“Teria feito o mesmo procedimento se fosse um familiar”, diz médico acusado de omissão

Luciano Roberto Afonso garante que agiu dentro da norma técnica médica e lamenta o julgamento social precipitado e açodado

Médico afirma que fez todo o possível para salvar a vida de Darlan no último domingo | Foto: Reprodução

Indiciado por omissão de socorro após ter sido filmado dentro de uma ambulância por uma enfermeira, o médico Luciano Roberto Afonso concedeu entrevista exclusiva ao Jornal Opção nesta sexta-feira (3/2). Segundo ele, tudo o que estava a seu alcance para salvar a vida do paciente, o entregador de pães Darlan Ernestino da Silva Santos, foi feito.

No último domingo (29/1), a vítima seguia em sua motocicleta quando, no cruzamento da Rua 15 com a Avenida D, no Setor Oeste, foi atropelado por um carro conduzido por Gabriel Ribeiro Júnior e arrastado por vários metros. O motociclista foi socorrido pela equipe de Luciano Roberto Afonso, que passava no local — quando retornava em código QRV (código de deslocamento de retorno da viatura à base, após ter realizado um socorro prévio) — pouco após o acidente, e levado ao Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo), onde acabou morrendo.

Uma enfermeira, que participou do atendimento, acabou denunciando o médico à Delegacia Estadual de Investigações de Crimes de Trânsito (Dict) pela suposta omissão de socorro. Segundo ela, o Luciano não intubou o paciente mesmo tendo sido alertado. Os dois divergiam de conduta técnica na ambulância, quando o vídeo que circula nas redes sociais foi gravado.

O que aconteceu durante o atendimento da ocorrência de domingo (2), que envolveu o entregador Darlan, a partir do momento em que chegaram no local do acidente?

Primeiramente, para justificar o motivo que levou a isso tudo que foi exposto pela imprensa, vale ressaltar que em uma ocorrência anterior, a enfermeira [que acusou Luciano] tentou interferir na conduta médica. Atendemos um paciente vítima de ferimento por arma branca, que levou uma facada no tórax, inclusive estava estável hemodinamicamente. A enfermeira sugeriu que fosse feita uma medicação, que eu médico contra-indiquei, pois não havia indicação médica. Então deixamos o paciente no Hugo [Hospital de Urgências de Goiânia], sob os cuidados da equipe médica de lá. Ao voltarmos para a nossa base, em QRV, nos deparamos com este acidente.

Era uma cena preocupante e grave. O paciente estava deitado no solo, em decúbito lateral esquerdo (do lado esquerdo). Nós descemos imediatamente — toda a equipe — e fizemos os primeiros atendimentos em solo. Estabilizei a coluna cervical do paciente, pedi a prancha rígida para colocá-lo, fizemos a manobra de rolamento, fizemos as imobilizações das fraturas que ele teve na perna e no braço; fizemos os curativos no trauma craniano que ele apresentava na região frontal esquerda. Isso foi muito rápido. E apesar de a nossa ambulância não ter sido empenhada para essa ocorrência, nós praticamente chegamos poucos segundos ou minutos depois do acidente, antes até da chegada da chegada da viatura (Unidade de Resgate, UR, suporte básico de vida) que teria sido empenhada para o socorro, pela Central de Regulação do SIATE.

Então a unidade de resgate chegou e prontamente conseguimos colocar o paciente na ambulância, na unidade de saúde avançada, cuja equipe de resgate era comandada por mim. Em solo, já havíamos feito a reposição volêmica com soro acrescida de medicações, como Morfina, para diminuir a dor da vítima em relação ao tórax e para facilitar sua respiração. Foi quando o colocamos na ambulância, para começarmos o deslocamento.

São cerca de 3 quilômetros, como estávamos em código 3 — que significa permissão para deslocamento rápido — e era madrugada, eu sabia que chegaríamos no máximo em cinco minutos. Como em minha avaliação clínica do paciente, a escala de Glasgow [avaliação do nível de consciência ou responsividade] era de 15, ou seja: máxima para o estado de vigília e longe do escore 8 que indica pré-coma e autorizaria a intubação, decidi não intubar. A enfermeira questionou por que não intubá-lo, eu disse que não havia indicação médica naquele momento e insisti para que aquele assunto não fosse mais discutido, o que foi ignorado pela enfermeira que provocava a continuidade de uma situação que por mim já estava superada. Tivemos uma conversa ríspida, de forma deliberada, como mostram os vídeos.

A enfermeira acusou o sr. por uma conduta irregular, alegando que não intubou o paciente e era necessário.

A enfermeira me acusa de omissão de socorro por não ter intubado o paciente. Como pode um médico que estava voltando de uma ocorrência (que tinha acabado de ser realizada com o sucesso esperado para o caso) e sem ter sido chamado pela Central de Regulação para atender aquele outro acidente, mas mesmo assim prontamente o fazendo, ser acusado de omissão de socorro?

Se eu tivesse realizado o procedimento de intubação daquele paciente dentro da viatura, com as condições clínicas que eu julgava presentes no caso em avaliação, certamente teria que drenar os dois hemitórax do paciente. Pois isso precipitaria um aumento de pressão interna pulmonar, com necessidade subsequente de toracotomia [abertura da parede torácica mecanicamente]; o que de fato foi comprovado, quando de nossa chegado ao Hugo, com o paciente ainda vivo. Após a intubação, o quadro do paciente evoluiu para uma parada cardio-respiratória que foi prontamente assistida por nossa equipe, conjuntamente com os colegas da equipe do Hugo. Foram feitas, inclusive, manobras de ressuscitação (RCP) e drenagem torácica, bilateral — com saída de 200 ml de sangue do pulmão esquerdo e 1200 ml de sangue do pulmão direito. Isso demonstrou um trauma torácico grave com hemorragia importante e instabilidade hemodinâmica que — ao meu ver — foi crítica e contribuiu para evolução para óbito do paciente, que naquele momento não mais se beneficiaria apenas de cristalóides; precisando sim de sangue, não disponível naquele momento.

Na ambulância, eu só conseguiria drenar o hemitórax (lado) esquerdo. No hemitórax direito, onde a contusão era maior, seria impossível fazer a drenagem, pela posição que a maca do paciente se fixa dentro da viatura.

Nas imagens, o sr. está sentado à frente do paciente, de costas. Nessa posição, teria como acompanhar os sinais vitais?

É óbvio que passa uma impressão ruim estar de costas para o paciente, mas eu tinha como acompanhar os sinais vitais indiretamente através da oximetria do pulso. Caso houvesse qualquer alteração, o aparelho iria emitir um alerta sonoro.

De qualquer modo, a enfermeira poderia, durante o trajeto, percebendo modificações nas condições clínicas do paciente, independentemente da conversa ríspida, me avisar e eu, certamente faria a assistência necessária.

Naquele momento eu entendi que ia ser importante acompanhar o trajeto do deslocamento e nem me preocupei com a atitude da enfermeira que preferiu fazer um vídeo absurdo, que circula pela mídia e whatsapp, em que expõe publicamente a intimidade do paciente em assistência, ferindo o código de ética a que estamos subordinados; apenas com o propósito de uma vingança descabida para a ocasião. Por sorte minha, ela divulgou nas redes sociais o vídeo que mostra, pelo oxímetro, que o nível de oxigênio do paciente estava normal.

O entregador foi levado ao Hugo. Chegando lá, qual foi o procedimento?

Os colegas do Hugo receberam o paciente e eu permaneci auxiliando no atendimento. Ao chegar lá, inclusive, fiz a intubação de Darlan. Lá foram feitas as drenagens torácicas adequadamente, como preceitua a norma técnica médica.

E aqui reafirmo a questão de que, se eu tivesse feito a drenagem torácica na ambulância, com a quantidade que foi retirada das cavidades pleuro-pulmonares, eu precisaria de bolsas de sangue para repor a perda, além de que precisaria de um centro cirúrgico para poder estancar uma possível hemorragia.

Com relações aos vídeos que circulam nas redes sociais, como o sr. avalia?

Na minha opinião, o que ocorreu foi uma denúncia por vingança. Há uma exposição do paciente e minha, por parte da enfermeira, que considero antiética e passível de punição. Não conheço qualquer profissional que filma e divulga uma ocorrência.

Eu realizei todo o atendimento que foi possível, faria o mesmo se fosse um familiar meu. Não tentaria realizar a drenagem na ambulância. O paciente não morreu pela falta de intubação, mas por sangramento interno grave e de difícil controle, além das várias fraturas que sofreu em decorrência do impacto com o veículo que trafegava em altíssima velocidade, como pode ser comprovado pelo vídeo do acidente.

Se o sr. tivesse atendido o paciente e realizado a intubação, ele teria mais chances de sobreviver?

Não posso falar que iria morrer de qualquer forma, mas o prognóstico dele era muito ruim e fiz o que estava a meu alcance e poderia ser feito. Em relação aos procedimentos, não iria melhorar a sobrevida se eu tivesse feito a intubação e a drenagem. Para drenar o tórax, eu teria que descer o paciente da ambulância o que ao invés de aumentar a sobrevida, poderia contribuir para seu agravamento e evolução do caso para óbito.

O sr. alegou isso para a delegada que investiga o caso?

O que te disse foi exatamente o que falei para a delegada. Na segunda-feira (30/1), quando fui prestar o depoimento, “o circo já estava armado”. Foi como se já houvesse sido julgado e condenado, era como se houvesse provas de que eu havia contribuído para a morte.

Eu sou formado há 16 anos, trabalhei em diversas UTIs. Não sou essa pessoa ruim que estão colocando. A linha entre a vida e a morte é muito tênue.

Essa divulgação dos vídeos, o senhor afirmou que era antiética. Chega a ser crime?

Acho que existe a previsão expressa no código de ética dos enfermeiros e dos médicos. Pelo menos no código de ética médico, tenho certeza. Não posso dizer que é um crime, mas posso afirmar que é antiético porque antes de sair a portaria do meu afastamento pela Secretaria Estadual de Saúde, fizemos um documento e lá consta os artigos do código que foram feridos pela conduta da enfermeira. Já fiz várias ocorrências com essa enfermeira e ela nunca teve essa atitude. Posso afirmar que da totalidade dos enfermeiros que trabalhei, nunca vi essa conduta.

O sr. já foi investigado por um caso semelhante, envolvendo um adolescente que foi atendido no Cais Cândida de Morais. Como foi? Ainda está sendo investigado?

O caso foi encerrado e arquivado. Houve uma sindicância na Secretaria Municipal de Saúde, uma no Conselho Regional de Medicina (Cremego) e uma investigação criminal e todos julgaram improcedente a omissão de socorro. Eu nunca fui médico deste Cais, no dia do incidente eu estava de plantão na ambulância do Samu. Na emergência, só tinha um pediatra. Então nós atendíamos os casos que chegavam. Nem eu nem o pediatra fomos comunicados que o jovem estava sem atendimento e relatos de amigos afirmam que ele já chegou morto à unidade.

É claro que me consterno com a mãe do paciente e com a família. Me consterno com o caso do Darlan, uma vida jovem que se foi enquanto estava realizando seu trabalho de forma honesta e sofre um acidente daqueles. Mas em momento algum abandonei o paciente, isso é inadmissível. Porém naquele momento, a conduta médica só cabia a mim.

Como o sr. vai lidar com isso tudo daqui pra frente?

Eu não tenho preocupação com as investigações. Imagino que a delegada do caso está na função dela de instaurar um inquérito, o que não concordo é a maneira que ela já fez um juízo de valor, quase que me condenando.

Da maneira que o caso foi colocado, a opinião pública foi induzida a erro contra mim. Mas mesmo assim tem quem questione e concorde com minha conduta quanto não ter intubado aquele paciente, dentro da viatura em deslocamento e que também acreditam que não houve omissão médica, pois a bem da verdade,eu atendi aquele paciente prontamente. Agora estou afastado da SES sumariamente.

Vou me defender no processo administrativo, no Cremego e vida que segue. Não tenho medo de condenação porque dentro da medicina, fiz tudo o que era possível. A execração pública acaba com a imagem de uma pessoa. Me sinto enterrado vivo.

Por exemplo, o dia que fui dar meu depoimento na delegacia,  tinha gente perguntando por que eu estava com fone de ouvido na ambulância. Mas não era fone, era a minha máscara, um equipamento de proteção individual. Não quero me fazer de vítima, mas qualquer pessoa com discernimento mínimo sabe que a opinião pública me execrou.

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