânia concentrou seus esforços em conter o avanço das tropas russas no campo de batalha. O objetivo era impedir a ocupação de cidades, recuperar territórios e preservar sua capacidade militar. Mas o conflito entrou em uma nova fase. Em vez de mirar apenas tanques, quartéis e soldados, Kiev passou a atacar aquilo que sustenta toda a máquina de guerra de Moscou: sua infraestrutura energética.
A Rússia é uma das maiores produtoras de petróleo do planeta, mas produzir petróleo bruto não basta. É nas refinarias que ele se transforma em gasolina, diesel, querosene de aviação e outros combustíveis indispensáveis tanto para a economia quanto para as Forças Armadas. Sem esse processamento, caminhões deixam de circular, aeronaves têm dificuldades de abastecimento e cadeias logísticas começam a apresentar falhas.
Por isso, as refinarias se tornaram um dos principais alvos dos drones ucranianos. Diferentemente de uma base militar, cuja reconstrução pode ser relativamente rápida, uma refinaria atingida exige equipamentos complexos, peças específicas e meses de reparo. Em um país submetido a sanções internacionais e restrições tecnológicas, esse processo se torna ainda mais lento.
Os efeitos começam a aparecer muito além do campo de batalha. Filas em postos de gasolina, preocupação com o abastecimento e discussões sobre restrições às exportações de combustíveis mostram que a guerra finalmente alcançou o cotidiano dos russos. Durante muito tempo, Moscou conseguiu manter a percepção de que o conflito acontecia longe da vida da população. Essa realidade começa a mudar.
Há também um impacto econômico significativo. O petróleo continua sendo uma das principais fontes de receita do Estado russo. Embora boa parte da exportação seja de petróleo bruto, a redução da capacidade de refino pressiona os preços internos, obriga o governo a reorganizar o mercado e aumenta os custos para empresas e consumidores. Em uma economia já afetada por sanções, qualquer novo desequilíbrio amplia a pressão sobre o Kremlin.
Do ponto de vista militar, a estratégia ucraniana procura atingir o ponto mais sensível de uma guerra prolongada: a capacidade do adversário de sustentá-la financeiramente e logisticamente. Exércitos não funcionam apenas com soldados e armamentos. Funcionam com combustível, transporte, manutenção e uma economia capaz de abastecer tudo isso diariamente.
Essa lógica não é nova na história dos conflitos. Grandes guerras sempre demonstraram que destruir a capacidade produtiva do inimigo pode ser tão eficaz quanto vencer batalhas. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, refinarias, fábricas e ferrovias tornaram-se alvos prioritários justamente porque sustentavam o esforço militar.
A diferença é que, hoje, a tecnologia tornou essa estratégia muito mais acessível. Drones relativamente baratos conseguem percorrer centenas, e, em alguns casos, milhares de quilômetros para atingir instalações estratégicas que antes dependeriam de grandes operações aéreas. A guerra se tornou mais assimétrica, e a infraestrutura passou a ser tão importante quanto as linhas de frente.
Isso explica por que os ataques ucranianos vêm se intensificando contra refinarias cada vez mais distantes da fronteira, inclusive na região de Moscou e em áreas da Sibéria. O objetivo não é apenas destruir instalações. É demonstrar que nenhum ponto da Rússia está completamente protegido e que a guerra pode produzir consequências concretas para a população e para a economia.
Essa mudança coloca Putin diante de um desafio diferente daquele enfrentado no início da invasão. Até agora, o Kremlin conseguiu preservar uma narrativa de estabilidade econômica e controle interno, mesmo sob sanções ocidentais. Mas, quando a falta de combustível começa a gerar filas, elevar custos e afetar a rotina dos cidadãos, o conflito deixa de ser percebido como uma operação distante e passa a interferir diretamente na vida cotidiana.
É justamente aí que reside a importância da infraestrutura energética. Ela deixou de ser apenas um ativo econômico e passou a representar o centro de gravidade da guerra. Quem controla a capacidade de abastecimento controla, em grande medida, a capacidade de continuar lutando.
A Ucrânia parece ter compreendido essa realidade. E, ao transformar refinarias em alvos prioritários, sinaliza que a nova fase da guerra será menos definida pelas trincheiras e mais pela disputa para enfraquecer a capacidade econômica e logística do adversário. Em conflitos longos, nem sempre vence quem conquista mais território. Muitas vezes, vence quem consegue fazer o outro deixar de funcionar.
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