“Talvez estejamos no epicentro da mudança”, diz namorada de George Floyd, após condenação de policial

Derek Chauvin foi julgado culpado por todas as três acusações de homicídio

Derek Chauvin | Foto: Divulgação

Nesta terça-feira, 20, os 12 jurados julgaram Derek Chauvin culpado pelas três acusações de homicídio contra George Floyd, um ex-segurança de 46 anos. Com algemas nos punhos, o policial afastado saiu calado, após se recusar a depor, e sem saber ainda sua pena, que só será anunciada em alguns meses pelo juiz. À imprensa, a namorada de Floyd, Courtney Ross, disse: “Talvez estejamos no epicentro da mudança”.

No auge das manifestações “Black lives matter”, em 2020, o ativista Nino Brown, da coalizão Answear, havia comparado a intensidade das revoltas com as manifestações pós-assassinato de Martin Luther King. A entrevista foi dada ao veículo Brasil de Fato. Mas Floyd não era um líder político. Era um gigante de 1,93 de altura, que gostava de esportes, rap e personalizar carros. Autor de alguns delitos, encontrou sossego na religião evangélica. Com a pandemia de Covid-19, ficou desempregado. Seu último trabalho foi como segurança.

George Floyd | Foto: Reprodução

Se Floyd era um modelo, não era como Luther. Estava mais para um modelo de homem comum de periferia, cheio de vícios e erros, e buscava a redenção. Não era um herói, mas não merecia morrer, principalmente da forma como ocorreu. Ele chegou a dizer 11 vezes que não conseguia respirar com os joelhos do policial sobre seu pescoço. Floyd se somou a outros 983 assassinados pela polícia dos Estados Unidos em 2020, de acordo com base de dados do Washington Post, que coleta informações de mortos pela brutalidade policial desde 2015. Em 2019, foram 1.099 vítimas.

De acordo com o mesmo site, a população negra nos Estados Unidos representa 13% do total dos americanos, mas são mortos em dobro por policiais. O levantamento aponta que a taxa de negros mortos por milhão de habitante é 36, enquanto a taxa de brancos mortos por milhão de habitantes é de 15. Uma variação acima do dobro.

Na história dos Estados Unidos, não são escassos os relatos de brutalidade policial com pessoas negras. Em 1967, em Detroit, uma noite de terror e truculência marcou um período de guerra civil entre a comunidade negra e policiais. A explosão de violência se iniciou com a invasão de policiais a uma residência, onde ocorria uma festa com jovens negros. Foram horas de ameaças, brutalidade e humilhações que só acabaram após a morte de três jovens negros inocentes. Os policiais chegaram a ser julgados, mas todos foram absolvidos.

Breonna Taylor foi um caso recente, em 2020, que não teve tanta repercussão no Brasil como de Floyd. Ela e seu namorado dormiam em seu apartamento em Louisville, quando a residência foi invadida por policiais que investigavam tráfico de drogas. Pensando se tratar de uma invasão, o namorado de Breonna disparou, com uma arma legal, contra um dos policiais, que revidaram e assassinaram a jovem com cinco tiros. Não foram encontradas drogas ou objetos ilegais no apartamento.

Em fevereiro de 2012, o adolescente Trayvon Martin, de 17 anos, estava hospedado na casa de parentes em um condomínio de classe média. Em uma noite, por causa da chuva, ergueu o capuz da blusa de frio e saiu para comprar doces e refrigerante. Na volta, foi seguido por George Zimmerman, morador do condomínio, que supôs que o adolescente era um criminoso e decidiu persegui-lo. Após luta corporal, Zimmerman disparou contra o peito de Trayvon, que morreu na hora. Um ano depois, Zimmerman foi absolvido.

No Brasil, a polícia faz até mais vítimas que nos Estados Unidos. Foram 5.804 em 2019. Em 2020, um recorde: 6.375, de acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Ainda, 75% dos mortos são negros. Se lá, na “América”, as mudanças ocorrem primeiro. Vamos torcer para que logo esta também nos alcance.

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