Terroristas digitais invadem evento de universidade federal e expõem imagens nazistas

Ação foi coordenada e envolveu também áudios de tortura e vídeos pornôs. Mestra pela UFG debatia justiça social e disse já sofrido com ataques outras três vezes

Era para ser mais uma atividade remota entre professores, pesquisadores e discentes, em meio a uma pandemia que já dura mais de ano e meio no Brasil: uma atividade em um ciclo de estudos da Universidade Federal de Rondônia (Unir), promovida pela rede Situação de Rua, coordenada pelo professor Fábio Andrade.

Logo nos primeiros minutos da apresentação da historiadora Yordanna Lara – uma das duas palestrantes e também mestre em Antropologia Social da Universidade Federal de Goiás (UFG) –, o evento foi invadido por dezenas de terroristas digitais de extrema-direita, que, usando do link público da atividade (feita pelo Google Meet), fizeram uma ação coordenada.

Banner do evento divulgado no Instagram | Foto: Reprodução

Em vez de slides acadêmicos sobre o tema do ciclo – Gênero, diversidade e justiça social –, os extremistas “tomaram” o compartilhamento de tela e expuseram fotos com suásticas, vídeos pornôs, áudios de pessoas gritando e animais sendo torturados.

Mas a invasão não se restringiu à apresentação: no chat do evento, Yordanna recebeu xingamentos diversos e até ameaças de morte. “Um deles disse que se eu seguisse com ‘esse discurso aí’ seria exterminada”, relatou a historiadora. Ela é negra e ativista de movimentos sociais, antirracistas e pelos direitos das pessoas LGBTQIA+.

Segundo Yordanna, pelo menos 22 pessoas invadiram a atividade, que teve de ser “partida ao meio” e ficou bastante prejudicada. “Tivemos de mandar um novo link e, assim, muita gente que estava participando não conseguiu retornar depois. Muitas também ficaram intimidadas e até aterrorizadas.”

Um dos prints feitos por Yordanna do ataque digital, em que é compartilhada a foto de uma sala com uma suástica | Foto: Reprodução

Um prejuízo ao acesso das pessoas interessadas no tema, mas também para a própria debatedora. “Foi muito assustador. Algo que me desestabilizou  bastante, até por não ser a primeira vez. Ao reiniciar, pedi para que minha fala ficasse por último, porque fiquei muito abalada”, contou.

Com Yordanna é a quarta vez que isso aconteceu durante a pandemia. “Infelizmente, já tinha tido problemas desse tipo com aulas em São Paulo, no Paraná e também no Piauí. Eu me sinto exausta e com muita frustração, porque parece não haver uma forma de resolver essa questão. Isso me adoece.”

2ª invasão na Unir
O professor Fábio Andrade disse que foi a segunda ocorrência de algo do tipo na Unir. “Na primeira, a invasão ocorreu aos poucos e assim conseguimos fazer as exclusões. Ontem (quarta-feira), foi bem diferente, porque eles entraram em grupo muito grande e atacando com vídeos chocantes, palavras de apoio ao presidente e ofensas às palestrantes”, disse.

Com a criação de outra sala, com link restrito, somente quem estava em grupos relacionados conseguiu acesso, mas a audiência ficou prejudicada.

Fábio atenta para um fato importante: nas duas vezes em que ocorreu a invasão, as temáticas eram ligadas a questões sociais e raciais. “Esta foi sobre questões de gênero e justiça social; a anterior dizia respeito à população negra. Sempre entram com ataques muito sérios, incluindo referências nazistas.”

Tanto a organização do evento em Rondônia como a própria Yordanna Lara decidiram levar o caso à polícia – em Goiânia, à Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos. Ela fez vários prints e vai encaminhar, às autoridades policiais, o relato e as provas.

A UFG também sofreu com invasões de aulas e reuniões durante o período pandêmicos. Uma marcante foi um ataque racista sofrido pela professora Luciana de Oliveira Dias, da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), em uma apresentação da chapa para a direção da unidade – ela era candidata a vice-diretora.

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